Carlos Frota *

Carlos Frota *

Ao som da belíssima canção Arirang, inspiradora da unidade do povo coreano, as duas Coreias fizeram história, ao desfilar em conjunto, em PyeongChang, assim simbolizando fortemente o desejo de reunificação.

O presidente Moon Jae-in recebeu depois, como se sabe, na Blue House, a irmã do líder norte-coreano, ladeada pelo nonagenário, mas ainda muito firme, Kim Jong-nam. E foi formulado o convite para uma próxima cimeira de líderes em Pyongyang.

Dito isto, o que falta? Tudo, isto é, as condições prévias para o reatar do diálogo. Tendo, como objectivo, a reedição eventual do processo de negociações a seis? Um cenário já conhecido, pois.

Mas a esperança de paz não morre. E enquanto se dialoga, ficam de lado as ameaças.

 

O meu Mercedes é maior que o teu

Nos idos de 1975 (já lá vão umas décadas…) li um livro delicioso, então recém publicado, com o título desta crónica, da autoria de Nkem Nwankwo, escritor nigeriano já falecido.

Como a ironia implícita sugere, tratava-se de parodiar, através de uma obra de ficção, a nova elite das jovens nações africanas, gente proeminente que emergiu da descolonização. Isto é, os novos ricos do poder e da economia, num continente a braços com o subdesenvolvimento generalizado, nos anos sessenta do século passado.

O livro era a narrativa impiedosa dos maneirismos de gente com posses, no meio da pobreza geral. E que rivalizavam entre si, competindo por maior prestígio, influência, status.

Pela sua conotação quase infantil, o título apela irresistivelmente à imagem de um jogo de garotos, competindo  através dos seus brinquedos.

Pois foi esta a imagem que me ocorreu (idêntica à outra, a do meu botão nuclear é maior que o teu… e funciona!) – quando soube que Trump quer uma grandiosa parada militar em Washington, na Avenida de Pensilvânia, muito mais impressionante do que a dos Campos Elísios, a que assistiu no dia 14 de Julho do ano passado, como convidado especial de Macron.

– Amigo Emmanuel, será uma parada maior que a tua! America first!

Com tanques, bombas, foguetes, tudo o que couber na minha rua!

Será esta a mensagem subjacente do grande general, não de cinco estrelas, mas de cinquenta… por razões evidentes.

William Cohen que, sendo embora republicano serviu, pelo prestígio, como secretário de Estado da Defesa de uma Administração democrata, a de Bill Clinton, comentava esta e outras iniciativas de Trump como a descaracterização mesma da América. Porque, neste caso concreto, um exercício “autoritário” e dispendioso, de pura glorificação de um presidente. Será pois, conforme todas as expectativas, parada digna de um imperador romano!

Ave Caesar morituri (os contribuintes) te salutant!

 

A imensa sabedoria dos grilos

A miniaturização das bombas… e das consciências. Refiro-me às bombas nucleares “mais pequenas”, com que o Pentágono pretende lidar com o perigo russo.

Que raio! Não há imaginação para… menos? Para menos bombas, digo?

Ou a indústria respectiva está parada, impaciente por novas encomendas? Não se aprendeu nada com o tristemente famoso equilíbrio pelo terror, da Guerra Fria?

Ou estão a tirar-se dela as más lições, tentando tornar “razoável”, e por isso mais provável, o uso do nuclear em “pequena” escala, assim multiplicando os cenários do seu uso efectivo?

É a prova máxima da insensatez humana, camuflada em novidade do pensamento militar!

Isto mais parece um mau romance policial, o do indivíduo hiper-armado e cheio de explosivos que, esgotados os argumentos da discussão, corre à loja da esquina para comprar mais um revólver, numa atitude pueril de mais poder. Em vez de mais saber.

 

Regressar aos caminhos de Madiba

Lembrando Mandela, Madiba – segundo o título régio do seu povo. Foi um dos “santos laicos” do século XX, um farol na escuridão dos tempos. A sua herança é imperecível. O seu modelo impõe-se a todos.

Mas o problema é que… fixou a fasquia tão alta para os seus sucessores, que o seu país vai gerindo a era pós-Mandela com as dificuldades de quem perdeu um pai sábio, maduro, totalmente realizado como pessoa e como líder. Nos planos nacional e internacional.

Um homem que saiu de 27 anos de cativeiro como que purificado, como diria o seu amigo Desmond Tutu. Mas que deixou  filhos imaturos, politicamente adolescentes, quer dizer, vulneráveis às múltiplas tentações do poder.

E é assim que, concebida como uma grande plataforma de unidade, a ANC vem-se transformando, inexoravelmente, com o passar dos anos, em palco de conflitos intensos pelo poder, ambições e choques de personalidades – e tudo o mais que, em todas as latitudes, não é senão profundamente humano…

As razões que levam agora o presidente Jacob Zuma a afastar-se da governação sul-africana não podem estar senão nos antípodas do legado do Madiba, o pai da pátria. E, no entanto, Jacob Zuma foi companheiro de Mandela, durante muitos anos, no cativeiro de Robben Island. Sofreu humilhações. Foi um combatente. A sua militância anti-apartheid não tem obviamente que ser demonstrada.

Mas há uma distinção fundamental, logo à partida, na atitude dos dois homens, perante o poder. Mandela aceitou o poder para o legar. Zuma assumiu-o para o manter.

Para estar à altura do Grande Líder, é agora Cyril Ramaphosa que tem que regressar aos caminhos de Madiba.

 

Vitória provável, sem champanhe

Religião, coragem e drogas – eis o verdadeiro cocktail que tem tornado invencíveis os Taliban no Afeganistão. Vitória certa, ainda desta vez? Mas sem champanhe. Os prováveis vencedores não bebem álcool… é pecado.

Foi primeiro contra a URSS. E agora contra os Estados Unidos. Afinal, contra todos. Por causa da geografia caprichosa e da pluralidade tribal de um país que realmente, do ponto de vista sociológico, não o é.

A que se soma o lucro das drogas (primeiro produtor mundial da tristemente famosa papoila, com que se produz a heroína) – e a “coragem” do fanatismo religioso.

Perdida praticamente a guerra em Cabul, perderá igualmente Washington a paz, a ser negociada por outros? E em que condições? Eis a grande questão!

Depois de milhares de soldados e civis mortos, em combate ou na vida quotidiana de uma população refém, e biliões gastos, há muitas décadas, em material militar e planos de desenvolvimento económico.

– Por que não foi travado o avanço dos Taliban?

Perante o insucesso da guerra, pois venha a paz! Excelente!

Mas que paz é possível com um regime que quer exactamente o que o ISIS quer ou queria? E nesse quadro, quem deseja os talibãs mesmo ao lado? O Paquistão? Só se estiver muito infiltrado, como muitos suspeitam. Porque ter na porta ao lado um exportador de revolução, a quem apetece tal vizinho?

“Venceu-se” o ISIS, ou privou-se o grupo de território, para  dar de bandeja, agora, a irmãos gémeos no extremismo, a base territorial a que tanto aspiram, para o almejado Califado? Não foi esse o princípio da história com a Al Qaeda, após 11 de Setembro de 2001 ?

Que se cuidem pois os que pensam que haverá festejos na vitória dos Talibãs… pois pode-se estar a criar todas as condições para uma nova coligação internacional contra eles.

Como a que os derrubou depois do 11 de Setembro. Ou como, mais recentemente, a que se constituiu contra o chamado Estado Islâmico.

 

* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau e antigo Embaixador na Coreia do Sul e Indonésia