Uma notícia sobre as inundações na Região Hidrográfica do Sado despertou-me para rever o poeta Bocage (Elmano Sadino era o seu pseudónimo árcade) que andou vagueando por Macau, conforme já escrevi num outro artigo neste mesmo jornal (JTM, em 2021) entre os meses de Setembro ou Outubro de 1789 e Março de 1790, tendo aí chegado devido a um tufão que desviou o navio em que seguia.
Quando partiu para o Oriente, Elmano deixara a sua tão amada Gertrúria “Alva Gertrúria minha, a quem saudoso/Mando trêmulos ais enternecidos” que, por azar do destino, quando já em Portugal, a viu casar-se com o seu irmão Gil, causando-lhe tamanho estado depressivo que o afetou para sempre. Durante o tempo que esteve no território, captou a simpatia de alguns e o desamor da maioria, devido ao seu espirito maledicente, à volubilidade do seu caráter e à postura anticlerical e transgressora, como testemunha a primeira quadra deste soneto: “Um governo sem mando, um bispo tal, /De freiras virtuosas um covil/Três conventos de frades, cinco mil/ Nhon’s e chinas cristãos, que obram mui mal.”
Considerando que estes aspetos já foram tratados na citada publicação, o remexer a memória levou-me para o distinto especialista em Estudos Bocageanos, o professor Daniel Pires. Ademais, foi leitor de língua e cultura portuguesas (Macau, Glasgow, Goa) e um distinto conferencista. António Aresta, um outro reputado estudioso, acrescentou que Daniel Pires “planeou e organizou uma nova edição das obras de Camilo Pessanha, de Wenceslau de Moraes ou de Bocage”, não esquecendo a quantidade de títulos publicados: “Dicionário das Revistas Literárias Portuguesas do Século XX“, 1986; “Dicionário de Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX”, 3 volumes, 1996-2000; “Imprensa Clandestina Portuguesa“, 1926-1974, 1999. A estadia em Macau permitiu a pesquisa da qual resultou o “Dicionário Cronológico da Imprensa Periódica de Macau do Século XIX” (1822-1900), publicado em 2015.
As referências evocadas sobre poeta e o seu investigador constituem uma espécie de preâmbulo à abordagem das “Cartas de Olinda a Alzira”, uma vez que foram lançados os dados sobre: um poeta instável e transgressor e um proeminente pesquisador que cava até ao fundo para descobrir o encaixe das peças do puzzle – é uma característica típica de um jornalista literário que não quer falhar, ao apresentar o maior número de informações recolhidas por um espírito perscrutador.
O jornal O Mirante publicou o texto: “O Círculo Cultural Scalabitano convidou Daniel Pires para falar do poeta que nasceu há 250 anos e tem o seu passado ligado ao Ribatejo. O poeta teve uma infância infeliz e morreu prematuramente devido ao sofrimento nas prisões e às injustiças de que foi alvo.” A este desafio o autor respondeu: Manuel Maria Barbosa du Bocage era um poeta que recusava os circuitos palacianos e nunca quis estar ligado ao novo riquismo existente no século XVIII, em Portugal, o que lhe trouxe muitos dissabores. Era habitual Bocage escrever poesia em que criticava os políticos e, por causa disso, era perseguido pela polícia. Nessas alturas tinha que fugir para não ser preso e era para o Ribatejo que vinha muitas vezes, vivendo na clandestinidade para não ser apanhado.
Bocage era um escritor imparável; os condicionalismos da vida e o próprio destino azedavam-lhe, por vezes, a veia poética que se contrapunha às pulsões amorosas e às tiradas satíricas, malquistas e condenatórias para alguns, apesar de o Professor Pires atestar que Bocage é autor de poesia erótica de grande valor, mas que nunca escreveu poesia pornográfica como lhe é atribuído: “Logo após a morte de Bocage, alguns editores quiseram ganhar dinheiro à sua custa e atribuíram alguma poesia pornográfica à autoria do poeta, mas a pesquisa prova que isso não é verdade. Quiseram apenas aproveitar-se do nome de Bocage e ganhar dinheiro à sua custa quando já não estava cá para se defender”, garante.
Sobre as “Cartas de Olinda a Alzira”, um romance epistolar em verso atribuído a Manuel Maria Barbosa du Bocage – que circulou clandestinamente pelo país – é considerado uma espécie de manifesto feminista, onde figuram aprimoradas e excêntricas as emoções e os sentimentos, estando ele na transição do neoclássico para o romântico. A obra em foco é composta por sete epístolas, lembrando “O Verdadeiro Método de Estudar” de Luís António Verney (séc. XVIII), na estrutura formal, que se apresenta em dezasseis Cartas com conteúdo progressista, chegando a motivar fortes reações, devido às orientações pedagógicas e às ideias iluministas.
Curiosamente, há quem defenda que estas Cartas de Bocage podem ter nascente francesa e que resultaram de tradução. Suspeições aparte, o leitor pode extrair ilações sobre a Epistola I: “Carta de Olinda a Alzira”, primeiros versos: “Que estranha agitação não sinto n’alma/ Depois que te perdi, querida Alzira!/De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,/Que a tua companhia incendiava/ Por uma vez se foi minha alegria,/Nem a mesma já sou, que outrora hei sido! “
Trata-se de uma perda dolorosa entre duas pessoas que se amavam, porquanto o “fogo” que a companhia “incendiava” no “eu” já se sumiu, provocando uma metamorfose no sujeito poético “Nem a mesma já sou”, agora privada de alegria e afundada na tristeza.
Analisando, os versos num sentido literal, poder-se-ia interpretar que esta perda seria resultante de uma saudade metafísica que lhe estava a perturbar a alma; mas, como a metáfora do fogo entre duas mulheres era inusitada à época, pode gerar uma distopia literária, provocada por comportamentos sexuais atípicos, existentes entre as lésbicas.
É certo que Montaigne, filósofo e pensador ético do Séc. XVI, referia “a nossa condição maravilhosamente corporal” e, portanto, os movimentos do coração expressos no texto poderão ser enquadrados neste cenário de incertezas pintadas. E a emissora continuava num outro passo: “Não se aquieta o coração no peito/Não cabe nele, e viva a chama no íntimo/ Das entranhas ardente me devora, / Sem que eu possa atinar a causa, a origem.”
Olinda, no seu tom intimista e confessional sente-se abalroada pela ausência da sua recetora. Aquela que parece ter mostrado alguma indiferença, em certas ocasiões, agora interroga-se: “Aonde, aonde irão estes impulsos/Precipitar a malfadada Olinda? Será querida Alzira, a tua ausência, /Que me faz derramar tão agro pranto?” -Nesta espécie de monólogo dialogante, quando se autonomeia, coloca o leitor em ação, numa espécie de hipotipose, ao absorver essa carga emocional.
Epistola II: “Carta de Alzira a Olinda” – Alzira responde: “Conheço de teus males a vehemencia,/ Prezada Olinda! Eu propria os hei soffrido, /Quando da mesma edade que hoje contas/Próvida a Natureza começava / A preencher em mim seus fins sagrados.” A diferença de idades é um acúmulo de experiência vívida em Alzira ao confessar ter sofrido como a amiga, quando tinha a idade dela, revelando, talvez, uma dificuldade em compreender e incluir os sentimentos e desejos nos dogmas tradicionais. Talvez a questão ética a interrogar uma hipotética transgressora do Amor verdadeiro ou seria o receio de expressar o desejo e o erotismo adentro dos moldes clássicos? Afinal o próprio Bocage encarava que os instintos naturais, não sendo crime, de igual modo expô-los, através da escrita, não seria ato condenatório e, neste passo, eis a congruência do seu investigador ao afirmar que ”Bocage é autor de poesia erótica de grande valor, mas que nunca escreveu poesia pornográfica.” A arrazoada opinião de Daniel Pires contribui para uma melhor compreensão do conceito do Amor e iliba o poeta de excessivas acusações.
As Cartas, designadas por Epístolas (género epistolar) sucedem-se entre as protagonistas e os sentimentos entre ambas desenvolvem -se num crescendo que, interpretadas à luz de sociedades e tempos diferentes, indiciam relações lésbicas: outrora incomuns, hoje encaradas com outro olhar. Este conjunto de Cartas foi considerado como romance e adicionado com os epítetos atribuídos à escrita bocagiana – jocosa, burlesca, satírica, escandalosa e uma fileira infinita que não cabia no retrato do poeta –“Magro, de olhos azuis, carão moreno.”
Sobre estas Cartas escreve o seu cultor Daniel Pires: Bocage foi, eventualmente, o autor do primeiro manifesto feminista português, intitulado “Cartas de Olinda a Alzira”. Nele, duas mulheres, num diálogo franco que a amizade propicia, reivindicam o direito ao prazer, usufruído à revelia das regras que a sociedade unilateralmente lhes impunha, e recusam o casamento, frequentemente, nessa época, expressão de interesses materiais e de corporativismo classista: “A Fortuna, que foi comigo larga,/Negou seus dons a meu querido amante.” (p.58). Em 1799, já o poeta revelava oposição ao matrimónio, num poema que foi censurado: “Quanto ao negregado tanque, /Presumo (aqui para nós) /Que é a prisão desses loucos, / Que dizem: recebo a vós’,” (p.59).
O Professor Daniel Pires foi um profundo estudioso de Bocage e analisou-o em todas as vertentes, como homem e artista, pois ele distinguia-se na poesia, na música, nos desenhos e no teatro. A obra do autor “O essencial sobre Manuel Maria de Barbosa du Bocage” (Imprensa Nacional-Casa da Moeda, junho 2023) é uma fonte indispensável para a compreensão deste Poeta.
Bocage foi um órfão de Setúbal que nunca recuperou dessa orfandade: “Aos dois lustros a morte devorante/Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;/Segui Marte depois, e enfim meu fado,/ Dos irmãos e do pai me pôs distante.”
*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau



