António Aresta*
António Aresta*

José Manuel de Sousa e Faro Nobre de Carvalho [1910-1988], oficial do exército oriundo da arma de Infantaria, fez comissões de serviço no Estado da Índia [1938-1943 e 1947-1952], em Cabo Verde [1943-1944] e em Angola [1954-1961]. Em 1966, com a patente de brigadeiro, é nomeado Governador de Macau, sem saber que iria encontrar um Território amotinado, em grave convulsão, por causa da revolução cultural maoísta. Também o governo português, em Lisboa, foi apanhado de surpresa por esses acontecimentos.

A governação de Nobre de Carvalho, nesse contexto de anomia, terá sido a mais difícil e complexa em todo o século XX. Será útil recorrer aos livros de Graciete Batalha [“Bom Dia, S’Tora! Diário duma Professora em Macau”, 1991] e de José Pedro Castanheira [“Os 58 Dias que Abalaram Macau, 1999] para termos uma ideia dessa época quase apocalíptica. Hoje, na voragem do tempo tudo parece convenientemente esquecido, sobrando talvez o seu nome na icónica ponte, projectada pelo engenheiro Edgar Cardoso. Acabou por ser o último Governador do ciclo político do Estado Novo, rematado em 1974.

Irei ocupar-me apenas de umas questões aparentemente colaterais, algumas ideias educativas, apresentadas por Nobre de Carvalho, que merecem destaque pelo seu pioneirismo e inovação. Parece-me que a sua longa estadia no Estado da Índia lhe proporcionou uma visão do mundo mais esclarecida, humanista e cosmopolita. E em 18 de Dezembro de 1969, no “Dia de Goa” não se coíbe de afirmar com clareza: “Goa cativa é uma das vergonhas do mundo civilizado. Apesar do valor demonstrado por indómitas populações, estas encontram-se condenadas a um verdadeiro genocídio cultural e sociológico”.

Em duas ocasiões podemos surpreender, no discurso de Nobre de Carvalho, uma especial clarividência e solicitude axiológica para as questões educacionais.

A primeira ocasião, surgiu em 28 de Setembro de 1969, por ocasião da celebração dos 75 anos da fundação do Liceu de Macau. Perante a comunidade educativa, que compreensivelmente se confundia com a comunidade portuguesa, Nobre de Carvalho lembra os clássicos, dizendo que “não se tem pretendido apenas instruir, mas formar, também. O objectivo comum é tornar a juventude cada vez mais sã, moral e fisicamente, e mais bem preparada para a vida, a acompanhar o progresso que se acentua em todo o Espaço Português e onde, por tal razão, é indispensável dispor, em número progressivamente crescente, de profissionais bem preparados”. Questionava, ainda, interpelando os presentes: “podemos agora perguntar se nestes 75 anos de vida deste Liceu terá sido possível realizar e proceder como seria desejável, no sentido de exercer integralmente aquela acção modeladora de almas e de caracteres que se contém, implícita, numa boa educação?”.

E perante essa questão, o terá pensado a Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Educação, Ricardina Rosa Y Alberti Lopes da Silva, ali presente? Nobre de Carvalho não esquecia este desígnio nacional e patriótico, “é indispensável nacionalizar mais o ensino, dentro das possibilidades, havendo que difundir a cultura portuguesa através de uma maior expansão do veículo próprio – a língua portuguesa – factor indispensável à unidade nacional”.

A segunda ocasião, aconteceu em 8 de Outubro de 1970, na sessão solene de abertura das aulas no Liceu Nacional Infante D. Henrique e Escola Preparatória Dr. José Gomes da Silva. Nobre de Carvalho afirma que “o ensino é o diálogo por excelência, mas um diálogo que implica convergência de pensamento, unido na mesma aspiração, na procura de um resultado que possa ser aceite em comum”. Assiste com muito agrado a três exposições pedagógicas orientadas pelas professoras Beatriz Basto da Silva, Idalina Alves da Silva e pelo professor Leonel Jorge Batalha, salientando que “a verdadeira relação pedagógica é a que une o mestre ao discípulo e não a que põe em contacto instrutor e instruendo”.

Na opinião de Nobre de Carvalho, “hoje, a Escola necessita de ser um centro de acção em que não apenas se instrua mas também se formem almas e caracteres, com a têmpera suficiente para enfrentarem a luta pela vida”. O Governador faz esta exortação aos jovens: “a todos os alunos do Liceu e da Escola Preparatória, incluindo os que pela primeira vez os vêm frequentar, desejo que obtenham excelentes resultados neste ano lectivo que ora principia, desta forma e pelo seu procedimento sabendo corresponder aos pesados esforços que se vêm fazendo, em todo o território nacional, no sector da Educação – nos seus aspectos instrutivo e formativo – para que a Juventude Portuguesa assegure, de facto, o futuro de Portugal”.

Estas ideias educativas, não obstante se encaixarem nos parâmetros éticos e antropológicos do Estado Novo, permitem uma surpreendente abertura ao impensado da modernidade, mantendo assim a actualidade.

 

*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau