Júlia Serra*
Júlia Serra*

João Rodrigues, natural de Sernancelhe, foi mais um missionário jesuíta português que deixou marcas no Oriente. Chegou ao Japão, em 1577, ainda muito jovem, e a sua ação dividiu-se entre o Japão e a China. Afirmou-se como um grande linguista, tendo sido o autor do primeiro dicionário japonês-português e da primeira gramática da língua japonesa. Viveu muitos anos no Japão, onde assumiu, no final do séc. XVI, o cargo de procurador da Companhia de Jesus.

O envolvimento da Companhia de Jesus no comércio da seda entre Macau e Nagasaki contribuiu para inimizades entre as autoridades e mercadores, originando a sua retirada para Macau, em 1610[1].

Com a expulsão de muitos padres, missionários e cristãos japoneses, Macau tornou-se um lugar seguro para exílio, como asseverou, mais tarde, o Padre Manuel Teixeira.

Foi, então, em Macau que João Rodrigues – Tçuzu, que significa intérprete da língua nipónica, se dedicou a escrever sobre a História da Igreja no Japão, livro dedicado à arte do chá que deu origem à publicação portuguesa Arte do Chá, com base numa cópia manuscrita setecentista que, segundo informação do editor Rui Loureiro, se encontra na Biblioteca do Palácio da Ajuda. Devido ao conhecimento profundo da língua japonesa foi apodado de «tçuzu».

O famoso intérprete mantinha também uma ligação estreita com a China, tendo assumido uma posição conservadora e participado na expedição militar de 1628, contra as forças invasoras da Manchúria, o que lhe valeu um elogio da corte de Ming.

Além de reconhecer as doutrinas e costumes das várias paragens e sobre elas dissertar – caso da História da Igreja do Japão e dos seus bispos – o interesse da sua obra direcionou-se para a cerimónia do Chá, analisada por um arguto olhar europeu.

Segundo o autor, a cultura do chá foi introduzida no Japão durante os períodos de Nara (710 -784) e Heian (794-1185) pelos monges Saichõ e Kukai que vieram da China e já aí era praticada desde a dinastia de Han (206 a.c.- 8 d.c) como relatam várias obras. Foi, no período de Kamadura (1185-1336) e de Muromachi (1336-1573) que surgiu uma nova tradição, com o monge Elsai (1201-90).

Por hábito, os japoneses bebem chá transformado em pó, enquanto os chineses o preparam com folhas, em água quente, misturando-as com vários ingredientes. A obra a História da Igreja de João Rodrigues Tçuzu permitiu cruzar a história e a arte, onde a cerimónia do Chá pode ser enquadrada num princípio estético-filosófico do japonês, implicando as religiões existentes o cristianismo europeu e o zen budismo.

Segundo o investigador missionário, o uso do chá está afeto ao nível social e individual. No âmbito social, beber chá era um sinal de cortesia e uma forma de entreter a pessoa convidada; já na esfera individual, o autor considera que o seu consumo fora integrado e difundido como medicina adentro da classe social elevada e entre os monges.

Explica ainda que a planta utilizada para o fabrico do chá, da família das Camellia Sinensis, era originária do nordeste da Índia e do sul da China e a sua aquisição/importação era dispendiosa. Crê-se que só, mais tarde, o bonzo Elsai terá iniciado o cultivo da planta no arquipélago e o conhecimento do cerimonial do Chá foi mais difundido, no séc. XVI.

Ainda segundo o autor, citado Raquel Prazeres[2] ”(…) hè a couza que os Japoens entre as mundanas tem em mais estima, nem de sua antiguidade, e tempo em que começou este costume, o qual não hè muito antigo (…)” (p.87). A localização da casa de chá envolvia um ambiente tranquilo e junto da natureza “dão aos hospedes com particular edifficio, caminho ou entrada a elle, e outras varias couzas accomodadas ao fim que nisso tem que hè em geral a quieta, e socegada contemplação das couzas naturaes no ermo, e dezerto donde tambem toda a fabrica deste lugar em tudo se acomoda a este fim e solidam eremitica em certo modo de cabanas toscas feitas ao natural (…)”(p. 87).

Segundo Rocha[3], na cerimónia, após o preparado do chá, o anfitrião posicionava a tigela de chá [chawan] na frente dos convidados que, “Em seguida eles prestam cumprimentos entre si a respeito de quem será o primeiro a beber. O convidado de categoria mais alta era o primeiro e tomar três goles antes de passar para o segundo convidado, e assim o chá circulava até eles terminarem de bebê-lo” (p.36). Há aqui uma das marcas do chanoyu como uma ressonância direta do próprio sistema sociocultural japonês: a ordem e o respeito pela hierarquia.

O que ressalta deste convívio é o caráter social implícito nesta prática que tem como objetivo disseminar a igualdade social, na perspetiva de Rodrigues:” He logo este Suky que assim se chama, hum modo de rusticar dos nobres convidando a algum amigo a comer, e beber o chá na sua caza (…)”

O espaço selecionado para o convívio era relativamente simples, sem ornamentos especiais, para estimular momentos agradáveis, sem diálogos ferventes, de modo a gerar reflexões sobre o quotidiano e a vida pessoal; a pretensa aliança com a Natureza permitia a fruição de uma harmonia interior – a verdadeira função do chá. Eram interditos guerreiros (ficariam de fora) e assuntos sobre armas ou política.

Retomando a obra História da Igreja do Japão, ela continha um Prólogo e estava originalmente estruturada em três partes, em que a “Primeira Parte” apresentava uma subdivisão de dez livros com aspetos antecedentes à chegada dos europeus às ilhas nipónicas. A “Segunda Parte” completava o já exposto na fase anterior e incidia sobre a história do Japão, incluindo a missão dos jesuítas e, finalmente, a “Terceira Parte” aprofundava mais a ação missionária alargada à China, Coreia, Camboja e Sião.

Nesta abordagem global da obra, há aspetos que interessariam focar particularmente, sobretudo, a questão do budismo que, pelas leituras se induz que Rodrigues pretendeu, através do Cerimonial do Chá, motivar a concentração entre os praticantes para a espiritualidade Zen, o que é mais notório nos dois primeiros volumes da História.

Os aspetos da religião, que seriam mais esperados pelos leitores esvaíram-se na mapeação do território, na flora e fauna, nos costumes e até na astrologia, fornecendo-nos, assim, uma visão geral do território, talvez descurando o mais profundo.

Na perspetiva de Prazeres merece principal destaque a ligação entre o culto do kami – os kami seriam o estado primário das divindades, enquanto os budas constituíam as marcas da sua descida à esfera terrestre, para o contacto com a humanidade – e o poder político nipónico, pois houve uma abertura para a introdução e integração da doutrina budista, que floresceu durante o Período de Kamura.

Muito mais haveria para descrever sobre a obra do nosso Missionário luso, mas é impossível e seria entediante para os leitores abordar todos os pormenores da obra. Assim sendo, termino com uma passagem de João Rodrigues, em forma de convite: “Do modo se convida a beber châ, e que couza seja o châ, e desta cerimonia tão estimada entre os Japões”.

 

NOTAS:

  1. Entre os anos de 1592 e 1595, João Rodrigues debruçou-se novamente sobre os estudos de Teologia Escolástica na residência de Todos os Santos em Nagasaki e sob a responsabilidade do espanhol Pedro de la Cruz. Durante esse espaço temporal fez visitas a Hideyoshi na sua corte em representação da comunidade jesuíta, uma vez que era o único missionário que tinha permissão oficial para se fixar em qualquer lugar no território nipónico.

  2. Prazeres, Raquel Sofia Baptista dos, Visões do Oriente. O Budismo no Japão aos olhos de João Rodrigues Tçuzzu, Dissertação de Mestrado em História Moderna e dos Descobrimentos, 2012.

  3. Rocha, Joanes da Silva, O Chá e a Cruz: A essência estética japonesa do Wabi-sabi na descrição da Cerimônia do Chá na obra de João Rodrigues Tçuzu, Brasília, 2015.

     

    *Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau