Dez de Junho é Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Como habitualmente, compete ao Consulado-Geral de Portugal, com a prestimosa colaboração de diversas entidades locais, organizar um digno programa comemorativo merecedor da ampla participação da comunidade portuguesa local.
Cumprindo uma tradição iniciada há quase um século pelo Governador Rodrigo Rodrigues, devoto camonianista, uma das actividades de maior significado e elevação será a romagem ao Jardim e Gruta de Camões, para uma homenagem ao imortal vate. Ela foi muito marcante para gerações de crianças e jovens que, ano após ano, ali se juntaram, evocaram a Pátria, cantaram o hino nacional, declamaram versos do Poeta e no pedestal do busto deixaram, simbolicamente, lindas flores. Fi-lo a partir dos 4 anos de idade, acompanhando o meu saudoso Pai ou os colegas do Jardim de Infância D. José da Costa Nunes, da Escola Primária Oficial Pedro Nolasco da Silva e do Liceu Nacional Infante D. Henrique, as minhas escolas em Macau.
No mês de Junho, em anos anteriores, trouxe para este espaço textos, em prosa ou em verso, de outros escritores a nós de algum modo ligados, cabendo agora a vez, a propósito da recente republicação de “Macau Vista por Dentro”, a J. J. Monteiro, grande poeta popular português radicado neste bendita terra que escolheu para ser também sua.
De Macau e a Sua História
Do seu poema “De Macau e a Sua História”, que ocupa 26 das 470 páginas de “Macau Vista por Dentro”, transcrevo estas elaboradas oitavas dedicadas a Camões, escritas na fase de maior maturidade do autor:
“Factos mais importantes da História
Desta linda terra Macau, nobre e legal,
Quisera eu narrar, sem ter a glória
De a mim me acompanhar a musa ideal,
Que acompanhou Camões de alta memória,
Ao escrever no seu Livro Imortal
Os feitos duma gente resoluta,
Como Macau o ouviu naquela gruta!
É certo que o silêncio do Poeta
Não fala de Macau, nem nada diz
De ser a sua estada aqui concreta,
Talvez por se julgar muito infeliz
Com a morte da sua tão dilecta
Natércia que, também sem ser feliz,
Morreu pensando nele e ele nela.
Aqui naquela gruta, longe dela.
Diz-me, ó gruta, se igual ao teu negror,
Não eram dele as queixas mil que ouviste?
E se não foi também com pranto e dor
Que a sua musa, então falando triste,
Assim disse, inspirando o bom Cantor:
– Alma minha gentil que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente!…
Gruta benigna, sábia testemunha,
Do seu amor à Pátria e mais também
Dos lânguidos suspiros que lhe punha
Sua alma saudosa, vendo além
Tão distante de si com quem mais supunha
Amá-lo, porque amou muito e bem,
Como esta mesma gruta lhe escutou
As queixas namoradas que soltou.
Hoje, linda Macau, franca Cidade,
Orgulhosa se sente em ali ter
Um recanto de amor e de saudade,
Cheio de fresquidão, calma e prazer,
E o busto de Camões; olhando-o há-de
Muito brio ter a gente em pertencer
À mesma Pátria que o Poeta amou,
E que em seus versos tanto sublimou!
Pátria que todos nós aqui, do fundo
Do coração, amamos, vendo nela
A Mãe que mais heróis tem dado ao mundo
E outros varões ilustres, dignos dela;
Portanto, igual amor e brio profundo
Sentem nesta minúscula parcela,
Nós outros portugueses, por bem sermos
Da Pátria de Camões e por o lermos.”
Outras estrofes dedicadas a Camões no Dia de Portugal
No mesmo livro, J. J. Monteiro, num sugestivo roteiro da cidade que muito bem produziu em verso, adicionou estas outras estrofes a propósito “Desta gruta, que escutou / O vate que aqui cantou / A Pátria, o Amor, a Saudade”:
“Longe da Pátria, exilado, / E de peito às musas dado
Num haurir de inspirações, / Aqui, Luís de Camões,
Grande Adamastor da ideia, / Começou sua epopeia
Que é o assombro das Nações.
Poema que, à luz dos sóis, / Canta a Pátria dos heróis
E os esforços mais que humanos / Dos ousados lusitanos,
Mais fortes em valor fero / Que os priscos heróis de Homero,
Por seus feitos soberanos.
Gruta benigna que ouviste / De Camões a lira triste,
Nas suas amarguradas / Penas, muitas espalhadas
Pelos teus verdes recantos, / Os seus suspiros e cantos,
Suas queixas namoradas!
Lusíadas!… Pátrio tesouro, / Onde há só páginas d’ouro
A engrandecer Portugal! / Poema, Livro Imortal,
Que todos devemos ler / Como um sagrado dever
Do nosso Amor Nacional.
Gruta saudosa e querida / Que a grata e encarecida
Natureza caprichou; / Aqui como a edificou
Guarda ela, orgulhosa, o busto, / Do nosso Épico augusto
Que à sombra sua cantou.
De ano a ano sem faltar, / A juventude escolar
Mais toda a gente em geral, / Ante o busto do imortal
Poeta, numa romagem, / Prestam a sua homenagem
No dia de Portugal.”
Assim se expressou, eloquentemente, J. J. Monteiro na simplicidade da vida exemplar que teve neste que, para ele, foi sempre um cantinho de Portugal no Oriente. A distância, a saudade, a bandeira sempre içada e a memória perene de Camões nestas paragens refinaram-lhe o sentimento pátrio. Com ele podemos partilhar o mesmo sentimento neste que é o dia de todos nós.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



