Um modelo antigo que continua presente.

Durante muito tempo, o desporto em Macau teve um motor claro: os clubes e as colectividades.

Antes e depois dos anos 70, num contexto institucional ainda limitado e com reduzida intervenção pública, foram estas estruturas que sustentaram a prática desportiva local. Organizavam actividades, mobilizavam participantes e asseguravam a representação externa. Em muitos casos, desempenhavam funções próximas das que mais tarde viriam a ser assumidas pelas associações territoriais.

As oportunidades competitivas eram também limitadas. Durante muitos anos, os interports com Hong Kong e algumas cidades vizinhas constituíram o principal espaço de competição externa. Tinham dimensão reduzida, mas desempenharam um papel importante na criação de hábitos competitivos, no desenvolvimento de uma cultura desportiva e na valorização do desporto local.

Essa herança merece reconhecimento. Mas o contexto actual é diferente.

Macau mudou. A sociedade mudou. Os recursos são outros. E o desporto exige hoje níveis mais elevados de organização, qualificação e coordenação. O modelo tradicional, por si só, já dificilmente consegue responder às exigências actuais.

 

Um sistema com dificuldades de continuidade

Ao longo dos anos, o sistema desportivo de Macau consolidou-se em torno do princípio da autonomia das associações. Esse princípio é legítimo e contribuiu para a estabilidade do sector. No entanto, em muitos casos, preservaram-se estruturas sem lhes proporcionar os meios necessários para responder a um contexto desportivo cada vez mais exigente.

Hoje, a realidade é clara.

Grande parte das associações concentra os seus esforços em tarefas imediatas: organizar competições locais, assegurar participações em provas regionais e internacionais e cumprir exigências administrativas. Na maioria dos casos, esse trabalho continua a depender fortemente de dedicação voluntária.

Nestas condições, torna-se difícil conciliar a gestão corrente com uma estratégia de desenvolvimento sustentado.

Falta tempo para investir na formação. Falta capacidade para planear percursos de evolução. Falta estrutura para apoiar a transição dos jovens atletas para níveis competitivos mais elevados.

O sistema consegue funcionar, mas tem dificuldade em evoluir.

Nos clubes, a situação não é muito diferente. Muitos jovens entram no sistema para competir, mas nem sempre integrados num percurso claro de desenvolvimento. Participam, representam, mas nem sempre encontram condições para continuidade e progressão sustentada.

O problema não está na entrada. Está na permanência.

Entretanto, o contexto mudou, mas o modelo nem sempre acompanhou essa mudança.

Nos últimos anos, os grandes eventos desportivos passaram a contar com uma participação crescente das seis concessionárias de jogo e de outras entidades privadas com forte capacidade financeira e organizativa. A experiência recente demonstra que esse modelo pode funcionar.

Mas esta evolução levanta uma questão importante. Se parte dos grandes eventos começa a ser assumida por entidades externas à estrutura pública, então abre-se uma oportunidade para que os organismos públicos possam concentrar mais capacidade naquilo que durante demasiado tempo ficou em segundo plano: o desenvolvimento estrutural do desporto.

Essa mudança deve ser aproveitada. Porque o problema de Macau já não é apenas a falta de condições. Hoje existem infra-estruturas, financiamento, parceiros e integração regional.

O que verdadeiramente falta é coordenação.

Num momento em que Macau procura reforçar o seu papel como plataforma de ligação regional, o desporto não deve ser visto apenas como uma actividade sectorial. Pode também funcionar como instrumento de formação, cooperação regional e valorização interna.

 

Mais espaço, mais treino, mais região

A insuficiência de espaços de treino continua a ser um dos principais factores limitativos do desenvolvimento desportivo. Em muitos casos, a prioridade atribuída às competições reduz o espaço disponível para formação e treino regular.

Este problema não se resolve apenas com mais infra-estruturas. Exige também melhor aproveitamento dos recursos existentes e uma visão mais ampla da cooperação regional.

Essa cooperação não deve limitar-se a Zhuhai ou Hengqin. Guangzhou, Shenzhen, Foshan, Dongguan e Hong Kong podem igualmente tornar-se parceiros estratégicos, em função das necessidades específicas de cada modalidade.

O essencial não é apenas a proximidade geográfica, mas a capacidade de transformar essa proximidade em oportunidades concretas de treino, competição, intercâmbio e desenvolvimento.

Para um território de pequena dimensão como Macau, esta abertura ao exterior não deve ser encarada como excepção, mas como parte integrante da estratégia de desenvolvimento.

Outro problema importante é a dimensão administrativa. Muitas associações gastam uma parte significativa do seu tempo a responder a exigências burocráticas e procedimentos formais. Essa realidade é compreensível, mas tem consequências claras: reduz a capacidade de planear, acompanhar e desenvolver.

Neste contexto, faria sentido criar, no âmbito do Instituto do Desporto, um mecanismo técnico e administrativo de apoio às associações e colectividades desportivas.

Uma estrutura simples, prática e orientada para apoiar processos, reduzir carga burocrática e reforçar o acompanhamento técnico. Mais do que aumentar mecanismos de controlo, o objectivo deve ser libertar capacidade para aquilo que realmente importa.

Também o próprio papel do Instituto do Desporto pode evoluir. Historicamente centrado no apoio financeiro às associações e na gestão de instalações, o Instituto desempenha uma função indispensável. Mas existe margem para reforçar o apoio técnico, o acompanhamento contínuo e a coordenação estruturada do sistema.

 

Formar quadros, não apenas professores

O ensino superior pode igualmente desempenhar um papel mais activo no desenvolvimento do sistema desportivo.

A Escola de Educação Física da Universidade Politécnica de Macau dispõe de condições para formar não apenas professores, mas também quadros especializados em gestão, administração, organização e funcionamento do desporto.

O desenvolvimento desportivo não depende apenas de atletas e treinadores. Depende igualmente de profissionais capazes de planear, organizar, gerir e avaliar políticas, estruturas e actividades.

Essa é uma necessidade real do sistema.

A experiência já demonstrou que esse caminho é possível. Ao longo dos anos, vários diplomados integraram o Instituto do Desporto e outras estruturas relacionadas com o sector. O passo seguinte deve passar por consolidar essas ligações e transformá-las numa cooperação mais estratégica e estruturada.

A formação não deve limitar-se ao ensino da educação física. Deve igualmente abranger áreas como gestão desportiva, organização de eventos, preparação técnica, administração e articulação prática com as necessidades concretas das diferentes modalidades.

É precisamente nesse nível que o desporto de Macau poderá construir bases mais estáveis, mais qualificadas e mais consistentes para o futuro.

 

* Analista independente do desporto e consultor em desenvolvimento regional. Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo.