“… houve em Macau um homem silencioso e tenaz (…) que dedicou grande parte da sua vida ao estudo da língua e da cultura chinesa, ao mesmo tempo que da ocidental, e ao meritório trabalho de as dar a conhecer uma à outra. Esse homem foi Luís Gonzaga Gomes.”
Graciete Nogueira Batalha, conferência proferida no dia 25 de Junho de 1991
Deixou-nos há precisamente 50 anos, a 20 de Março de 1976, com 69 anos de idade e uma imensa obra publicada, ficando alguns trabalhos por concluir ou realizar, enquanto arrumava e ia articulando os inúmeros documentos e apontamentos que foi coligindo, incansavelmente, ao longo da vida. À semelhança do que aconteceu em 2007, quando várias organizações da sociedade civil de Macau se juntaram para a celebração do centenário do seu nascimento, o cinquentenário da sua partida definitiva proporciona-nos uma nova oportunidade para nos debruçarmos sobre o seu legado cultural, recordando também o seu persistente e consequente serviço prestado a instituições locais de variada natureza, tendo maior relevância as que prosseguiam fins culturais.
Conheci-o pessoalmente, através do meu saudoso pai, quando eu ainda frequentava a Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva, no edifício onde está hoje instalada a Escola Secundária Luso-Chinesa, que tem Luís Gonzaga Gomes como patrono. Esta escola oficial foi criada no tempo em que eu tutelava as áreas da Educação e da Cultura por delegação do Governador Vasco de Almeida e Costa (1981-1986). Coordenaram a comissão instaladora as professoras Virgínia do Rego Lopes e Maria João Senna Fernandes, que escolhi para esta importante missão pedagógica. A escola continuará a valorizar a memória de Gonzaga Gomes junto de gerações dos seus alunos e das suas famílias.
Enquanto estudante, desde o ensino básico, quando ia todas as semanas às lições de violino ministradas pela sua irmã, que partilhava a casa com ele, até ao ensino superior, em Portugal e no estrangeiro, mantive frequentes contactos com ele, acompanhando interessadamente os projectos em que se envolveu e lendo e apreciando os seus sempre apelativos escritos. Além disso, Luís Gonzaga Gomes foi meu professor no Liceu de Macau, o que me permitiu falar muitas vezes com ele, sobre Macau e a cultura e tradições chinesas.
Quando regressei a Macau em 1975, depois de prestar serviço militar em São Miguel (Açores) e na então Guiné Portuguesa, já Luís Gonzaga Gomes atravessava a fase derradeira da sua existência terrena. Pude participar nas homenagens que lhe foram prestadas e, em 1984, presidi, em nome do Governo de Macau, à cerimónia de instalação de um busto seu em bronze, concebido pelo escultor Oseo Acconci, no Jardim de S. Francisco, em que foi brilhante oradora a professora e filóloga Graciete Nogueira Batalha. Também coordenei sessões de apresentação de algumas obras dele, oportunamente republicadas.
Dando sequência às intervenções efectuadas nos actos de celebração do centenário do seu nascimento, em 2007, aproveito o ensejo para lhe dedicar, agora, mais alguns artigos, a começar por este, que apresenta algumas notas biográficas deste professor, investigador e escritor, que foi, sem dúvida, o maior promotor do intercâmbio cultural luso-chinês:
Breve nota biográfica do escritor
Luís Gonzaga Gomes nasceu em Macau no dia 11 de Julho de 1907 e consagrou a vida e o talento a um fecundo e intenso labor intelectual, até que a morte o levou em Março de 1976.
Enquanto aluno do Liceu de Macau, onde teve grandes mestres como D. José da Costa Nunes, Camilo Pessanha e Manuel da Silva Mendes, foi assíduo colaborador do jornal estudantil “A Academia”. Neste interessante projecto jornalístico juvenil, que teve uma efémera existência (de Outubro de 1920 a Junho de 1921), participaram os irmãos Paço d’Arcos, filhos do Governador Henrique Monteiro Correia da Silva, que se distinguiram, mais tarde, no campo das letras. Luís Gomes tornou-se amigo deles e trocou correspondência com o laureado escritor Joaquim Paço d’Arcos durante anos.
Além de intérprete oficial, Luís Gonzaga Gomes foi professor primário, ascendendo, por mérito, a director da Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva, tendo sido também inspector, substituto, do ensino primário. Leccionou, no Liceu, Chinês e Inglês, línguas que também ensinou a funcionários públicos, sendo de realçar que foi, igualmente, professor de Português de altos funcionários chineses colocados em Macau, em organismos ligados à República Popular da China. Também foi professor da Escola dos CTT de Macau.
O seu apego ao trabalho e reconhecida capacidade recomendaram a sua escolha para elevadas funções, como as de conservador do Museu Luís de Camões, director da publicação “Arquivos de Macau”, director-bibliotecário da Biblioteca Central de Macau, vice-presidente e presidente, em exercício, da Comissão Administrativa do Leal Senado, vogal da Comissão de Terras, secretário da Comissão da Defesa e Valorização do Património Artístico e Histórico da Província de Macau, vogal-secretário da Comissão Provincial da União Nacional e secretário da comissão de instalação do Arquivo de Macau. Em organismos da sociedade civil, distinguiu-se como presidente do Rotary Clube de Macau, secretário e grande impulsionador do Círculo de Cultura Musical e do Círculo Cultural de Macau, secretário da Associação Desportiva Macaense e da União Desportiva Macaense, tesoureiro do Grupo de Amadores de Teatro e Música e director do Boletim do Instituto Luís de Camões, nele publicando muitos trabalhos sobre temas históricos e culturais.
A comunicação social foi também uma das suas paixões, tendo sido, além de director da Emissora de Macau, correspondente da Agência de Notícias ANI, chefe de redacção e administrador da revista “Renascimento”, secretário-geral e redactor do diário “Notícias de Macau” e colaborador de numerosas publicações periódicas locais, nacionais e estrangeiras.
Deixou obra notável, entre traduções, compilações, artigos publicados em jornais e revistas e trabalhos de investigação histórica e etnográfica. “Lendas Chinesas de Macau” (1951), “Chinesices” (1952), “Curiosidades de Macau Antiga” (1952), “Festividades Chinesas” (1953), “Arte Chinesa” (1954), “Efemérides da História de Macau” (1954) e “Páginas da História de Macau” (1966), todos da colecção “Notícias de Macau”, são livros seus, muito apreciados, mas já esgotados, que várias entidades locais quiseram republicar nas últimas décadas da Administração Portuguesa ou já na vigência da RAEM.
Pouco antes de falecer, mesmo estando já bastante debilitado, aceitou a incumbência do Governador Garcia Leandro, em 1974, de fazer um resumo da História de Macau, que foi a sua última produção literária conhecida. Foi publicado com o título “Algumas Noções sobre a História de Macau” na Revista de Cultura n.º 23, II Série, de Abril/Maio de 1995.
Em 1977 foi colocado o seu busto, da autoria do escultor italiano Oseo Acconci, numa das salas do então Museu Luís de Camões, sendo outro, do mesmo artista, instalado, em 1984, no Jardim de S. Francisco. Este foi, já no final da década de 90, transferido para o Jardim dos Poetas, entretanto inaugurado.
O nome de Luís Gonzaga Gomes foi dado a uma escola secundária luso-chinesa e a uma rua na Zona dos Aterros do Porto Exterior, para onde a cidade nova se expandiu, bem como à Secção Histórica do Museu Luís de Camões. O Estado Português distinguiu-o com o grau de Cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique e o Governador Almeida e Costa concedeu-lhe, a título póstumo, a Medalha de Valor, a mais alta condecoração de Macau na vigência da administração portuguesa. Em sua memória foi criado o prémio escolar Luís Gonzaga Gomes. Também lhe foi atribuída uma condecoração pelo Governo Francês (Cavaleiro da Ordem das Palmas). Em 2007, várias entidades locais juntaram-se para a celebração do centenário do seu nascimento.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



