Maria Antónia Jardim*

Maria Antónia Jardim*

O Homem é na sua essência um Homo Simbolicus, na medida em que revela essa tensão dialéctica própria ao símbolo: revelação e ocultação.

Conhecer o Homem na sua plenitude implica a busca de Utopias do Ser Humano. É numa obra de nome Utopia e Educação, editada pela Porto Editora e de autoria de Adalberto Dias de Carvalho, que se refere a posição de Paul Ricoeur a este respeito: “Ricoeur considera que, com uma eventual renúncia às utopias, o homem perderia a sua vontade de moldar a história”, sendo que o autor considera “que isso tem como efeito central permitir tornar possível a transformação do presente em favor de estádios e organizações mais compatíveis com as aspirações do homem e, deste modo não condenar sub-repticiamente o futuro à fatalidade do presente”.

Isto é importante referir visto que a utopia surge como uma autêntica contra-realidade que é impulsionada pelo fundamento ético da dimensão crítica do dever-ser. A utopia desafia a História e a própria Educação do Devir, o que implica uma pedagogia utópica e uma consciência ética, que ,como indica Levinas, nunca é, com certeza, uma consciência espontânea mas uma consciência educada. Em última instância, vamos ter a Kant que nos diz nas suas Réflections sur l’Éducation, que “O homem não se pode tornar homem a não ser pela educação. Ele não é senão o que a educação faz dele”. Há, pois, que educar os deveres e os direitos para uma ética da responsabilidade da pessoa humana. Desenvolver as capacidades simbólicas, consciencializar as utopias, experimentar o caminho de Sócrates, torna-se essencial, libertador da nossa própria condição humana; compreender que temos uma memória do passado e perspectivas do futuro mas que a emoção está e é do presente e é única.

A educação ética passará definitivamente por uma hermenêutica, por uma dialéctica reveladora que o próprio discurso possui e que ajudará o leitor a uma auto-compreensão e a um auto-conhecimento, que o ajudará a um estar-no-mundo com uma perspectiva de valores universais. Sendo assim, pergunta-se:

– Que relação entre educação ética e defesa nacional?

– O que motiva esta dialéctica estratégica?

A vida é feita de escolhas e os padrões éticos é que determinarão a forma da nova ordem mundial emergente. Como tal, Portugal não se pode excluir deste processo decisório, visto que uma decisão é uma determinação “efectiva” de política, como se afirma in Autoridade e Poder (p.28); o processo de executar determinado curso de acção; o poder é a participação no processo decisório. O poder político tem que ver com o poder sobre as pessoas, com o modificar da sua conduta, logo, tem que ver com valorizações específicas, com um controlo sobre práticas e padrões de valor. É o poder de… sobre… que pode originar conflito de interesses ou um direito de justiça.

Para, de tal, termos consciência, há que perceber um determinado modo de ser e de estar-no-mundo, sobretudo o nosso: o de ser e estar-no-mundo Português. Os valores culturais, éticos, religiosos que envolvem a identidade nacional e aí, quer a nossa História, quer a nossa Literatura, com os seus respectivos heróis e anti-heróis, revelam-nos muito sobre a memória do nosso Passado e sobre os desejos do Futuro. É aí que se revelam também as características da defesa dentro do modo de ser Português. É aqui que a educação começa a ter o papel de formar uma autêntica consciência nacional, através das fontes e da hermenêutica das mesmas, para que o carácter dos cidadãos constitua a força e o espírito de defesa, essa vontade esclarecida e determinada.

Relembremos o aviso feito a J. Kennedy por André Malraux, a propósito da intervenção norte-americana na Europa, durante a II Guerra Mundial – “a defesa é a vontade de defender”, por isso é que muitas vezes consciência é um outro nome para convicção.

No que nos diz respeito, defenderemos uma educação ética, mais épica no sentido de estabelecer pontes cognitivas entre o Ocidente e o Oriente, mais universalizante e humanista na simbólica dos valores, que promova uma auto e hétero – avaliações, uma melhor compreensão do mundo em que vivemos com toda a sua diversidade singular, em que a ética funcione já como hermenêutica da própria moral, dos costumes, das tradições, da cultura e dos seus valores.

Cada vez mais é importante ouvir e ouvir de novo, o mesmo é dizer, ler e reler, ouvir com os olhos as histórias da História e perceber e interpretar com os ouvidos no Passado, os lábios no Presente e os olhos no Futuro. Nesse Futuro, como sublinha F. Carvalho Rodrigues, “a comunicação dará lugar à comunhão”, como também afirmou Ricoeur, haverá bens comuns a partilhar porque pelo meio houve o esforço da concretização dos desejos e uma avaliação consciente das capacidades de cada um. É que a educação também ela se transforma. Atravessa tempos de mudança. Uma mudança que implica promover nos alunos a capacidade de pensar. Na medida em que os alunos podem ser estimulados a tomarem consciência, a conhecerem e a controlarem os seus processos mentais ao longo da aprendizagem dos conteúdos curriculares, o livre-arbítrio, a escolha de valores, enfim, o desenvolvimento moral do aluno sofre metamorfoses.

É este ensinar a pensar, a avaliar, a tomar consciência dos conhecimentos armazenados na memória e a activá-los, podendo relacioná-los com o texto que lê ou com o mundo à sua volta, igualmente legível e interpretável, que constitui a textura de uma educação ética ao serviço de uma defesa nacional; uma vertente essencial para capacitar os alunos a darem um contributo pessoal no processo permanente de transformação e construção social e pessoal dos valores.

 

* Doutorada em Ciências da Educação pela Universidade do Porto e Professora Universitária, com Agregação em Psicologia da Arte. Escritora e Pintora, publicou diversos livros académicos, sobre Hermenêutica, Simbólica, Psicologia da arte, imaginativa onírica e novas pedagogias.