Jorge A. H. Rangel *
“A Cidade do Nome de Deus de Macau pode legitimamente orgulhar-se de ser também a Cidade da Virgem, pois tem por padroeira Nossa Senhora da Conceição.”
Pe. Manuel Teixeira, “Macau e a sua Diocese”, vol. IX, 1969, proémio
O volume IX de “Macau e a sua Diocese”, do Pe. Manuel Teixeira, é inteiramente dedicado ao culto de Maria em Macau. Nos seus 17 capítulos, é feito um levantamento exaustivo, acompanhado de descrições e transcrições documentais, dos institutos religiosos, igrejas, capelas, escolas, fortalezas e baluartes sob a invocação de Maria, além de confrarias, congregações, festas, lendas, literatura e bibliografia marianas.
Logo no proémio, aquele que foi certamente o mais prolífico historiador de Macau atesta que “neste trabalho, vamos dar um passeio pela história quadrissecular de Macau e vê-la-emos orlada de igrejas, capelas, oratórios, fortalezas, institutos religiosos, congregações, confrarias, miradoiros e escolas onde se lê gravado em letras de oiro o nome dulcíssimo da Ssma. Virgem” e que “a literatura, a lenda e até o milagre nos farão compreender como Macau é e foi sempre a terra de Santa Maria”. Outras relevantes obras, entre as quais “Macau, Mãe das Missões no Extremo Oriente”, do Pe. Eusébio Arnaíz (versão portuguesa de 1957, traduzida pelo Pe. Artur Augusto Neves) conduzem-nos facilmente à mesma conclusão: o culto de Maria é tão antigo quanto a história de Macau.
Templos sob a invocação de Maria
Com efeito, conforme refere o Pe. Manuel Teixeira, já em Fevereiro de 1564, o Pe. Francisco Perez, jesuíta espanhol, falava da “Igreja principal da povoação, que tinha no altar-mor, além do Crucifixo, a imagem de N. Senhora”. Esta igreja foi depois elevada a Catedral em Janeiro de 1576, pela bula Super Especula do Papa Gregório XIII.
Em 1745, Frei José de Jesus Maria dava conta da existência de igrejas e capelas dedicadas a N. Senhora: a Igreja Matriz (N. Senhora da Natividade), Colégio de S. Paulo (Madre de Deus), Convento de S. Domingos (N. Senhora do Rosário), Santa Casa da Misericórdia (Visitação de N. Senhora), Igreja de S. Lourenço (N. Senhora do Socorro), Convento de S. Agostinho (N. Senhora da Graça), Igreja de N. Senhora da Penha, Convento de S. Francisco (N. Senhora de Porciúncula), Igreja dos Catecúmenos (N. Senhora do Amparo), Igreja do Hospital de S. Lázaro (N. Senhora da Esperança), Igreja da Fortaleza da Guia (N. Senhora da Guia), Forte do Bom Parto (N. Senhora do Bom Parto) e Convento de Santa Clara de Religiosas Capuchas (N. Senhora da Conceição).
Muitas dessas igrejas, substituídas, restauradas, remodeladas ou reconstruídas, resistiram até aos nossos dias. A Igreja da Sé, dedicada a N. Senhora da Natividade e Catedral desde 1576, teve como seu primeiro vigário o Pe. Gregório Gonçalves Freire, nomeado em Fevereiro de 1577. O actual edifício data de 1937/1938, quando era Bispo de Macau o Cardeal D. José da Costa Nunes, uma das mais carismáticas figuras da Igreja no Oriente. É ali que continuam a ser celebrados muitos dos principais actos litúrgicos diocesanos.
Quanto à imponente Igreja da Madre de Deus, ficou apenas a fachada, que é hoje o “ex-libris” da cidade, um “sermão em pedra” ou, se quisermos, “uma verdadeira teologia sistematizada”. Vale a pena ver, admirar e entender toda a sua riquíssima simbologia. Ali está também Nossa Senhora rodeada de anjos.
Institutos religiosos
As Franciscanas Missionárias de Maria chegaram a Macau em Novembro de 1903, convidadas pelo Bispo D. João Paulino de Azevedo e Castro. Ocuparam-se do ensino e da acção hospitalar, com destaque para o Colégio de Santa Rosa de Lima, tido por muitos como uma das melhores escolas de Macau. Este Colégio foi também durante três anos, de 1929 a 1932, dirigido pelas Irmãs Missionárias de N. Senhora dos Anjos, provenientes do Canadá no final da década de 1920.
As Missionárias do Perpétuo Socorro vieram do México em Junho de 1966 para tomarem conta do Infantário Ave Maria. As primeiras Carmelitas chegaram de Hong Kong em Outubro de 1941 e edificaram o Carmelo no Monte do Bom Jesus, com a Capela de N. Senhora do Carmo. Estas instalações foram já demolidas.
Merecem também especial referência as Filhas de Caridade Canossianas, que se estabeleceram em Coloane em Julho de 1952, e as Missionárias Dominicanas do Ssmo. Rosário, que em 1949, ano da implantação do regime comunista, saíram da China para a Formosa, Hong Kong e Macau, tendo aqui aportado por intervenção do Bispo D. João de Deus Ramalho. Deram apoio ao Seminário de S. José e à leprosaria de Ká-Hó e, mais tarde, em Dezembro de 1962 foi-lhes confiada por D. Paulo José Tavares a direcção do Orfanato Helen Liang, construído com um avultado donativo da sua benemérita e fundadora.
As confrarias e congregações ligadas ao culto de Maria, algumas muito antigas, foram e ainda são em grande número. O espaço disponível permite-nos apenas enumerá-las: a Congregação ou Confraria de N. Senhora da Anunciada, a Confraria de N. Senhora da Misericórdia, a Confraria de N. Senhora do Rosário, a Confraria de N. Senhora dos Remédios, a Confraria de N. Senhora da Boa Viagem, a Confraria da Imaculada Conceição, a Confraria de N. Senhora da Conceição, a Confraria de N. Senhora da Boa Morte, a Confraria de N. Senhora dos Anjos, a Confraria do Imaculado Coração de Maria, as Filhas de Maria, a Congregação de N. Senhora das Dores, a Congregação de N. Senhora de Fátima, a Congregação de N. Senhora de Lurdes e ainda a Legião de Maria, fundada em 1952 e depois elevada a Comitium de N. Sra. de Fátima, com várias cúrias (Imaculado Coração de Maria, Rainha das Vitórias, Estrela da Manhã e Mãe da Igreja).
Claro que há ainda muitas escolas católicas e instituições de solidariedade social consagradas à Virgem Maria. Desde o antigo Colégio da Madre de Deus ao modelar Instituto Salesiano da Imaculada Conceição (antigo Orfanato Salesiano), escolas como o Colégio Yuet Wah, que tem por padroeira a Imaculada Conceição, o Colégio de N. Senhora de Fátima, a Escola do Santíssimo Rosário, a Escola de N. Senhora da Esperança, o Colégio de N. Senhora da Purificação, a Escola Estrela do Mar, fundada pelo grande mestre e sinólogo Pe. Joaquim Angélico Guerra, o Colégio Stella Matutina, a Escola da Sagrada Família, o Colégio Ricci, que tem como orago a Imaculada Conceição, a Escola do Coração Imaculado de Maria e o Colégio do Perpétuo Socorro são bons exemplos de instituições educativas marianas.
E até fortalezas e miradouros, lendas e milagres que se integraram nas tradições locais e festas marianas que congregam os católicos em ocasiões especiais. O culto de Nossa Senhora inspirou a imensa obra da Igreja ao serviço da população de Macau.
Este é o terceiro de uma série de artigos que incluímos neste espaço, a propósito da visita do Santo Padre a Fátima no Centenário das Aparições.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



