João Figueira *

João Figueira *

Alain Kruger, especialista em gastronomia e cinema, tem um programa radiofónico semanal na France Culture, intitulado, “Não se fala com a boca cheia”. São momentos de conversa deliciosa, não por causa dos sabores culinários que pudéssemos subentender nas entrelinhas dos diálogos, mas pela diversidade temática e dos convidados, que tornam aquele espaço matinal da rádio um monumento à imaginação e à criatividade. E à pluralidade de perspectivas que, a partir da gastronomia, nos proporcionam um melhor entendimento sobre os mundos que compõem a nossa contemporaneidade.

Há o Dia Mundial dos Refugiados? Então Kruger convida para a mesa do seu programa uma série de profissionais oriundos dos países de onde saem hoje mais refugiados, para falarem, justamente, sobre a gastronomia desses povos. A conclusão, é que, apesar da diversidade cultural que as diferentes cozinhas transportam e expressam, elas afirmam-se, também, como uma espécie de língua universal. Pensando bem, o que seria da gastronomia ocidental, por exemplo, sem os aromas das especiarias do médio oriente e extremo-oriente?

Num outro momento, o Parlamento francês legislou acerca de certos cuidados e detalhes que, doravante, o país deve respeitar no campo alimentar. Pois bem, Alain Kruger faz um programa, no qual vai procurar saber se, por via destas medidas legislativas restritivas, “vamos comer melhor no futuro”.

Raramente a gastronomia, como neste espaço radiofónico, assume o seu cunho mais cultural. Há uns meses, a pretexto da obra de Cervantes, o programa centrou-se na cozinha do tempo de D. Quixote e Sancho Pança. E a propósito da moda europeia do ceviche oriundo do Peru, Kruger aproveita para nos dizer como todos nós, ocidentais, que nos deliciamos nos restaurantes que hoje se dedicam à confecção desse milagre culinário, somos devedores do povo Inca.

Ao ouvir Alain Kuger e o modo subtil, educado, curioso e culto, mas sem exibicionismos gratuitos, como conduz cada conversa e como introduz os seus convidados à mesa da rádio, sentimos uma vontade irreprimível de nos sentarmos também. Naquela meia-hora de diálogos e alguma boa música, aprendemos imenso. Não é cultural apenas o modo como tratamos as pessoas, como as (des)respeitamos, como nos relacionamos com elas. Tudo o que fazemos na cozinha, a forma como tratamos os alimentos e os dignificamos ou glorificamos é, igualmente, um ato de cultura.

O mesmo se dirá quando estamos fora de casa, no estrangeiro. Tudo nos parece ter um sabor diferente. Neste preciso instante, encontro-me em Maputo e não é só o facto de estar num país da África austral que me faz sentir estar num outro contexto cultural. É o modo como se vive e sente a cozinha, a qual, em certa medida, é uma extensão do comportamento do ser humano. Disso falarei na semana que vem. Bon appétit, pois como dizia e bem, Natália Correia, “ó subalimentados do sonho, a poesia é para comer”.

 

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau