“A geral aceitação e competência deste homem simples do povo foi coroada quando, enfim, o Governo de Macau o escolheu, como representante da Comunidade Chinesa, para vogal do Conselho do Governo .”
Tenho comigo, desde 1972, ano da sua publicação em Luanda, o terceiro volume de Nós… Somos Todos Nós, uma interessante antologia de textos de exaltação das mais excelsas figuras da Pátria, incluindo as que se distinguiram por feitos nas gestas ultramarinas, entremeadas com poemas e apontamentos seleccionados sobre o país, que ia do Minho a Timor, como nas escolas era então ensinado e por muitos de nós assumido. Este volume, que recebi de um amigo do Autor, Antero Simões, professor do ensino liceal, sendo a obra uma edição do Comissariado Provincial da Mocidade Portuguesa de Angola, contém apenas três referências a Macau: uma biografia intitulada “José Choi Anock: figura típica e grada de macaense”, o poema “Macau”, do Pe. Benjamim Videira Pires, do livro “Jardins Suspensos” e uma breve e elogiosa descrição de Macau (“A Cidade do Nome de Deus”, de António M. Rodrigues da Silva).
Pela forma pitoresca como é retratado este dedicado servidor da Administração Portuguesa, que foi também homem de negócios e respeitado filantropo nas primeiras décadas do século XX, achei adequado promover aqui a divulgação do texto que distingue esta singular figura de Macau:
José Choi Anock Figura típica e grada de macaense
“A cidade do ‘Santo Nome de Deus’ de Macau, jóia lusíada engastada no imenso Império da China, teve sempre, e ainda tem, no mosaico cosmopolita dos seus filhos a maior riqueza e glória. Oásis de paz e cais de tranquilidade no meio do perturbado mundo oriental, a minúscula península de Macau entrou na história e nas gestas das Províncias de Além Mar desde que dum célebre Imperador chinês a ganharam, como prémio de seus combates à pirataria, audazes marinheiros portugueses do século XVI. Depois, séculos fora, gentes das mais remotas paragens, chineses, nipónicos, malaios, filipinos, africanos e até europeus, ali se estabeleceram, para o trabalho florescente, para a vida pacífica.
E uma comunidade etnicamente vária a habitou, absolutamente confiante nas leis cristãs e humanas da administração portuguesa, conscientemente ufana por abrigar-se à sombra da bandeira verde-rubra. Se bem que quatro séculos viva já Macau a sua existência lusitana, nem sempre fácil ali no encontro entre civilizações diferentes pela religião, pela língua, pelos usos e costumes, os seus filhos, os macaenses, apesar de todas as vicissitudes, sempre têm demonstrado a mais esclarecida fidelidade à Pátria-Mãe.
Herdeiros do sangue dos primeiros navegantes, da miscigenação europeia e oriental, ou mesmo de pura origem chinesa, a geração dos actuais habitantes daquela Província, numa demonstração inequívoca de adaptabilidade e compreensão, continuam a evidenciar, sob a orientação firme do nosso Governo, acrisolado civismo, unidade multirracial, harmonia disciplinada. Nem é difícil, na história da ‘Leal Cidade’, achar vultos de ímpar grandeza, de virtude inexcedível.
Serve este preâmbulo para introduzir a síntese biográfica duma das figuras mais populares e interessantes de Macau da última centúria, precisamente José Choi Anock. Uma firme e serena fisionomia, um comportamento exemplar e simpático, uma modesta e prestável gentileza – eis as marcas que julgam de engrandecer-lhe todos quantos ainda o conheceram. Macau inteiro ainda o recorda na convivência das pessoas e das coisas da governação, na defesa dos interesses da camada simples do povo, donde nascera. Homem curioso e culto, foram mesmo a sua elegância e simplicidade de maneiras que constituíram, na sua curiosa carreira, o valioso suporte de toda a sua acção.
Nasceu de pais chineses, na paróquia de Sto. António da velha cidade, em 1 de Fevereiro de 1867. Ainda soavam nítidos os ecos da vibrante ousadia de Nicolau Vicente de Mesquita ante as injustas pretensões de vizinhos dos meados do século. Choi Anock teve a sorte de receber dos pais e dos missionários de sua comunidade uma boa iniciação cristã. Depois de seus primeiros estudos em que não lhe foi difícil aprender a língua de seu País, alistou-se, de rapaz, no serviço da Marinha. Criado de bordo, primeiro em navios portugueses que escalavam o porto de Macau, empregou-se depois como despenseiro numa canhoneira da nossa Marinha de Guerra. Todos o conheciam e consideravam pela sua arte de culinária, pela sua obediência e zelo de ofício. Todos: oficiais e camaradas, chineses e portugueses.
Coisa curiosa! Certos amores o foram prender, nas suas idas e vindas à capital do Reino, a uma senhora de Lisboa, de quem teve dois filhos. Mas Choi Anock, que continuou ao serviço do Estado, voltou depois à sua terra oriental, constituiu família legal, educou e formou os seus filhos no mais genuíno amor nacional, no mais estrito acatamento das leis cristãs e portuguesas.”
De fiel do Palácio a destacado homem público
“Vários governadores, dentre os quais se salienta o macaense Artur Tamagnini Barbosa, julgaram-no indispensável no palácio. Precisando dos seus serviços, nomearam-no fiel do Palácio, onde ‘a sua presença – como lemos em registo biográfico do “Notícias de Macau” – se notava pelo seu porte, pela disciplina que impunha a todos os seus serventuários, pela forma como dirigia um banquete, desde o arranjo da mesa até ao serviço dos criados, que o estimavam e cumpriam todas as suas indicações’. No seu despacho, no seu esmero, nas providências que tomava para chás, banquetes, recepções, de dia ou da noite, descansavam as senhoras do palácio. O fiel Choi Anock ganhou de todos, grandes e pequenos, o mais distinto e justo conceito.
Vivia já a sua meia idade quando, sentindo-se com aptidões superiores às de simples fiel, pediu que o dispensassem para se dedicar ao comércio particular. E sorrindo-lhe a sorte dos seus negócios, não se fechou egoisticamente no gozo dos seus bens. Bondoso e acessível, nunca ninguém da mais modesta condição dele se retirou sem o óbolo preciso.
Sincero na sua fé, Choi Anock activou a administração e direcção de diversas organizações católicas, cívicas ou humanitárias. Eis porque algumas delas guardam, em lugar de honra, o seu retrato, eis porque se orgulham de ter-lhe confiado a presidência de seus destinos a Associação Comercial, a Associação de Beneficência ‘Tong Sin Tong’, a Associação Católica Chinesa, a Associação de Beneficência do Hospital ‘Kiang Wu’, as confrarias de S. Vicente e de S. Lázaro.
A geral aceitação e competência deste homem simples do povo foi coroada quando, enfim, o Governo de Macau o escolheu, como representante da Comunidade Chinesa, para vogal do Conselho do Governo. Elemento indispensável naquela assembleia provincial, as suas palavras criteriosas e intervenções oportunas gozaram sempre do acatamento dos outros membros, em boa verdade zelando e defendendo a sua classe, ordeira e trabalhadora. Com homens desta nobreza de temperamento, deste sentido de convivência, como não seria a sua cidade, ante as convulsões do mundo oriental, um oásis de tranquilidade, um remanso de paz, onde vale a pena viver!
Por todos os méritos de homem e de cidadão, quis o Governo agraciá-lo com o oficialato da Ordem de Cristo e quiseram as várias instituições honrá-lo com as suas veneras. Gasto, enfim, por uma vida trabalhosa, sem que jamais perdesse a serenidade e firmeza que lhe timbrou o ser, uma doença grave o vitimou para sempre, em 22 de Agosto de 1945. Tinha 78 anos. Eis que na sua figura típica, modesta mas simpática, pode rever-se, com orgulho, a ordeira comunidade chinesa de Macau. Como ele, que de simples fiel ganhou o cargo de membro do Conselho governativo, outros, na atracção do seu exemplo, virão enriquecer os pergaminhos da ‘Leal Cidade’, que D. João IV justamente enobreceu com o epíteto de ‘Cidade do Nome de Deus’.”
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



