Júlia Serra*
Júlia Serra*

António Rebordão Navarro nasceu no Porto em 1933. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi chefe de secção de uma Caixa de Previdência e delegado do Ministério Público nas comarcas de Vimioso e de Amarante, dedicando-se depois ao exercício da advocacia na sua cidade. Na contracapa do livro “O Discurso da Desordem” pode ler-se: “secretariou e dirigiu a Revista Literária “Bandarra”. Colaborou em diversas publicações e fez crítica literária, subscrevendo a secção “As Margens das Letras, na Revista Macau”. A sua obra é variada, transitando entre a poesia, o teatro e a ficção em prosa. “As Portas do Cerco” foi um livro editado em 1992, por Livros do Oriente na sua coleção “Macau Leituras”.

Para além de advogado, foi também jornalista, tendo sido um dos fundadores e diretores dos fascículos de poesia Notícias do Bloqueio (Porto, 1957-1962), diretor-adjunto da revista literária Sol XXI e diretor da revista Bandarra (1953-1962). Foi presidente da Assembleia Geral da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e fez parte dos corpos gerentes da Sociedade Portuguesa de Autores. Faleceu em 2015.

Moniz de Palme escreveu no Jornal da Beira que conhecia António Navarro desde Coimbra e que se criou entre ambos uma estreita ligação, após a convivência profissional, no Porto. Navarro era parente de Vasco Graça Moura e entre o grupo aprofundavam temas culturais e literários, para além de estreitarem a sua relação de amizade. Diz-nos Palme: “Era um homem de esquerda acreditando numa chefia do estado não republicana pois, segundo Ele, essa apenas representava os partidos que a apoiavam e não tratava com igualdade todos os cidadãos, o que na sua perspetiva defraudava o conceito de igualdade e de liberdade”.

Era, segundo o amigo, um homem humanista, com grande apego à sua Foz e cheio de desencontros espirituais, votado à sua sorte e ao isolamento que lhe dilacerava a alma. A escrita era o refúgio onde sublimava as suas frustrações. A obra o Discurso da Desordem pode traduzir o caos que se instalou no ser, na sociedade, nos cantos que convivem com um homem solitário e amargurado. Trata-se de um livro sem prefácio, com 239 páginas e com 10 histórias/facetas repetidas – caso da Cidade In-cantada I e Cidade Incantada II – que constituem o Índice.

Na opinião do professor Óscar Lopes, o autor “consegue aqui, simultaneamente, dar sabor local e traçar a caractereologia de figuras típicas de um lugar, perfeitamente ligadas a uma problemática de caracteristicas universais”. É certo que o Porto ressalta e surpreende o leitor pelos locais revisitados, pela própria linguagem e pelas figuras que desfilam amontoadas nestas páginas, com enfoque especial nas várias mulheres que acompanham os entretenimentos.

São muitas, tantas que preenchem a página de um livro, mas curiosamente, todas têm a sua história, até a senhora idosa que falava com o sapo; alguns nomes: Gabriela, Ofélia, Cristina, Camila, Luísa e tantas outras que se juntavam aos seus pares: a Fernanda e o escritor, o advogado e a sua mulher, Alberto e Maria Cristina, Carlos e a mulher do professor, enfim, uma página (p.204) com um verdadeiro desfile de figurantes que alinhavam na dança, nos divertimentos e emolduravam o noturno do Porto.

Nestes ambientes, particularmente interiores, a bebida ajudava a definir e a perfilar algumas ideias, e foi nesse meio que se definiu o título da obra “O Discurso da Desordem”. Entre a história das espingardas e do atentado, outros paratextos e intertextos vão alimentando a narrativa, conferindo-lhe um caráter sui generis de um interior surriado que se valia do gesto silente da escrita para “se ordenar”.

Releva-se que a 1ªedição foi publicada em 1972, portanto num regime político, em que a liberdade de expressão inexistia. Afirma o amigo Palme que António Navarro foi um escritor “a sério”, que encontrou o equilíbrio na sua mulher “doce Virgínia”; pena foi o acidente que afetou ambos, sobretudo a mulher que não resistiu muito. Este duro golpe da perda “do seu esteio” abriu novas brechas e o desamparo era reconhecido pelos amigos que o tentavam confortar.

A referência à viuvez surge várias vezes na voz do narrador que se contamina com outras vozes, padecendo todos de uma espécie de “orfandade”. Este livro não tem um tema fulcral, como se constata no romance “As Portas do Cerco” que evoca o incidente das Portas do Cerco e os conflitos travados entre soldados portugueses e chineses, marcando/defendendo as fronteiras terrestres. Além disso, o autor traçou aí o destino turístico de Macau e, como apreciador de arte e jornalista, jogou com o real e a ficção – desaguando no caso do coronel Mesquita que tomou o forte de Passaleão, originando acontecimentos trágicos e um pretexto para abordar a maçonaria (os cavaleiros) e os fundamentos ditados pelo seu precursor Camilo Pessanha.

Em “O Discurso da Desordem há a ousadia da linguagem que rompe com os parâmetros habituais do autor pelo recurso ao calão, à linguagem popular e à linguagem típica do Porto. Encontramos frases: “Você é um gajo bacano” e “Ó que caraças” (p.57); “Cando muntei a engraixadoria no portão dum prédio beilhó, inda empreguei lá o Irnesto, o mais nobo dos seus filhos” (p.73).

Salienta-se a troca de [O] montei para [U] muntei; o recurso à consoante [B] oclusiva bilabial sonora, em vez de consoante [V] fricativa labiodental sonora, em “nobo” que deveria ser “novo” – A cidade IN-Cantada está toda escrita à moda do Porto. Curiosamente a gastronomia até evoca o prato “Tripas à moda do Porto”, havendo uma alusão à história para explicar a sua origem e uma intertextualidade com o poema de Álvaro de Campos Dobrada à Moda do Porto: “Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,/ Serviram-me o amor como dobrada fria./ Disse delicadamente ao missionário da cozinha / Que a preferia quente, / Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.”

Para além da linguagem, a distopia da sociedade portuguesa está ali exposta, embora possa ser discutível o seu agrado ou desamor. O mais invulgar da obra é a ausência de um travejamento narrativo que desvia constantemente os assuntos por veredas inóspitas e até desprezíveis, não implicando a sabedoria do autor e o nível literário, porque as alusões à arte, especialmente à música e ao cinema, atravessam as correntes literárias que se projetam também na obra.

Há muitas referências à literatura e arte, concretamente, a canção La vie en rose, o filme Casablanca. A transformação do conto da velha e do sapo em poema intitulado “Um caso bizarro” (p.98) comprova a maleabilidade linguística e o saber crítico do autor “Um caso bem singular/ocorreu há poucos dias/que muito nos fez cismar/e passamos a narrar/com as suas bizarrias”

O autor move-se neste meio portuense com muita à vontade, como comprova a linguagem, mas é também capaz de surpreender com um discurso mais elaborado, se o assunto o requerer, desarmando depressa o leitor, ao sair do alinhamento com tanta facilidade. Com base no real e talvez no vivido, fornece-nos uma fotografia um tanto desfocada que resulta da feição ficcional que também preenche a narrativa. Pode dizer-se que há quadros a roçar o absurdo e cenas de desencanto, talvez, pela mistura de estilos e pela fusão intencional.

Uma obra de um certo período político que envencilhou o autor e coloca o leitor a desenvencilhar o fio à meada.

 

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau