“Tera qui sempri têm riquéza,
Nunca guardado pa onçôm;
Alma inchido di grandéza,
Costumado têm filo bom.”
“Sã Macau! Nôsso bérço cristám,
Jardim na pê di Mundo semeado…
Sã Macau, qui têm su coraçám
N’unga dilúvio di amôr banhado.”
Duas quadras de Adé
Quase mil “filhos da terra”, ligados às Casas de Macau ou a outras agremiações da vasta diáspora macaense, visitam de novo a sua mátria querida, para mais um grande Encontro das Comunidades Macaenses, que decorre entre nós, de 23 a 30 do corrente mês, e que conta com o envolvimento de mais algumas centenas de participantes locais. Duas décadas após o seu estabelecimento como região administrativa especial da República Popular da China, Macau recebe-os de braços abertos e dá-lhes calorosas boas-vindas, desejando que este retorno a todos permita conhecer as novas realidades e as transformações aqui operadas e, ao mesmo tempo, repisar velhos e conhecidos caminhos, bem como os lugares que ficaram indelevelmente gravados na memória da cada um, sendo muitos deles património mundial da humanidade.
É com duas quadras do nosso sempre lembrado poeta Adé (José dos Santos Ferreira) escritas no “dóci papiaçám di Macau”, língua franca do tempo dos nossos avós, uma do poema “Grandeza di Nôsso Macau” e a outra de “Macau beléza di passado”, que saudamos os amigos e conterrâneos espalhados pelo mundo e que, não obstante tantas vicissitudes sofridas, jamais deixaram de guardar bem a sua terra abençoada no fundo do coração.
Um variado programa
Este Encontro, que se realiza de três em três anos em Macau, com o patrocínio do Governo da RAEM e apoios substanciais da Fundação Macau e de algumas outras entidades locais, teve início, informalmente, com um animado convívio no Jardim de Infância D. José da Costa Nunes na noite de Sábado, a que se seguiu, na manhã de Domingo, no Centro da Ciência de Macau, uma sessão cultural organizada pelo Instituto Internacional de Macau. Durante a tarde, no mesmo local, a comissão organizadora levou a efeito uma conferência sobre gastronomia macaense, que incluiu o lançamento do livro “Macau: Cultural Tourism and Macanese Gastronomy”, de Maria João Salvador dos Santos Ferreira.
A sessão solene de abertura, presidida pelo Chefe do Executivo da RAEM, que contou com intervenções dos presidentes do Conselho Geral e do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Macaenses, Leonel Alberto Alves e José Luís de Sales Marques, trocas de lembranças e a tradicional cerimónia do corte de fita, antecedeu o jantar oficial no “ballroom” de um dos modernos complexos hoteleiros, abrilhantado pela sempre apreciada Tuna Macaense e por uma muito aplaudida actuação do artista macaense Germano Guilherme.
Hoje, segunda-feira, haverá concurso de culinária macaense no Centro de Actividades Educativas da Taipa, ao mesmo tempo que se realiza a reunião magna do Conselho Geral das Comunidades Macaenses, na sede do mesmo Conselho, nas instalações da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses. Ali serão debatidos os planos e programas do Conselho. Ao fim da tarde, o Cônsul-Geral de Portugal, Paulo da Cunha Alves, recebe na Residência Consular delegações das Casas de Macau e da Comissão Organizadora. Extra-programa será apresentada, no Albergue SCM, às 15:30 horas, uma exposição de artistas macaenses da diáspora, intitulada “Mãe Macau”.
A habitual cerimónia junto ao Monumento de Homenagem à Diáspora Macaense, concebido pelo arquitecto macaense José Maneiras e instalado na Barra, ocorrerá na manhã de terça-feira, havendo também uma visita guiada por especialistas do Instituto Cultural a locais de interesse histórico. A “foto de família” será tirada na escadaria das Ruínas de São Paulo no início da tarde, terminando este dia com uma missa de acção de graças na Sé Catedral, por Macau e em memória de quantos construíram este território ao longo de séculos.
O dia 27, quarta-feira, está reservado para um passeio turístico a zonas da Grande Baía, oferecido pelo Gabinete de Ligação do Governo Popular Central junto da RAEM, estando a grande festa de encerramento do Encontro, sempre bem participada e permitindo um alargado convívio entre macaenses de muitas partes do mundo e os seus familiares e amigos locais inscritos neste muito significativo evento de cariz social e cultural, aprazada para o início da noite de sexta-feira, dia 29. Está prevista a actuação de diversos grupos, como as bandas G5 e 100%, e de artistas macaenses, como José Basto da Silva e Fernando Branco, entre outros.
Breve apontamento sobre a sessão cultural
Foi mais uma vez da responsabilidade do Instituto Internacional de Macau a organização da sessão cultural integrada no programa do Encontro, a qual teve como ponto mais alto a entrega do Prémio Identidade a duas prestigiadas personalidades locais, Carlos Marreiros, arquitecto, professor e consagrado artista plástico, e Victor Hugo Marreiros, laureado designer e artista gráfico de notável qualidade, pelos trabalhos por ambos produzidos que contribuíram, ao longo de muitos anos, para a afirmação da identidade de Macau e da comunidade macaense. A sua escolha foi feita, por unanimidade e “ex-aequo”, pelo júri, constituído pelo corpo universal dos titulares dos órgãos sociais do Instituto Internacional de Macau. Anteriores contemplados incluem personalidades como o Monsenhor Manuel Teixeira, o escritor, professor e advogado Henrique de Senna Fernandes, o comendador Arnaldo de Oliveira Sales, o Prof. Luís de Guimarães Lobato, um dos fundadores da Casa de Macau em Portugal, o Prof. Henrique d’Assumpção, macaense residente na Austrália e coordenador do projecto “Macanese Families”, António Manuel Pacheco Jorge da Silva e Frederic (Jim) Silva, escritores macaenses da diáspora, e instituições como a Diocese de Macau, a Santa Casa da Misericórdia, a União Macaense Americana, a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, o Club Lusitano de Hong Kong, a Universidade de Macau, a Escola Portuguesa de Macau, o Jardim de Infância D. José da Costa Nunes e a Casa de Macau em Portugal, e ainda os projectos electrónicos “Memória Macaense” e “Macanese Families” e o grupo de teatro Dóci Papiaçám di Macau.
A sessão cultural incluiu também homenagens às Casas de Macau e a outras organizações da diáspora; a outorga de certificados de mérito; a apresentação de diversas novas edições, entre as quais o livro “O Macaense, Identidade, Cultura e Quotidiano”, coordenado por Roberto Carneiro, Jorge Rangel, Fernando Chau e José Manuel Simões; o lançamento público de “Património Cultural Imaterial de Macau”, edição trilingue do Instituto Internacional de Macau, coordenado por Gonçalo César de Sá, Kate Springer e Mariana César de Sá; oportunas intervenções sobre o papel futuro de Macau no contexto da Grande Baía, feitas por José Luís de Sales Marques, António Monteiro e Jorge Manuel Neto Valente; apresentação do projecto “Preservando o Património – o Patuá de Macau”, de Elisabela Larrea Eusébio; e divulgação do projecto do Museu de História de Hong Kong sobre a comunidade macaense, por Belinda Wong, directora do Museu de História de Hong Kong, e Francisco da Roza, conselheiro honorário do mesmo museu e ex-presidente do Club Lusitano de Hong Kong. Uma sessão marcante e memorável.
Bem-vindos Filhos de Macau, “filo filo bom di nôssua tera”!
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



