António Aresta*
António Aresta*

As Lendas e Contos da Velha China é o título de um livro publicado por Francisco de Carvalho e Rêgo [1898-1960], em Macau, no ano de 1950.

Francisco de Carvalho e Rêgo [FCR] foi uma figura proeminente no universo cultural português de Macau, cujo perfil intelectual já esbocei nestas páginas, estando hoje injustamente esquecido.

As Lendas e Contos da Velha China faz parte de um esforço compreensivo para penetrar no âmago da mentalidade chinesa onde flutuam valores e ditames morais e éticos inspirados no budismo, no confucionismo ou no taoísmo, demonstrando que não é por acaso que o saber estar num mundo complexo e imprevisível é também uma obra da arte de viver.

As Lendas e Contos da Velha China apresentam, ao longo de 120 páginas, os seguintes capítulos : Duas Palavras; Lenda da Povoação de Á Má; A Alma Condenada, que procura outra que possa substitui-la; A Vingança; O Anão; Os Cegos que Veem a Verdade; O Demónio de Wei-Chi; Nunca julgues os que governam, pelos actos dos seus inferiores; O Rei; O assassino que se castigou a si próprio; Lenda do fiel amigo de um rei; A força do leão, a agilidade do tigre e a astúcia da raposa; O que pertencia ao mundo dos espíritos; O tigre de Chau-Cheng; O castigo da desobediência e o prémio da virtude; A décima senhora Tou; A montanha da felicidade; O tufão; Lenda do último lamento do irmão juramentado; A boa justiça e a astúcia do magistrado.

A leitura destas lendas e contos proporcionam aquisição de conhecimentos, reflexão e divertimento e é plausível supor que foi utilizada como ferramenta pedagógica em contexto de sala de aula, como reforço nas aprendizagens as mais diversas.

Extrapolando para o caso português continental, Teófilo Braga [1843-1924] escrevia em 1883, na introdução aos Contos Tradicionais do Povo Português, que era necessário “estudar as tradições como fonte estética da Literatura”, sobretudo a oral.

Ora, estas lendas e contos são provenientes da oralidade e das palavras persuasivas, trazendo ao de cima a inteligência da velha retórica, bem acolitada pela oratória e pela eloquência. FCR assinala que “não há chineses que não contem Lendas e Histórias, assim como não há chineses que as não escutem com a maior atenção, independentemente da idade ou do grau de cultura. Crianças e velhos todos contam e escutam, com a maior atenção, os Contos antigos que, de boca em boca, chegaram até aos nossos dias, ou aqueles que, já mais modernos, são devidos a escritores que, aproveitando a predilecção do grande povo, exploram os mercados com o que ouviram e com o que a fantasia lhes oferece”.

Este é um contributo que traz uma consistência invulgar à sinologia de matriz portuguesa. Abre à comunidade luso falante uma faceta da cultura popular chinesa, com uma notável espessura antropológica. Mas, a China de antanho não é, evidentemente, a China de hoje.

Diz-nos FCR, de “entre alguns Contos e Lendas, que me contaram, já há muitos anos, escolhi para este pequeno livro os que julgo mais tipicamente chineses” (…) Alguns já foram publicados por Herbert A. Giles e, segundo creio, já foram traduzidos para português. Eu apresento-os ao leitor, como me foram contados, com mais ou menos pormenores e sem a preocupação de pretender que a exactidão esteja mais em mim do que no sinólogo distinto que os contou. São, porém, em muito maior número aqueles que nunca foram vertidos para qualquer idioma do Ocidente e julgo assim prestar um pequeno serviço à nossa Literatura sobre assuntos orientais”.

A sinologia portuguesa é tão rica que se pode dar ao luxo de esquecer alguns dos seus autores e com obra relevante…

Pergunto-me, porque é que o Instituto Cultural de Macau, sob a administração portuguesa, não reeditou as Lendas e Contos da Velha China, de Francisco de Carvalho e Rêgo? Na actualidade, o mesmo organismo deveria corrigir esse erro histórico.

 

*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau