O recente debate televisivo, entre candidatos das diversas famílias políticas europeias à sucessão de Durão Barroso, introduz uma novidade, não de estilo, nem sequer de substância, mas pelo menos de alguma originalidade processual, no funcionamento democrático da União.
(Só a eleição directa desses altos cargos resolveria a questão, mas tal procedimento escaparia ao controlo dos executivos nacionais que são ainda hoje, como se sabe, a chave do sistema).
Quero dizer com isto que à nova sensibilidade da população da Europa, espelhada nos partidos europeus, com assento em Estrasburgo, repugnam cada vez mais nomeações para altos cargos, em Bruxelas, de personalidades não sufragadas, ainda que indirectamente, pelo eleitorado da União.
******
À parte esta “novidade”, as próximas eleições para o PE serão provavelmente desvirtuadas por considerações imediatas de política interna, na maior parte, se não na totalidade, dos Estados membros.
A realidade é essa e é difícil mudá-la.
Em política, como no resto, parte-se do concreto para o abstracto e não o contrário.
Daí não ser original pressupor que para milhões de pessoas é mais importante o presidente da sua junta de freguesia do que o presidente da comissão europeia. Mal sabendo ainda hoje que da complexa máquina burocrática a que este preside, dimanam directivas que afectam e em muito as suas vidas pacatas…
No fundo, nem as pessoas comuns, nem os líderes políticos nacionais se enganam, quanto ao grau de urgência do debate político interno. Mesmo com o calendário errado!
Aliás, num edifício (de pendor) federalista mal assumido, a dialéctica Estado-Nação versus Europa federal continuará a jogar a favor do primeiro, porque é com o “seu país” que os eleitores sentem a sua identidade essencial e decisiva.
Apesar de todas as vantagens de uma crescente integração, num certo sentido a Europa falhou na construção de uma identidade que pudesse desafiar a identidade nacional. Ainda bem! – dirão uns. Ainda mal! – dirão outros.
******
É preciso constatá-lo: a austeridade não aproximou os europeus da Europa.
Porque sentem que a consequência mais directa da recente crise internacional é o estertor (sem remédio possível) do Estado social, pelo menos como o concebíamos desde há décadas.
Com um sentimento de acrescida vulnerabilidade, os eleitores europeus serão tentados por um certo populismo de direita ou de esquerda, isto é, de quem lhes prometa maravilhas.
Comanda a sensatez a denúncia dessas artes mágicas da política.
******
A esperança, em matéria de emprego e do que dele deriva, não virá pois das promessas eleitorais vãs, mas da constatação que vem sendo feita, a nível da União, de que já esgotaram as suas virtualidades as políticas de choque a que estiveram submetidos vários Estados, mormente os do sul.
E que para sanidade da própria economia europeia no seu conjunto, com o espartilho sem alternativa da moeda única – só uma aposta global e concertada sobre as empresas pode retirar lentamente os países mais afectados, da letargia em que a crise os deixou.
*Ex-embaixador de Portugal nas Coreias, ASEAN e Indonésia. Docente da Universidade de S. José.




