João Figueira *

João Figueira *

Moacyr Scliar, grande escritor brasileiro, filho de emigrantes russos, faz parte daquela estirpe valiosa para quem o futebol era mais que um jogo. Como contador de estórias era imbatível, lembrava a equipa maravilha que no mundial de 1958, na Suécia, arrasou os adversários e mostrou ao mundo um moleque que mais tarde virou lenda: Pelé. Ou se preferirem, Edson Arantes do Nascimento.

Seu Moacyr adorava relatos de futebol e de escrever crónicas sobre o jogo e sobre toda a mitologia que embeleza e torna ainda mais mágicos aqueles 90 minutos de um bando de gaiatos em cuecas, como dizia o nosso Ruy Belo, a correr atrás de uma bola.

Gaúcho de nascimento (1937-2011), Moacyr e esse seu jeito cativante de prender grandes audiências esteve bem evidente quando, há cerca de uma década, foi uma das estrelas que mais brilhou no Correntes D´Escritas, que é o maior evento literário latino-americano realizado em Portugal e que tem por palco Póvoa de Varzim. Pois bem: numa das sessões, o escritor contou como a casca de banana marcou a sua vida de décadas dedicadas à escrita. E então deliciou o anfiteatro cheio como um ovo, contando que seu pai, na ressaca da revolução de 1917 emigrou para o Brasil, onde chegou seco e fino que nem uma vara e cheio de fome. Alguém com quem se cruzou ofereceu-lhe uma banana, fruta que ele via e tocava pela primeira vez. Assim, abriu-a e deitou fora o caroço e comeu a casca. A audiência riu e aplaudiu, mas Moacyr explicou que foi esta estória que sempre o guiou na literatura. Para ele, a casca de banana que seu pai comeu, representa o salto no desconhecido, a aventura, a vontade de arriscar mesmo desconhecendo o chão que se pisa.

Ora, estando nós a escassos três dias de mais final da Copa do Mundo, como fintar a actualidade, fingindo que me mantinha indiferente ao fenómeno – a esse, o Ronaldo que brilhou em Espanha e no escrete que conquistou o penta, na Coreia-Japão, e ao outro que é o jogo e o espectáculo que ele proporciona com estádios lotados, pessoas a sofrer por dentro e por fora, abraços ao desconhecido do lado, as unhas que se vão no nervoso dos dentes, o salto e o grito de felicidade pelo golo da nossa equipa.

Hoje, basta resistir ao tédio dos comentadores, o futebol até parece ciência exacta. Ele são as diagonais para dentro, a defesa à zona, aquele que joga a 6 e o outro que é um 8 puro, outro ainda que é o ás no aproveitamento das entrelinhas, etc, etc, etc…

Moacyr fala de outro futebol, fala do futebol de rua, do jogo marginal e livre, pleno de improvisação. Garrincha, por exemplo, é o Charlie Parker dos corredores, das laterais, como se diz em linguagem carioca. Para o escritor que gostava de relatos de futebol, a malandragem é que está na raíz da popularidade do futebol. “Malandragem – conta Moacyr – era condição de sobrevivência. E ajudou a criar um futebol novo, diferente do inglês, um futebol baseado na improvisação, no inesperado, no surpreendente”.

Provavelmente não teremos, domingo à tarde, em Moscovo, nenhuma nova revolução, antes um futebol burocrático, previsível e calculista. Sem surpresa nem inesperado. É assim o jogo destes dias, em que ele é mais negócio (ou business, como dizem os tais comentadores entediantes) que divertimento. Talvez por isso é que agora há necessidade de montar todo um espectáculo à volta dele, precisamente porque ele deixou de ser o espectáculo, para ser um pretexto.

Estão faltando bananas ao futebol actual.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau