António Aresta*
António Aresta*

A grande escadaria de acesso à Assembleia da República, em Lisboa, está ladeada por dois majestosos leões, um em cada lado, esculpidos em calcário lioz, desde a década de quarenta, ainda o edifício dava pelo nome de Assembleia Nacional.

O autor dessas obras de arte chamava-se Raul Maria Xavier [1894-1964], um notável escultor português natural de Macau, infelizmente hoje muito pouco conhecido.

Uma neta de Raul Xavier, Maria Leonor Xavier estudou e investigou amorosamente o itinerário artístico e o legado intelectual do Avô [João de Deus e Raul Xavier – o poeta e o escultor, 2012; Fidelino de Figueiredo e Raul Xavier, 2016; Raul Xavier: um macaense que abraçou a cultura portuguesa, 2017] evitando que toda essa riquíssima informação se perdesse, ou caísse no maior esquecimento.

A família regressa a Portugal, para Lisboa, quando Raul Xavier [RX] tinha três anos de idade e o Professor da Instrução Primária, Fernando Pinto Ferreira apercebeu-se do seu dom inato para as artes, chegando ao ponto de patrocinar o curso na Escola de Belas-Artes de Lisboa, onde estudou desenho com Ernesto Ferreira Condeixa e escultura com Costa Mota (Tio).

Escreve Maria Leonor Xavier: “Raul Xavier regressou a Macau em 1923, com um contrato de trabalho por dois anos na Função Pública ao serviço do Estado Português, como Condutor de 1ª classe das Obras do Porto de Macau. Teve, então, a oportunidade de visitar alguns portos da China e do Japão”. Mas esse não era, decididamente, um trabalho que satisfizesse a sua alma de artista, como se depreende de uma breve entrevista ao jornal “O Combate”, dirigido pelo Capitão Domingos da Rosa Duque, na edição de 2 de Outubro de 1924.

Já em Lisboa, RX é Mestre de Cantaria Artística na Escola de Arte Aplicada António Arroio e Professor do Ensino Técnico, na secção Pina Manique da Casa Pia de Lisboa. Com uma bolsa do Instituto para a Alta Cultura, faz um estágio artístico em Itália, aprimorando as suas técnicas escultóricas e visitando muitos museus.

RX afirma com muita convicção, em 1949: “vivo devotadamente para a arte, numa ânsia suprema de perfeição, com toda a minha alma e com toda a minha fé em Deus”.

Trabalhador incansável, vai produzindo obra, muita e diversificada obra, nomeadamente grandes esculturas e bustos de diversas personalidades [João de Deus, Azedo Gneco, Wenceslau de Moraes, Vasco da Gama, Fernão de Magalhães, Camilo Castelo Branco, Coronel Mesquita ou figuras do círculo familiar], de cenas históricas [Aljubarrota, com Nun’Álvares cavalgando], modelos de valores [A Arte e a Ciência, a Prudência, a Lei e a Justiça] ou a escultura religiosa [Santo António, S. Vicente, Senhora de Fátima, Coração de Jesus, António de Lisboa, ou o Papa Pio XII], invariavelmente expostas em espaço público.

Duas peças escultóricas, a “Saudade” e a “Serenidade”, segundo Maria Leonor Xavier, “conjugam-se numa síntese de Oriente e Ocidente, que são inseparáveis na personalidade e na arte do escultor: a Serenidade, que evoca uma virtude do Oriente, é uma peça de traços neoclássicos do Ocidente; e a Saudade, que evoca o mais característico sentimento português, é uma figura de oriental atitude meditativa. Esta é, com efeito, uma atitude que se repercute expressivamente em grande parte das obras do escultor macaense”.

RX dedicou-se também à produção de medalhões, de medalhas e de ex-líbris, pelo que a sua criatividade parecia não ter limites.

O Museu Municipal Dr. Santos Rocha, na Figueira da Foz, inaugurou no dia 9 de Setembro de 1962, a “Sala Raul Xavier”. Mas muitos outros Museus portugueses e colecções privadas guardam obras de RX.

A sua obra artística foi objecto de inúmeros estudos, destacando-se: Oldemiro César, Raul Xavier, Escultor, 1943; Luís Chaves, Raul Xavier. Escultor Estatuário, 1946; Émile Schaub-Koch, Raul Xavier – sculpteur portugais, 1957; António Madahil, Os Ex-Líbris de Raul Xavier, 1963.

Foi condecorado com o grau de Oficial da Ordem Militar de Cristo [1941], com a Comenda Pontifícia da Ordem Equestre de S. Silvestre [1958] e com o grau de Cavaleiro da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada [1959].

Num artigo escrito em 1910, na Revista A Águia, sobre Tolstoi, Teixeira de Pascoaes escreveu o seguinte: “o pensamento faz da Natureza o mesmo que um escultor faz duma pedra: converte a sua confusão material numa harmonia espiritual”. Esta busca incessante de harmonia espiritual na arte foi o trabalho da vida de RX.

Será talvez este o tempo de se fazer pedagogia, isto é, produzir um grande Catálogo da sua Obra, para o conhecimento e ilustração das novas gerações.

 

*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau