Carlos Frota*
Carlos Frota*

Centenas, milhares de soldados nas ruas das cidades americanas, equipados para combater talvez legiões de marcianos, saídos directamente de um estúdio de Hollywood.

A película está ainda a ser filmada, mas o realizador é que manda. E o realizador é Donald Trump, o conhecido homem da televisão.

Atenção! Acção! E os actores-fantasmas movem-se para pontos estratégicos do imenso cenário hollywoodiano. E, como num pesadelo, põe-se assim em marcha a revolução pouco silenciosa da Lei e da Ordem.

Os camisas castanhas estarão a chegar…

 

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“A máxima exibição de força, não passa afinal de uma total confissão de fraqueza”. “A coragem é serena, a cobardia é agitada”. “O diálogo é a suprema expressão da coragem” …- e isto é verdade no nosso relacionamento individual, como no interior das sociedades.

E poderia prosseguir na mesma toada de máximas que vêm da noite dos tempos e se acumularam no nosso depósito comum de sabedoria humana. Também os grandes líderes nelas meditam e procuram aplicá-las, seguindo os grandes exemplos do passado. Não é, nunca foi o caso do herói inevitável destas minhas crónicas mas recentes.

Na tranquila noite de Washington, burgo quase provinciano para Capital de grande potência, de repente as ruas agitam-se e o comandante supremo, general sem estrelas (porque não as ganhou em parte nenhuma), desperta, ouve os ruídos da turba, e diz para consigo: chegou a minha hora!

Veste mentalmente o uniforme de combate (será que alguma vez o despiu, desde que é “general”?) e lá vai, a esfregar as mãos de contente, imbuído de espírito de missão, para assumir o comando. Mas de súbito interceptam-no: “general, perdão, presidente, já para o bunker que a casa está cercada! Perigosíssimos inimigos, vindos do submundo, querem conspurcar-lhe o trono, quiçá destruir-lhe a coroa, quebrar-lhe mesmo o ceptro de monarca-republicano.

E aí corre o nosso génio para os subterrâneos donde pode, com toda a segurança, salvar a América! Primeiro salvando-se a si próprio, naturalmente!

Para isso foi eleito. Para salvar a América. De si própria. Contra si própria. Da sua gente. Contra a sua gente.

Não gostou muito do bunker. Sem audiência a quem perorar. Sem os espaços infinitos onde multidões a perder de vista o adulam.

Mas foi no bunker que teve a visão profética. Estremeceu de inspiração. E quando o perigo passou, pediu uma Bíblia e lá foi, de livro sagrado na mão, mostrar-se ao seu rebanho. Não leu nenhum versículo apropriado, não o saberia aliás encontrar. Não abriu sequer o livro sagrado, não foi para isso que saiu do bunker. Foi para se mostrar aos seus piedosos votantes de Novembro. Empunhando o Livro como uma bandeira, parece que grita: como vêem, estou convosco! Não se esqueçam da vossa parte do nosso contrato!

E concluído o número de circo perante os fotógrafos, regressou ao seu gabinete. E como fazia até recentemente no quarto dos brinquedos, pôs-se a brincar aos soldadinhos de chumbo. Com carros de combate e a guarda nacional. Muitos carros. Muita guarda.

A versão real disso tudo é conhecida. Veio nos jornais e nas televisões, no Facebook, Twitter, Instagram… Só Mattis e Esper não compreenderam, coitados!

 

A culpa é dos pobres

Fixo-me, num segundo, em Donald Trump de Bíblia em punho. O momento é patético. E é revoltante. Trump o super-espertalhão a manipular as consciências da tuba ignara, a passar-lhes um atestado de menoridade mental, a avançar as peças do seu tabuleiro de xadrez político, tendo do outro lado e pela segunda vez trezentos milhões de concidadãos prestes a sucumbir ao seu magistral xeque-mate. Extraordinário! Genial! Mais uma eleição no papo!

Mais quatro anos a destruir metodicamente o que resta do que outros, em décadas de labor, construíram; a apostrofar o mundo; a ofender amigos; a ameaçar adversários; a proteger lacaios; a fazer negociatas em nome dos grandes interesses corporativos que confunde deliberadamente com o interesse nacional.

A mostrar afinal, da América, a sua pior face.

E por entre os seus lances de Garry Kasparov de trazer por casa, que tempo e que espaço do seu pensamento reserva ele aos seus concidadãos mais vulneráveis?

A população afro-americana tem uma dupla culpa histórica. Escolheu livremente a sua cor da pele e escolheu livremente ser pobre. A partir desta verdade “científica” a dobrar, todas as construções sociais (preconceitos, exploração económica, discriminação social) são “legítimas”…

Que me perdoem a amarga ironia as vítimas de tais injustiças! Mas a aparente segurança com que a franja dos supremacistas brancos vai fazendo avançar a sua agenda parece que torna verosímil o duplo absurdo com que iniciei este parágrafo.

 

Será a morte de George Floyd…

… o ponto de partida para uma revisão séria do modo de funcionamento dessa América profunda, tão cheia de contradições, indignas de um país civilizado e muito menos da primeira economia do mundo? E como será tudo isso sobretudo agora, no meio da terrível pandemia e do seu cortejo de desgraças, no plano social?

Pois não se diz que a desigualdade se vai acentuar ainda mais? Pois não se prevêem segmentos da actividade empresarial irrecuperáveis para sempre, com o consequente desemprego?

Quem vai protagonizar politicamente a grande revolução fiscal que faça os mais ricos atenuarem, o mínimo que seja, a linha da riqueza criada, a favor dos mais pobres?

 

Uma revolução… por consentimento?

Toda a gente diz que a nova economia pós pandemia verá ressurgir inevitavelmente o pensamento keynesiano adaptado às novas circunstâncias, com um papel reforçado do Estado. Às urtigas pois o liberalismo sem limites e a crença cega de que as leis do mercado tudo resolvem, porque isso não é obviamente verdade.

Será que nos momentos de reconstrução e de redefinição estrutural que se avizinham vai a América pensar finalmente nos seus pobres em geral, e na comunidade afro-americana em particular? Com investimentos consequentes em educação, em educação e ainda mais… em educação? E em formação profissional, com todas as novas oportunidades da internet?

Pelo menos uma dúzia de multimilionários fizeram há algum tempo atrás declarações públicas que pedem aos super-ricos que paguem mais impostos. O presidente e co-fundador da Salesforce, Marc Benioff, escreveu não há muito tempo o último de uma série de artigos da autoria de bilionários que pediam impostos mais altos para os ricos. O empresário de software da Califórnia, que ficou em 93º lugar na lista da Forbes 400 dos americanos mais ricos, escreveu que “o aumento de impostos sobre indivíduos com altos rendimentos como eu ajudaria a gerar os triliões de dólares que precisamos desesperadamente para melhorar a educação, os cuidados de saúde e combater as mudanças climáticas”.

Ele não é o único bilionário a querer pagar mais. Bill Gates, Warren Buffett, os 2º e 3º americanos mais ricos, são os mais acérrimos defensores do imposto sucessório.

Outros, como George Soros e o filantropo e empresário aposentado Eli Broad, apoiam algum tipo de imposto sobre a riqueza.

Com a escolha eleitoral de Novembro, quem melhor protagonizará a mudança, numa América traumatizada por quatro anos de condução política sem ética?

É que, como as recentes manifestações anti-racistas o provam, a liderança sem valores não é liderança.

 

* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau e antigo Embaixador na Coreia do Sul e Indonésia.