D. Adolfo José d’Eça [1888-1920] nasceu em Macau na freguesia de S. Lourenço, filho de D. Celidónio Maria d’Eça, natural de Macau, e de Maria Pureza Pinto de Sousa, natural de Coimbra. Era o representante típico das famílias da aristocracia portuguesa expatriadas no ultramar. Estudou no Seminário de S. José e beneficiou de uma sólida educação familiar, sobretudo quanto aos valores tradicionais e à religião. Profissionalmente era Chief Clerck na “Hong Kong, Canton & Macao Steamboat Cº”, uma companhia de ferries, fundada pelo Barão do Cercal, Alexandrino António de Melo [1837-1885].
Jorge Forjaz nas Famílias Macaenses recorta o largo perfil genealógico da família, incluindo o minucioso estudo, Uma Varonia Real (Capetíngia) em Macau. Rogério Beltrão Coelho nos Cem Anos de Fotografia em Macau (1844-1940s) inscreve-o na lista dos grandes apaixonados pela arte da fotografia em Macau.
D. Adolfo José d’Eça era um colaborador regular da prestigiada revista lisboeta “Ilustração Portuguesa”, nos anos de 1913, 1914, 1917 e 1918, assinando artigos que eram ilustrados com as suas próprias fotografias. Esta revista tinha colaboradores com um grande nível como, por exemplo, Júlio Dantas, Fernando Pessoa, Teófilo Braga, Bulhão Pato, Carlos Selvagem e artistas como Stuart Carvalhais ou Almada Negreiros.
D. Adolfo d’Eça condoía-se com o generalizado desconhecimento sobre o Território. Na “Ilustração Portuguesa”, de 12 de Outubro de 1914, publica um artigo onde deixa transparecer essa desilusão: “Quem conhece Macau, essa nossa colónia encravada na China? Quase ninguém, e contudo quão interessante ela é…”. Por isso, os seus artigos têm todos um toque da pedagogia utilitarista, apresentando a complexidade da história do Território com uma desarmante simplicidade e bem nos antípodas do eurocentrismo em voga.
Reproduzimos aqui um artigo, no original com oito vistosas fotografias, de D. Adolfo José d’Eça dedicado a Macau, publicado na “Ilustração Portuguesa”, Nº 663, de 4 de Novembro de 1918. É um artigo primorosamente escrito, revelando-se uma excelente introdução histórica e turística ao Território, ao mesmo tempo que ensina o leitor a compreender a identidade cultural do enclave.
Mais de cem anos depois, vale a pena lê-lo:
“Qual é o itinerário a seguir para evitar o calor intenso do verão ou para fugir à densa humidade dos meses invernosos? E qual é o local mais próximo, para onde se possa ir procurar descanso para a fadiga duma longa viagem? São estas as perguntas que os turistas, ao entrarem nas companhias dos vapores, em Hong Kong, costumam fazer. Macau!!… Eis também a única resposta que sempre obtêm. É que esta colónia portuguesa, colocada numa das margens da ilha de Heng Shan, medindo cinco quilómetros no seu maior comprimento, sobre três na sua maior largura, oferece, pelo seu aspecto pitoresco e encantador, uma agradável impressão àquele que a visitar pela primeira vez.
Deixando Hong Kong num dos vapores cómodos, o turista, depois de 4 horas de uma travessia através de inúmeras ilhas, descobre na eminência um dos pontos mais culminantes da península, a Fortaleza da Guia, com o seu farol, que conta perto de um século de existência; o primeiro farol rotativo que alumiou a navegação nos mares da China; farol construído pelo distinto macaense que em vida se chamou Carlos Vicente da Rocha. No Museu das Janelas Verdes, em Lisboa, deve ainda estar o farol em miniatura que serviu de molde e que foi feito pelo referido extinto. Chegada a esta altura o vapor é obrigado a reduzir o seu andamento para entrar no canal. Avista-se então a cidade de Macau, edificada nas encostas dos montes. É de pitoresco e magnífico aspecto aquele anfiteatro subindo desde o semi-círculo da Praia Grande como em escalões pelas alpenduradas das montanhas os edifícios pintados de diversas cores, destacando no meio de frondentes arvoredos e por cima de todos coroando os mais altos picos as velhas fortalezas do Monte e da Guia ; o elegante e grandioso Hospital de S. Januário, o majestoso frontispício da destruída Igreja de S. Paulo, pesada mole de maciça cantaria, adornada de estátuas de bronze em tamanho natural; a branca ermida da Senhora da Penha, residência favorita do último prelado de Macau e o majestoso Hotel de Boa Vista, hoje transformado em Liceu Nacional. Entrando a seguir no porto interior a vista é também linda, mas dum aspecto diferente. Filas de juncos chineses de várias dimensões ancorados em ambas as margens do rio, deixam vago um estreito caminho para a entrada e saída dos vapores de carreira. Minutos depois chega-se ao terminus de uma viagem de 44 milhas. O vapor atraca-se ao cais, onde se efectuam o desembarque dos passageiros e a descarga das mercadorias.
O turista conduzido em automóveis ou em jerinshas (carros puxados à mão) percorre por momentos algumas das estreitas ruas do bairro chinês, entra na Nova Avenida (Ribeiro d’Almeida) onde estão construídos edifícios novos e elegantes, que dão uma impressão mais agradável do que as antigas lojas avistadas logo à entrada do porto interior; ao mesmo tempo que o seu movimento comercial dá a conhecer ao forasteiro que está numa cidade, que embora pequena, conta com uma população de 80 mil almas.
Minutos depois encontra-se na Praia Grande a curva graciosa que de bordo atraiu a atenção do viajante: edifícios grandiosos, tais como, Palácio da Justiça, Palácio do Governo, residências de capitalistas chineses e edifícios construídos à europeia.
Há vários passeios em Macau. O mais preferido pelos turistas é a Avenida Vasco da Gama de uma extensão de 600 metros e fechado numa extremidade por um rico jardim cuidadosamente tratado e noutra pelo elegante monumento a Vasco da Gama.
Saindo desta Avenida percorre o viajante estradas bem lançadas e assombreadas por grandes árvores até que atinge ‘As Portas do Cerco’, pórtico histórico onde existem lápides atestando os feitos dos dois heróis tão benquistos e venerados pelos macaenses, Amaral e Mesquita.
Voltando, continua o viajante o seu passeio atravessando a antiga povoação de Patane, hoje transformada em local assaz prazenteiro, até chegar à Gruta de Camões, onde, segundo a tradição, o grande poeta passou horas bem amargas para concluir a sua gigantesca obra Os Lusíadas. Não deixa turista algum a cidade de Macau sem visitar as ruínas da Igreja de S. Paulo, cujo frontispício começou a contemplar de bordo do vapor. Só depois de admirar estas antiguidades que atestam o domínio secular de Portugal sobre aquela possessão genuinamente portuguesa é que o turista regressa a Hong Kong contente, satisfeito e bem impressionado do que viu, estudou e admirou nessa velha cidade portuguesa, que possui páginas tão brilhantes na história das conquistas portuguesas”.
Que impressões terá deixado nos leitores portugueses, no ano de 1918, em Portugal e no alargado espaço ultramarino, este artigo dedicado a Macau?
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



