Jorge A. H. Rangel *

Jorge A. H. Rangel *

“É com enorme satisfação que partilhamos com o público português esta mostra de 38 lanternas da autoria de 30 artistas, esperando que num futuro próximo se reúnam as condições para que a Exposição possa ser apresentada na sua totalidade.”

Carlos Marreiros, presidente do Albergue SCM

 

“Lanternas do Coelhinho, uma Exposição de Carlos Marreiros e Amigos” é o nome da exótica mostra que a Galeria Espaço Arte Livre, sita na Av. da Liberdade n.º 65, em Lisboa, acolheu na tarde de 5 de Maio, ali ficando patente até 5 de Junho. Cortaram a fita, à moda tradicional de Macau, perante numerosos convidados que lotaram o átrio do edifício, diversas individualidades, entre as quais dois antigos Governadores (Garcia Leandro e Rocha Vieira), a coordenadora da Delegação Económica e Comercial de Macau, Ó Tin Lin, o presidente da Ordem dos Arquitectos, o director daquela galeria, o ex-Ministro Augusto Mateus e eu próprio, na qualidade de presidente do Instituto Internacional de Macau, além de Carlos Marreiros e alguns dos artistas.

 

Dez exposições, com um total de 130 obras de 85 artistas, foram já organizadas em diversos locais com o mesmo título. A presente mostra compreende uma selecção de apenas 38 desses trabalhos, desejando os organizadores que, mais tarde, possa ser escolhido um outro recinto que permita receber a totalidade das lanternas já produzidas, cuja concepção resultou, como bem explicou Carlos Marreiros, duma “combinação de técnicas tradicionais chinesas com a criatividade contemporânea”. Os artistas são de várias proveniências, nomeadamente de Macau, Hong Kong, República Popular da China, Filipinas, Tailândia, Portugal, Itália e Holanda, com formações e actividades profissionais diferentes.

 

O significado das lanternas

 

O significado das lanternas na cultura chinesa foi salientado por Carlos Marreiros no sugestivo catálogo da exposição, que é um volume profusamente ilustrado, com mais de duzentas páginas graficamente bem trabalhadas:

 

“As lanternas são parte integrante da cultura chinesa e segundo alguns historiadores representam os primeiros dispositivos de iluminação portáteis inventados pelo homem. A origem das lanternas chinesas remonta à Dinastia Han e tem cerca de 1800 anos.

 

Antigamente, as lanternas eram construídas maioritariamente em bambu, ou madeira, cobertas de papel de seda ou papel de arroz e iluminadas no seu interior com uma vela. Havia grande variedade de formas, sendo a tradicional forma hexagonal a mais comum, com diversos protótipos, mas com modelações e técnicas diferentes, consoante as regiões.

 

Actualmente as lanternas apresentam uma multiplicidade de formas e feitios; os materiais utilizados na sua construção são o plástico, o papel ou tecido e a estrutura interior, no geral, é feita em fio de arame ou em madeira. Os tipos e as cores das lanternas são variados e os motivos vão desde animais, a heróis de banda desenhada contemporâneos, formas geométricas, etc.

 

Na China ancestral, as famílias penduravam, na entrada das casas, lanternas coloridas geralmente de cor vermelha, que assumiam a dupla função de iluminar e simbolizar a prosperidade da família. Algumas escreviam enigmas em pedaços de papel, e fixavam-nas nas lanternas. A resposta tinha de ser adivinhada, a partir de uma palavra, um poema ou uma frase. Hoje em dia, as lanternas passaram a ser um símbolo das grandes celebrações, na sociedade chinesa e de Macau. A mais popular de todas é o ‘Festival das Lanternas’, que acontece no último dia de celebração do Ano Novo Chinês, no 15.º dia do primeiro mês lunar. Uma outra celebração simbólica, considerada a segunda maior festividade na China é a Festa de Celebração da Lua ou ‘Tun Yun Festival’, no qual as famílias passeiam as suas lanternas na rua, observam a lua e reúnem-se em jantares comemorativos. Nesse sentido, desde 2009 que o Albergue SCM comemora o Festival das Lanternas e o Festival do Bolo Lunar, em simultâneo com a inauguração da Exposição ‘Lanternas do Coelhinho, tradicionais e criativas, uma Exposição de Carlos Marreiros e Amigos’. (…)

 

No sentido de perpetuar a técnica de construção de lanternas tradicionais, o Albergue SCM promove igualmente, desde 2009, workshops nos quais possibilita à população local e a todos os artistas interessados o ensino e a prática desta arte de construção tradicional.”

 

Como tudo começou

 

            A curiosidade de quantos marcaram presença na exposição foi satisfeita quando Carlos Marreiros referiu, cândida e sentidamente, a origem destas iniciativas em torno do Coelhinho:

 

“Sempre gostei de lanternas de papel. Especialmente a do Coelhinho. O meu Avô materno dizia-me que quando era criança brincava com o lampião do coelhinho. Isto foi nos primeiros anos do século passado. A minha mãe em criança brincava também com a lanterna do coelhinho. Eu fiz o mesmo. A minha descendência também. Muitos anos depois, já adulto, voltei a brincar com o lampião do coelhinho. Desde 2008 que, todos os anos, brinco pelo menos duas vezes com essas lanternas. E como gosto de partilhar, fui brincando com os meus amigos, adultos e crianças, e depois com o público. E, assim, surgiu o convívio ‘Lanternas do Coelhinho, uma Exposição de Carlos Marreiros e Amigos’. E os artistas que comigo expõem, nem todos têm formação artística. Para além de artistas, gráficos, estilistas e arquitectos, são eles engenheiros, médicos, gestores, professores, escritores, empresários e até um general na reserva. E um outro arquitecto que se tornou num político cá da praça! Como dizia, muitos não têm formação artística, porém, todos têm atitude. E, sem nos apercebermos já lá vão oito redondos anos e dez exposições simples e luminosas. Estas mostras integram-se nas referidas celebrações, com convívios populares, onde os doces e outras delícias tradicionais chinesas se degustam juntamente com aperitivos macaenses e portugueses, e onde o chá e o vinho tinto português ajudam a iluminar os corações dos convivas, cheios de humanidade dentro deles. Lá fora, o materialismo fracturante esfuma a sua neblina que não deixa vislumbrar a lua cheia.

 

            Como é simples e belo festejar a lua e brincar com lampiões! Já nos ensinava Li Bai. E a brincar… não era Fernando Pessoa que dizia que nunca foi ele senão criança que brincava. Também eu.”

 

            Memória, etnografia, criatividade, inspiração, sentimento de partilha e sentido lúdico juntaram-se para dar corpo a este já vasto conjunto de iniciativas em torno de um tema tão simples, mas que foi marcante para gerações de crianças e adultos de Macau. A esses requisitos aliou-se também a admirável sensibilidade e a capacidade organizativa e de liderança de Carlos Marreiros, professor, arquitecto e artista plástico laureado de quem Macau e os macaenses se podem orgulhar.

 

O Coelho gigante da Expo 2010

 

            No próximo artigo recordaremos o trabalho notabilíssimo de Carlos Marreiros na concepção do pavilhão de Macau – um coelho gigante – naquela que foi a maior exposição universal da história, a Expo 2010 de Xangai.

 

 

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau.

Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.