Júlia Serra*
Júlia Serra*

José Luís Mendonça é Mestre em Direito, foi adido cultural na UNESCO, em Paris, e diretor e redator-chefe do semanário “Cultura – Jornal Angolano de Letras e Artes”, das Edições Novembro, durante sete anos. Para além disso, é professor universitário, membro da União dos Escritores Angolanos e, em 2018, refundou o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola.

Autor de um alentado número de livros, com várias publicações em Portugal, constrói os seus textos pensando nos momentos políticos do país, na guerra, no significado da independência, aproveitando esses temas para valorização da Literatura Angolana e para a reconstrução da História.

A tessitura mesclada da escrita vai -se desenvolvendo ou encolhendo, de modo a reconfigurar uma realidade, ficcionada ou verosímil, que o autor e jornalista trabalha para o leitor. Esta hibridez é mais percetível no romance, mas o autor propende, sobretudo, para a poesia, espraiando-se em temas variados que a terra, a política e a geografia consolidaram na trajetória mental e emocional do ser.

Assim, o título da sua estreia poética (1981) “Chuva novembrina” assinala a importância da celebração do Dia da Independência Nacional de Angola, 11 de novembro (1975). É o marco para a reconstrução da identidade angolana, por isso, o poeta canta “Chuva-chuva doce chuva/entra no meu coração/doce chuva solitária.” – a liberdade política junta-se à liberdade poética. Volvidos cinquenta anos é uma data festejada, com os poetas a ler poesia e a refletir sobre a Terra-Mãe.

O poema selecionado para uma abordagem mais completa do poeta intitula-se “A Sombra da Palmeira& O Círculo do Fogo”. A referência à “palmeira” leva-me para o poema de Fernando Pessoa “Meu coração é um pórtico partido” (publicado na Revista Centauro, em 1916). Este poema inicia-se com uma metáfora que o poeta esclarece que o coração “dá excessivamente sobre o mar” – no desenvolvimento do texto o espaço real e o espaço onírico cruzam-se. O poeta tenta comunicar através das velas do navio, mas conclui que as velas são inúteis e a comunicação é impossível, porque o poeta situava as velas na alma e no mar misterioso aí existente.

A sua crença vai mais longe, quando o sujeito poético vê nesse mar (a alma do poeta) um pórtico (o coração) que simboliza a emoção e o lugar de trocas afetivas e espirituais. Frustrado, pela negatividade resultante da falta de comunicação, transita para a viagem, como meio de apaziguar a angústia “pelo pórtico ido”.

A transição para o mundo do sonho surge “E em palmares de Antilhas entrevistas/ Através de, com mãos eis apartados/ Os sonhos, cortinados de ametistas.”

O sujeito poético reconhece que tudo está na imaginação, embora contraste com o substantivo “palmares”, terrenos onde crescem as palmeiras, remetendo estas, pelo seu porte, pelas folhas largas e pela origem exótica, para a tranquilidade e paz … o que nele não existe. Segue-se a alusão ao arquipélago das Antilhas – o longínquo a emoldurar a perspetiva visionária e os descobrimentos.

Numa interpretação mais sintética, predominam neste soneto os sonhos que tentam sobrepor-se ao real, mas não conseguiram, pelo negativismo evanescente e explícito na designação “eis” que supunha ser uma oportunidade, depois de “apartados os cortinados”, em contrapartida, surgem sombras: “soslaio das sombras e ruído” simbolizando a angústia existencial permanente que sempre lhe invadira o espírito. Ora esta dupla lexical de “palmares e sombras” gera linhas de intertextualidade com o texto de José Luís Mendonça.

A “Sombra da Palmeira” surge associada ao “Círculo de Fogo” resultando, desta junção, uma linha de continuidade, aparentemente antagónica, porque a primeira, dado o grande porte da árvore e a largura das folhas, pode ser uma metáfora de refúgio, enquanto o círculo, com simbolismo mais lato, pode significar a perfeição, o mundo, o movimento do tempo e até magia.

No caso em evidência está ligado ao fogo, sugerindo uma estabilidade entre o corpo e a alma, com dimensão hermética, sem ser fogo de destruição, mas de encaminhamento para o amor, sexualidade e espiritualidade.

Nos dois primeiros versos do poema há uma comparação entre a mulher e os dois elementos – “Mulher alta como a sombra da palmeira/ Mulher negra como o círculo do fogo”– que ajudam a caracterizar a mulher e a situá-la geograficamente, considerando os termos angolanos “calumba e libanga” (primeira estrofe). Foi esta “rapariga”[1] negra que atraiu o sujeito poético, à semelhança da “Circe” de Camões; embora na poética clássica camoniana esta “feiticeira do amor” fosse uma espécie de deusa, um modelo petrarquista, neste poema angolano de Mendonça a imagem feminina pertence a uma classe mais inferior, mas não deixava de ser o estímulo dos sonhos do sujeito poético “libanga[2]” dos meus sonhos”.

Nesse tempo ido, não perdeu o seu rasto, e o jogo entre o eu/tu continua na descrição e revelação dos efeitos desse sentimento escondido, como uma música do subterrâneo. A figuração dos seios com o pássaro e o desejo despertado no corpo: “Teu seio de pássaro inorgânico/ainda constrói nos meus dentes” é transposto para a paisagem envolvente “um micro-clima de afectos/ uma geografia de batuques/ na infra-estrutura de um rio.”

A mapeação do amor e dos seus efeitos estava traçada para sempre… “o mágico veneno” instalou-se na corrente e sufocou-o, porque banhando-o, não ousou proferir as palavras pensadas: “O mesmo agora ainda separas/no litoral do meu verso/ a luz da tarde a luz verde do mar e a luz/ vertical das palavras que nunca dissemos.” Uma espécie de gradação ascendente que eleva o amor –pela posição “vertical das palavras” – a um plano superior.

Na mediação da lembrança do amor e da “Calumba” surge uma alusão à guerra “a Kalashnikov” e a cor do sangue a avivar a imagem dos lábios do “tu” com o cenário bélico gravado na pele: uma mescla temporal de diferentes vivências a reproduzir os efeitos memoriais do sujeito de enunciação. E, na última estrofe, a revelação do poeta: ela foi a fonte do poema, como figura artística representada no portfolio “dos nossos corpos mais sujos que o conceito azul da terra”.

E, a jeito de refrão, ressurgem os primeiros dois versos: “Mulher alta como a sombra da palmeira. /Mulher negra como o círculo do fogo.” Uma colagem dos corpos que resistirão para sempre. Não será também um hino à Terra – Mãe, espaço de guerra, de luta e de profundo amor?

Agostinho Neto, médico, escritor e político angolano, foi presidente do Movimento da Libertação de Angola e, em 1975, ascendeu à categoria de presidente de Angola. Fez parte da geração dos estudantes africanos que lutaram pela independência do país. A sua obra literária espelha o fulgor e as tempestades da sua luta política, como exemplifica o poema “O verde das Palmeiras da minha mocidade”, escrito na prisão de Caxias, a 25 de fevereiro de 1955.

Tal como José Luís Mendonça retrata as palmeiras como ícones da sua terra e das saudades, após a ausência: “As canoas serpenteavam lestas/sobre as águas sujas/ afastando escória e podridão/(…) Eu fugia do Verde/ do verde negro das palmeiras/da minha mocidade.” Na construção do poema entram as várias emoções do poeta representativas do povo. Na largada da sua terra natal ia “afagando o dedo da insegurança” e as saudades da sua Terra-Mãe, onde se construiu um homem negro, lutando pelos seus direitos e pela igualdade universal que se tornaram imagens permanentes. As águas do rio Kuanza não eram azuis nem claras, mas sujas e atulhadas de podridão, assinalando a metáfora do medo e a alegoria do mal… enquanto o poeta fugia do verde-negro das palmeiras. Na penúltima estrofe do poema, o sujeito poético resfolga fé e esperança: “E nos gritos embrionários dos velhos mundos/ tudo revive/esta dramática mocidade de reencontro/tudo revive em peitos largos de ansiedade/ofegantes à força da verdade/alicerçados no imperecível.” As palmeiras e o “verde” são o símbolo da Esperança e da Fé aliadas à sua juventude e prenúncio da força que o poeta encarna para continuar a lutar pela sua terra e construir a História do País.

E a realidade comprovou que, após a morte de Agostinho Neto (em 1979), o dia da Independência “11 de Novembro de 1975” continua simbolizado no verde-negro das palmeiras que foi/é o lugar de reencontro dos poetas que abriram o caminho para, livremente, redefinir a sua identidade literária.

Atualmente, os poetas angolanos continuam a versejar sobre a sua História num acúmulo de prémios internacionais, como epígonos de uma gesta lendária. José Mendonça pertence a esse séquito literário que adregou descobrir “a sombra das palmeiras” e transformá-la numa alegoria.

 

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau

 

  1. Calumba – no contexto bíblico, pode significar a “corcunda” que Jesus libertou.
  2. Libanga -pode referir-se a um rebanho de animais; no caso concreto, a metáfora dos sonhos do sujeito poético.