Albano Martins

Albano Martins*

O Governo de Portugal prepara-se para apresentar o Orçamento para 2014.

Antes ainda de ser publicamente divulgado e conhecido, já a confusão grassa na praça.

O Vice-Primeiro-Ministro declara que não há mais medidas de contenção que não as que apresentava na sua conferência de imprensa, mas poucos minutos depois já se ouvia de boca cheia que afinal de contas o rabo do tufão fora propositada e hipocritamente esquecido, que nessa política de trazer por casa é já prática comum.

Por outro lado o BP vai avançando que as suas previsões do comportamento da economia para este ano são menos optimistas que as últimas avançadas pelo Governo.

O desemprego vai-se afundando, embora os números pareçam falar de alguma atenuação, está claro atenuado pelos novos surtos de emigração, como nas décadas de sessenta do século passado. Em continuação da sugestão do próprio Primeiro-Ministro, que infelizmente para todos nós resolveu não seguir o seu douto conselho.

Enfim, fala-se já de um provável agravamento da economia em 2014 afectado pela quebra da procura interna, ela própria uma consequência da quebra da despesa pública e privada e dos níveis elevadíssimos da carga fiscal.

Pois, é nestas alturas que aparecem sempre os iluminados do costume.

Há dias ouvi um daqueles vendedores da banha da cobra, por acaso economista como eu, embora não saiba bem de que escola, que de partido imagino, dizer que afinal de contas o que estava errado na nossa economia era simplesmente o modelo de crescimento que estaria falido, pelo que  a tónica agora deveria recair sobre as exportações e a indústria de alto valor acrescentado.

Enfim, pelo menos poupou-nos às sugestões do actual Presidente da Republica que propõe hoje exactamente o contrário do que fez nos tempos em que era Primeiro Ministro, como todos os que não sofrem de esquecimento galopante bem se recordam.

Continuando, que seguindo Cavaco não iremos muito longe, que o homem aprendeu economia muito mal, como se as medidas avançadas pelo governo e aprovadas pela Troika não fossem as principais responsáveis pelo  clima recessivo que se vive hoje em Portugal.

Mesmo depois dos teóricos do FMI virem dizer que afinal o modelo que avançaram de intervenção estava errado, com efeitos colaterais devastadores para a economia dos países intervencionados, procura-se agora atirar areia para cima dos nossos olhos.

O que Portugal precisa é de uma classe de governantes e de partidos, que não estejam a rodopiar à volta dos tachos e dos negócios facilitados pelo poder político, que tenham a coragem e a capacidade técnica e política de serem honestos.

Nós podemos fazer muito melhor com o pouco que temos, o que é preciso é sermos intelectualmente honestos e profissionalmente competentes.

A encruzilhada em que nos encontramos hoje, com elevados níveis de dívida e défice públicos, de que todos os governos que passaram em Portugal são responsáveis, não pode ser argumento para se destruir a base de crescimento da economia.

Aqui, dois mais dois nem sempre são necessariamente quatro. Não estamos nem na base dez nem numa simples operação matemática.

Há muito mais vida, que se perde, para além dos números!

 

*Economista. Escreve neste espaço às sextas-feiras.