João Figueira *

João Figueira *

Vivemos  na sociedade da exposição. Já não basta ser ou existir – é preciso exibir, mostrar. Só quando são exibidas, as coisas (e as pessoas) têm valor no actual mercado de transacções de imagens.

O filósofo coreano radicado na Alemanha, Byung-Chul Han, já discorria sobre o assunto, em “A sociedade da transparência”, quando a páginas tantas nos atira esta frase: “os políticos não se medem pelas suas acções, e isso gera neles uma necessidade de encenação. A perda da esfera pública deixa um vazio onde se vestem intimidades e coisas privadas. Em lugar do público, introduz-se a publicação da pessoa. Esfera pública torna-se assim um lugar de exposição”.

Assim sendo, ganha especial protagonismo tudo o que é espontâneo, logo, precário, veloz, como se às vezes nem tivesse existido. Anthony Giddens, num outro contexto, mas com preocupações em parte idênticas à de Byung-Chul, afirma a certa altura que colocados diante da moralidade cosmopolita dos nossos dias, “nenhum de nós terá uma razão digna para viver se não tiver uma causa por que não valha a pena morrer”.

Estaríamos, ainda, no plano das grandes causas, dos valores pelos quais, como Churchill argumentava, valia a pena fazer uma guerra. Só que os contextos são outros. Agora vivemos um tempo a que poderíamos chamar, recorrendo a uma outra obra de Byung-Chul – “A sociedade do cansaço” -, a “violência do consenso”.  Trata-se de uma violência viral, marcada por outros tipos de violência, como a das redes (sociais) e a virtual.

Lá está: novamente a ideia inicial da exposição, mas potenciada agora com a necessidade de sentir que se expõe algo. Dir-se-á, contra este argumento, que já tínhamos a poesia visual e não é por isso que ela perde a sua importância e expressão. É verdade. Porém, se os elementos visuais, plásticos, digamos assim, constituem os elementos-chave da poesia visual, tal não significa que a ideia de exibição seja um fim em si mesmo. Como é no ato da exposição pela exposição. Que não raras vezes desagua, depois, numa sobreexposição.

Mesmo o poema-objecto, tão caro e próprio da poesia concreta, está longe dessa intenção imediatista e primária da ideia de mostrar(-se). Claro que podemos, também, achar um drible do Messi ou do Maradona poemas visuais, como, de resto, são alguns golos do português Ricardinho. De resto, já Baudelaire nos alertava para o facto, palpável, de a poesia estar em todo o lado.

E está. “A poesia total”, por exemplo, nome de uma colectânea de poesia de Wali Salomão, nome maior da vanguarda brasileira, tem um poeminha chamado “Orelha”, mas que em vez de escutar nos fala mansamente ao ouvido. E, sobretudo, aprecio muito aquele final em que o poeta se confessa “falível” e dá ao leitor toda a autonomia e liberdade para ler e fazer do poema o que muito bem entender.

Desculpe, eventual leitor, o meu egoísmo e não partilhar aqui o poema, expondo-o na nudez das suas palavras bem torneadas, belas e ritmadas. A poesia, no meu parco entendimento, é coisa pudica, muito íntima – o contrário do exibicionismo da exposição feito para voyeur espreitar.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau