Maria Antónia Jardim*

Maria Antónia Jardim*

De facto, as palavras escritas são como as estrelas, nunca se sabe se somos nós que as fitamos ou se são elas que nos miram. É que a universalidade, a intemporalidade, a unidade, a autonomia que o texto literário manifesta não se devem exclusivamente a uma técnica hábil ou a uma faculdade de representação fora do comum; são antes de tudo, experimentados e vividos. E, sem dúvida, por terem sido experimentados e vividos puderam ser contados em detalhe no texto e, portanto, comunicados.

Testemunhos de escritores (incluindo o de Sophia, como veremos) sugerem que têm a impressão de terem sido feitos de todas as peças e que alcançarão, ao longo das suas experiências, uma realidade que não a comum, denominada “visão do universo”, “outra vida” ou ainda “a verdadeira vida”. Podemos também supor que a intemporalidade, a universalidade de uma obra de arte não correspondem só às representações imaginárias e não resultam apenas de uma capacidade particular do autor; são estados afectivos cuja experiência ele /a viveu. Subjacente ao discurso do texto Saga, relata-se uma aventura vivida. É nessa legibilidade que se encontra a verdadeira leitura (conceito de semântica de profundidade ricoeuriana).

O conto é tecido de risos e cochichos, das exclamações dos leitores, que a qualquer momento podem interromper e moldar a narração. Como apontou Todorov, cada “homem-narrativa” revela e dissimula um outro narrador que retira dele a sua existência e a autoridade de sua palavra. Não esqueçamos de que a literatura tem a vocação de pôr em cena o duplo, invalidando o principio de identidade: o que é uno é também múltiplo, como o escritor sabe por experiência. A vontade de apagar o eu, de escapar ao eu-prisão pela viagem (caso de Hans), de criar um eu-evasão por meio da imaginação é uma constante no universo de Sophia de Mello Breyner. Em “Saga” Hans é o exilado que pula de uma casa para outra, procurando aproximar-se do centro de si mesmo, demonstrando disponibilidade para a aventura, demonstrando liberdade ao tentar experimentar diferentes maneiras de ser homem, diferentes da personalidade adaptada ao eu social. Nessa viagem simbólica, ele percorre diferentes “estações” de uma viagem iniciática, de uma concentração em si mesmo, seguindo-se uma abertura para o mundo. A alteridade dentro do eu é o que vai permitir um diálogo, um reencontro, até mesmo uma solidariedade com o Outro. A desapropriação já não significa um empobrecimento, mas uma possibilidade de enriquecimento Neste caso, a viagem pode comportar a figura de conhecimento que é o labirinto: uma cidade desconhecida, uma paisagem que confunde… a errância e a estranheza do mundo que Hans experimenta ao longo do conto. Interessante é notar que Sophia afirma que pertence “à raça daqueles que percorrem o labirinto sem jamais perderem o fio de linho da palavra” (Obra poética III, p149). Segundo o ideal grego a literatura só podia ser educativa desde que “ as raízes mergulhem nas camadas mais profundas do ser humano” e desde que nela “viva um ethos, um anseio espiritual, uma imagem do humano capaz de se tornar numa obrigação e num dever” (Jaeger, s/d: 57). Será deste ethos que Sophia se reclama “A Grécia é um ponto de partida a que justamente é preciso regressar porque então o homem tentou partir da imanência, partir do seu estar na terra: estou na terra, sou mortal mas vou tentar viver a minha mortalidade com o máximo de verdade, o máximo de transparência, o máximo…” (Andresen: 1981:4). É por isso que  para Sophia a  literatura se afigura como uma moral; é também por isso que verificamos ao longo de “Saga” e de outros seus contos a voz do narrador avançando à medida que a personagem progride na sua acção; como refere Ricoeur em Temps et récit II (p 252) “c’est lui qui dépose sur l’espérience racontée par le héros la signification.” e percebemos ainda melhor a infiltração da voz de Sophia quando Ricoeur afirma mais adiante que “c’est la reprise par le narrateur des conceptions de l’auteur qui fait foi pour la lecture. Ses conceptions sont alors incorporées aux pensées du narrateur. A leur tour, ces pensées du narrateur accompagnent l’expérience vive du héros qu’elles éclaircissent “.

Isto quer dizer que a existência de Sophia está implicada na sua arte; ela sublinha a necessidade da inteireza, do não isolamento do homem. Daí ser imperioso evitar que o “Círculo” se instaure, isole, enclausure e por isso a personagem Hans deve sair da ilha de Vig, do círculo fechado, extravasar para o exterior, contactar com o universo do mar e navegar ao jeito de Fernando Pessoa que diz “Eu não evoluo: viajo”. Navegar com o vento contra, com uma geografia cheia de dilemas (Cf Ricoeur 2000: 619) em que a acusação, a punição e o sentido do perdão entram em diálogo surdo, foi o que Hans teve que fazer e exigir de si próprio essa habilidade interna de ser português (Jabouille: 1993:70).

Paradigmática escritora, Sophia possui uma escrita profundamente clássica na medida em que, embora partindo muitas vezes de experiências pessoais, procura nelas aquilo que constitui a sua universalidade e intemporalidade. Paralelamente, interessa-se pelos problemas psicológicos e morais que preocupam o Homem e procura soluções, assumindo, assim, uma função pedagógica. Tal como os autores clássicos, Sophia também faz “coexistir a exigência racionalista da verosimilhança e a exigência fantástica do maravilhoso” (Aguiar e Silva 1986: 516); é o vector sensível da razão que se manifesta através de uma linguagem que trabalha a realidade.

 

* Escritora e especialista em Psicologia da Arte