Já aqui evoquei Francisco de Carvalho e Rêgo [1898-1960] na sua faceta de homem de cultura e pedagogista, lamentando o silêncio ignorante que recaiu sobre a sua vida e obra.

É um dos mais qualificados representantes da sinologia portuguesa contemporânea de matriz cultural e irei ocupar-me exclusivamente do seu livro “Cartas da China”, editado em Macau no ano de 1949. Mas publicou outros interessantes títulos, por exemplo, “Da Virtude da Mulher Chinesa”, 1949, “Lendas e Contos da Velha China”, 1950 ou “Mui-Fá: flôr da ameixieira”, 1951.
Francisco de Carvalho e Rêgo [FCR], residiu em Macau mais de quarenta anos e oferece-nos uma visão descomplexada, mas não eurocêntrica, da China, em sete cartas dedicadas a uma amiga, Isabel Gorjão de Almeida.
Começa por nos apresentar este singular axioma, a “China, para a grande maioria dos portugueses, é Macau. E Macau, para muitos chineses, é Portugal”. E a sua propedêutica às coisas da China implica esta prevenção: “Raros são os portugueses que, tendo vindo até à China, se tenham interessado pelo estudo dos usos e costumes, pelo complexo religioso deste estranho país, pela psicologia deste povo sem igual”. E vai mais longe na sua análise: “o português, na generalidade, julga poder conhecer a China, em todas as suas múltiplas variantes, logo que, desembarcado em Macau, entra em contacto com o criado que o serve, com o merceeiro que o fornece, com o chinês que, em defesa dos seus interesses, lhe oferece o primeiro jantar”.
Por esta amostra comportamental se percebe onde começou o falhanço da sinologia portuguesa. O português é mais um povo de acção e de alianças do que propriamente de estudo metódico ou de aturada especulação. Mas há excepções. E FCR cita-as, “eu conheci em Macau, muito de perto, Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes, dois estudiosos que se interessaram por coisas da China. (…) Trabalhei com ambos e a ambos dei a minha modesta colaboração, sendo ainda hoje admirador do segundo a quem presto aqui sentida homenagem à sua memória, lembrando com saudade e reconhecimento, as salutares lições que dele recebi. Deixou uma obra pequena obra que poderia ter sido maior se falsos amigos, vencidos pela inveja, não tivessem faltado às suas promessas”.
Mas, realça que “falar da China não é tratar de assuntos coloniais, apesar de, no Sul deste imenso e estranho país, termos encravada a nossa linda e histórica colónia de Macau. Falar da China é lembrar uma civilização cuja génese se perde com a bruma do tempo”.
Vejamos então as sete cartas escritas por FCR.
A 1ª Carta fala da nostalgia dos tempos de antanho, “quando eu cheguei a Macau, há cerca de quarenta anos, esta cidade, nobre por muitos títulos, parecia, em muitos dos seus bairros, uma cidade ou vila do nosso lindo Portugal, transplantada para estas distantes paragens”. Mas o progresso fez o seu caminho: “foi linda, Macau! Jardim que os portugueses plantaram no mais encantador recanto do delta do Si Kiang. E hoje? Uns restos dessa beleza, turbados por um bric-à-brac de construções pretensiosas, onde o cunho português não se distingue e o exotismo chinês não se descobre”. Dedica ainda bastante espaço aos “nomes dos nossos amigos chineses”, explicando como surgem e o que significam, incluindo o significado do seu nome em chinês, Lei-Chi-Cu.
A 2ª Carta trata da educação dos meninos e das meninas, lembrando que “os quatro livros da educação das meninas” foram escritos há mais de mil anos e que continua a ser uma referência histórica. Não é ignorada essa tragédia, “nas classes pobres o infanticídio é vulgar e que as vítimas são sempre as filhas”. E FCR diz-nos, “este povo, de civilização milenar, ainda hoje é supersticioso e vive subjugado a crendices absolutamente infantis”.
A 3ª Carta diz respeito à Mulher e ao seu estatuto na família e na sociedade. A “reclusão das mulheres era tão rigorosa que algumas nasceram e morreram, conhecendo apenas os compartimentos interiores das casas dos pais e dos sogros, pois nem a rua viram no dia do casamento, dado o costume de transportar a noiva em palanquim completamente fechado”. Depois da implantação da República e com o contacto com as ideias e com o estilo de vida europeu e americano, nas cidades litorais, deu-se uma grande libertação e emancipação da mulher. Mas, FCR lembra, “ainda sou do tempo em que era grave incorrecção perguntar a um chinês pela saúde da mulher e das filhas”.
A 4ª Carta é dedicada à morte e aos complexos rituais funerários que causam grande admiração a qualquer forasteiro. FCR diz-nos, “eu já vi vestir um morto, na China, e o infeliz envergou à força, vinte e cinco cabaias de seda, como enxoval para tão longa viagem”.
A 5ª Carta evoca o temperamento dos chineses, aparentemente impassíveis perante o curso inesperado da vida e o seu alheamento perante a governação. E FCR aponta este exemplo: “Nada ainda se recebeu, nada indicou a vitória comunista, nada anunciou a derrota nacionalista, nada faz prever maus dias a chegar, qual a causa de preocupações que deem dores de cabeça, que façam perder o apetite?”. Bem se enganou quando disse que “as ideias comunistas não estão nem podem estar espalhadas na China, onde a política do ventre foi sempre a única que preocupou o povo”.
A 6ª Carta é uma breve introdução à estética, em particular à pintura chinesa. Como bom discípulo de Manuel da Silva Mendes, FCR diz-nos que “para podermos apreciar uma exposição de pintura chinesa, teremos de deixar em casa os nossos olhos de ocidentais e preparar o nosso espírito para emoções diferentes daquelas a que estamos acostumados, em face da contemplação da pintura europeia”.
A 7ª Carta fornece uma panorâmica do Teatro antigo, muito diferente do europeu. FCR foca-se no comportamento da assistência, ruidosa e entusiasmada, que bebe chá e come imensas coisas. Claro é que “meia hora depois de iniciada a representação duma peça, o teatro é um verdadeiro chiqueiro, cheio de cascas de pevides, de tangerinas, de lichias, de cana do açúcar, etc. Mas não há disposição na boa arte que obrigue ao asseio e à higiene”.
Estas sete cartas que sumariamente apresentei, são um breve retrato plurifacetado de uma China histórica e cultural, em convulsão na política e nas tradições, escritas por um português expatriado, culto, sensível e largamente informado. Que impacto terão causado nos seus leitores?
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



