Jorge A. H. Rangel *

Jorge A. H. Rangel *

“Uma futura Escola Portuguesa de Macau serve este nobilíssimo propósito: aprofundar e ampliar a mais-valia do Território no contexto da confluência criativa entre dois mundos…”


A propósito do 20.º aniversário da Escola Portuguesa de Macau, que se comemora, com justificado júbilo, no corrente mês de Abril, recordámos, no artigo anterior, os discursos de dois altos responsáveis políticos do Estado Português, proferidos no dia 18 de Abril de 1998, no acto público que assinalou formalmente a criação daquela Escola.

O Primeiro-Ministro, António Guterres, classificou a Escola como “um elemento fundamental da afirmação de Portugal”, “no contexto das relações internacionais do nosso país”, mas “também no contexto da nossa identidade”, devendo ela constituir “um marco não só do sistema de ensino português, mas um marco do sistema educativo nesta parte do mundo”.

Por seu lado, o Ministro da Educação, Eduardo Marçal Grilo, explicou a constituição da Fundação Escola Portuguesa de Macau, identificou os seus primeiros parceiros e obreiros e expressou os seus agradecimentos pessoais e os do Ministério às entidades que ajudaram a “atingir o objectivo que a todos nos mobilizou e uniu”, sendo a Fundação “uma peça essencial da presença de Portugal em Macau e sobretudo um instrumento que vai permitir aprofundar a cooperação entre Portugal e a República Popular da China, numa lógica de diálogo e de interacção culturais que não se esgotam nesta iniciativa mas que se completa com a aproximação crescente que vem ocorrendo entre instituições portuguesas e chinesas da área educativa”.

 

Orientações estratégicas

Juntamos agora a intervenção de Roberto Carneiro, presidente do Conselho de Administração da Fundação Escola Portuguesa de Macau, que merece ser reapreciada neste tempo de necessário balanço. Com clareza e fluência, apontou, desde logo, rumos e objectivos estratégicos:

“Macau enfrenta, neste virar de século, um novo ciclo da sua história.

A mudança de Administração que terá lugar a 20 de Dezembro de 1999, feita de modo tranquilo e concertado, apresenta-se para o Território e para a sua população como uma extraordinária oportunidade, potenciando o aprofundamento de uma estratégia diferenciadora para Macau, no contexto da grande nação chinesa.

Num tempo de globalização os grandes espaços necessitam de pontes eficazes. Portugal e a Europa precisam de iniciar um novo período de abertura à grande pátria chinesa, do mesmo modo que a China vê em Portugal e na Europa um parceiro indispensável ao seu desenvolvimento.

Só por acaso – um acaso que terá distado uns escassos 50 anos – os grandes navegadores coevos Cheng-Ho e Bartolomeu Dias não se encontraram em plena costa oriental africana. Por mero capricho do destino, um encontro marcado para ter lugar no mar só viria a ter lugar em terras macaenses algumas décadas mais tarde.

Uma futura Escola Portuguesa de Macau serve este nobilíssimo propósito: aprofundar e ampliar a mais-valia do Território no contexto da confluência criativa entre dois mundos, apostando numa presença activa da língua e da cultura portuguesa bem como nas condições de um diálogo perene com as matrizes linguística e cultural chinesas.

Para a família e a cultura chinesas, a educação é a mãe de todas as oportunidades, a porta de abertura para o futuro. ‘A vida é limitada, mas o aprender é ilimitado’ como repetidamente ouvimos dizer na sempre fresca sabedoria confuciana.

Do mesmo modo, para Portugal, os investimentos na promoção da sua língua e na valorização da sua cultura são o seu mais incontornável desígnio, um dever indeclinável para quem durante 500 anos vagueou pelo mundo, semeando os seus mistérios.

Neste entendimento, a futura Escola Portuguesa de Macau serve um quíntuplo objectivo estratégico:

1. Dar continuidade ao legado espiritual e intercultural de Macau, fortalecendo a indispensável contribuição da presença multissecular portuguesa no Território.

2. Favorecer a afirmação dos traços diferenciadores de Macau e elaborar sobre as suas mais marcantes especificidades.

3. Constituir-se como sede de um verdadeiro centro de excelência educativa dotado dos mais avançados meios pedagógicos e vocacionado para prestar serviços avançados em educação e em formação, para benefício de toda a região envolvente.

4. Ministrar o ensino da e em língua portuguesa, de natureza curricular e extracurricular, mediante uma cuidada articulação com outras instituições de referência no Território.

5. Estabelecer pontes entre as línguas e culturas europeias de grande expressão internacional e a chinesa, por forma a potenciar a vantagem competitiva da população beneficiada e a permitir a emergência gradual de futuras gerações, no mínimo, trilingues (isto é fluentes nos idiomas chinês, português e inglês).

 

China e Portugal entrelaçam-se num eterno abraço macaense. A sonoridade da palavra é confrangedoramente curta e pobre para o significar. A expressão, porventura, mais feliz para o traduzir encontrar-se-ia na bela palavra do grande poeta chinês Li Bai: O teu cavalo é baio, / o meu cavalo é branco. / Diferente a cor dos cavalos, / semelhante o coração dos amigos.”

 

Um balanço decisivo

Vinte anos volvidos, importa reequacionar, à luz da experiência feita e dos resultados alcançados, o quíntuplo objectivo estratégico oportunamente traçado por Roberto Carneiro. Tendo ele acompanhado, intensa e empenhadamente, o funcionamento da Escola ao longo de duas décadas e conhecendo profundamente o seu percurso, nem sempre linear e sereno mas que, com todas as insuficiências constatadas, pode ser reconhecido como uma história de sucesso, o seu papel no balanço que importa fazer é indispensável.

Um livro em execução, artigos e entrevistas que serão certamente publicados e as intervenções públicas que integrarão as comemorações contribuirão para fazer a história deste projecto educativo fundamental, mesmo sabendo que muito do que se discutiu e se estudou, ainda na fase das opções que foram sendo consideradas, bem como episódios relevantes relacionados com os caminhos percorridos, poderão nunca ser completamente conhecidos. No entender de muitos, talvez já nem interesse relembrar ou aprofundar tudo, porque é o amanhã que deve, sem dúvida, preocupar mais os responsáveis.

Com as alterações estatutárias recentemente efectuadas, de que se destacam a sua conveniente reestruturação e a criação de um conselho de curadores, constituído por personalidades que são, no seu conjunto, mais-valias para a Fundação e para a Escola, a par da ampliação dos apoios oficiais locais, poderão estar criadas as condições para, com realismo e ambição, se consolidar o funcionamento da Escola como instituição de referência e se redimensionar, com visão de futuro, a sua capacidade e os seus meios, para que ela possa assumir integralmente o papel que lhe foi confiado desde a primeira hora.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.