Luiz de Oliveira Dias*

Luiz de Oliveira Dias*

Este Jornal publicou recentemente uma reportagem da jornalista Viviana Chan sobre os conteúdos relativos à História de Macau na edição dos primeiros manuais de História da China agora em distribuição pelas escolas do primário e secundário locais. Manuais esses editados pela DSEJ e pela editora estatal chinesa Educação Popular que descrevem os Portugueses de forma superficial e por vezes ofensiva demonstrando uma lamentável ignorância sobre a verdade da História desta Região. Isto na melhor das hipóteses pois que o que efectivamente parece é que essas partes da edição falseiam consciente e propositadamente a nossa secular participação da construção desta cidade.

Este manual não será usado na Escola Portuguesa de Macau (cujos currículos das disciplinas são elaborados com a supervisão do Ministério da Educação de Portugal) mas pelos alunos e docentes das escolas de língua chinesa incluindo (!) as criadas e orientadas pela Diocese a quem as autoridades chinesas estão interessadas em fazer uma espécie de lavagem ao cérebro substituindo a verdade histórica pela sua – a sua – verdade histórica.

Nos últimos meses temos vindo a assistir com surpresa e preocupação à “achinisação” da RAEM apesar de ainda faltarem cerca de 35 anos para o fim da manutenção dos direitos, liberdades e garantias da população e da maneira de viver que tínhamos antes da Transferência. Chega a parecer que para as autoridades do governo central a Declaração Conjunta deixou de estar em vigor e a Lei Básica somente se aplica quando elas quiserem.

Em suma, usando uma expressão há muito batida, os autores deste manual falseiam a História porque têm medo dela ou porque continuam complexados com a nossa participação na construção desta cidade que tem o privilégio de ser um misto das culturas Portuguesa e Chinesa.

Não fosse a nossa participação nessa realidade e Macau seria apenas mais uma pequena cidade do sudoeste da China igual a centenas de outras que por ai há.

E a verdade é que desde há 500 anos Macau deve a Portugal a religião católica, a sua cultura, as suas universidades, os seus principais monumentos, grande parte das suas tradições e a cordialidades da convivência entre as variadas raças e culturas que formam a sua população. Além dessa feliz realidade sociológica que são os macaenses.

E é tudo isso que a partir de agora vai ser ocultado à juventude chinesa a qual passará a ter uma opinião desfavorável sobre quem afinal moldou a interculturalidade desta região cada vez menos especial. Esse, no fundo, o verdadeiro objectivo dos autores do manual.

Será crime falsear a História? Será crime deturpá-la para viciar o conhecimento dos jovens de Macau? Se não é, parece. Se não pode alterarem-se quaisquer ciências, menos ainda a História que nos diz quem somos e donde viemos e nos ensina a perfilar o futuro.

E tudo isto perante o silêncio cúmplice da Assembleia Legislativa incluindo, surpreendentemente, os deputados do chamado Novo Democrático, Pereira Coutinho e própria Agnes Lam, com a corajosa excepção de Sulu Sou que, apesar de por motivos óbvios tem o seu mandato suspenso (sabe Deus e quem nisso manda até quando) foi o único que afirmou que este manual revela uma clara intenção “de denegrir” os Portugueses.

Para além da repulsa que me provoca esta consciente violação da verdade histórica, fico na dúvida saber a razão última desta atitude. É que, por um lado, a China não precisa de tais manobras indignas para afirmar aos seus cidadãos a grandeza da sua História e da sua cultura. E, por outro, a História de Portugal é a tal ponto nobre e bela que não são pedradas infantis deste tipo que conseguem atingi-la.

À atenção da Direcção dos Serviços de Educação e Juventude que, com esta excepção inaceitável, tão bem tem apoiado e orientado os ensinos primário e secundário das nossas escolas.

 

* Docente. Anterior presidente do Instituto Politécnico de Macau.