Jorge A. H. Rangel *
“Macau conserva aquela originalidade, que não deixou de produzir-me grata impressão, ainda que certa estranheza…”
“A China e os Chins – Recordações de Viagem” é o título de um apelativo livro que Henrique C. R. Lisboa, secretário da missão oficial especial nomeada para estabelecer relações entre o Brasil e o Império do Meio, escreveu e fez publicar em Montevideu, em 1888. Nele também descreveu Macau, que foi visitada por aquela missão, partilhando com o leitor as impressões que colheu da cidade, em 1880, e as considerações que teceu sobre a vida urbana, o património construído e os contrastes que facilmente detectou. O “amável Governador Graça”, referido no texto, era Joaquim José da Graça, tenente-coronel do Exército Português, que desempenhou altos cargos na administração ultramarina e governou Macau de 1879 a 1883, tendo sido, nesse período, simultaneamente, ministro plenipotenciário junto dos Imperadores da China e do Japão e do Rei do Sião.
Eis algumas passagens mais relevantes das suas curiosas observações, que transcrevemos com a grafia actualizada:
A vida urbana
“A Cidade do Nome de Deus hão há outra mais leal ocupa a parte sul da pequena península que termina a ilha de Hiang-Chang. Nove morros a dominam do lado do mar, erguendo-se em quatro deles outras tantas fortalezas armadas de antiga artilharia. O bairro onde se albergam os 4.000 europeus que vivem em Macau acha-se situado na parte leste da cidade e apresenta um alegre aspecto, com suas construções pintadas de vivas e variadas cores, seus seculares conventos e igrejas e seu belo passeio à beira mar, que recordou-me a Promenade des anglais de Nice ou a praia de Botafogo.
A ‘Praia’ é o nome desse passeio onde, à tarde, saem a respirar a suave brisa do mar morenas europeias ou amarelas mestiças, trajando vistosas saias que procuram imitar as modas um pouco atrasadas de Paris.
Carros antiquados, cadeirinhas e pedestres cruzam-se constantemente em uma e outra direcção, parando de vez em quando para permitir alguns cumprimentos ou confidências de amor, arte a que se dedicam assiduamente os mancebos de Macau, por não encontrarem, talvez, outra ocupação. Não se pode, porém, negar que empreguem grande engenho para ostentar uma toilette sempre cuidada. Nada mais interessante do que esses moços de fisionomia chinesa e cabelo naturalmente lustroso, trajando elegantes fraques, com os pequenos e bem formados pés apertados em brilhantes botinas e o pescoço encerrado em altos e duros colarinhos rodeados de coloridas gravatas. É Macau a única cidade da China em que se mantém a pretensão dos trajes europeus, ainda que adulterados pelo gosto e a distância e pela especulação do comércio, que encontra aí cómodo mercado para os artigos passados de moda. Em outras partes, os residentes estrangeiros adaptam o seu traje à comodidade de movimentos ou às condições do clima; Macau, porém, conserva aquela originalidade, que não deixou de produzir-me grata impressão, ainda que certa estranheza, depois, que os meus olhos se tinham habituado, na minha longa viagem desde o istmo de Suez, a só ver como excepção a comprida sobre-casaca e o chapéu de copa.
É verdade que os ingleses nunca abandonam a casaca e a gravata branca para sair à noite; mas, durante o dia chegam a suprimir a camisa e só usam daqueles chapéus de formas extravagantes que chamam a atenção dos flaneurs da nossa rua do Ouvidor, quando aporta ao Rio de Janeiro algum vapor da Austrália.
Não são, porém, somente os janotas e as elegantes de Macau que lhe dão um cunho especial entre as cidades da China. As suas ruas escabrosas, com suas escadinhas que lembram as velhas calçadas lisbonenses; as suas casas de construção irregular, ornadas de balcões de madeira verde, estilo árabe, ou de janelas engradadas; as numerosas igrejas e os conventos empoeirados, residências de padres que circulam gravemente, como quem tem consciência da sua influência, vestindo amplas batinas e deitando a bênção sobre os transeuntes; o contínuo repique dos sinos e o retumbar dos tambores da guarnição, tudo dá a Macau uma fisionomia que contrasta com a das outras cidades, onde predomina o espírito prático dos ingleses e em que a actividade comercial absorve todas as outras manifestações da vida. Mas o comércio de Macau está em constante decadência e não parece longe de limitar-se às necessidades locais. Em vinte anos, o número anual das saídas de navios do seu porto caiu de 1000 a 200, sendo estes, pela maior parte, embarcações de cabotagem que transportam a Hong Kong o chá ainda exportado da colónia portuguesa no valor de dois mil e quinhentos contos.”
O património construído
Ver a gruta de Camões era, nesse tempo, imperativo. O visitante brasileiro não deixou de lá ir e de apreciar algum do vasto património construído:
“Acha-se situada essa gruta dentro de uma propriedade particular, cujo dono tem prazer em franquear acesso ao pitoresco sítio onde, à sombra de frondosa vegetação, cantava o vate lusitano as glórias da pátria ingrata. Numa cavidade, entre dois rochedos, vê-se um busto do autor dos Lusíadas, rodeado das inscrições com que os visitantes prestam justa homenagem a uma glória hoje universalmente reconhecida. Obtém-se daí uma esplêndida vista de Macau e da sua plácida baía e compreende-se que se prestasse esse ameno refúgio a tão sublimes inspirações. Ainda depois, os modernos poetas e pintores que o destino atira a essas praias frequentam carinhosamente esse delicioso retiro, seja para respirar nas perfumadas auras da tarde os eflúvios da poesia ou para roubar com o pincel, no esplendor de um tropical pôr-do-sol, os encantos dessa natureza privilegiada.
O Palácio do governo de Macau é um vasto edifício cuja arquitectura nada tem de notável. A mobília que o guarnece merece, porém, atenção dos amantes de coisas antigas, e algumas peças obteriam, certamente, como tais, preços fabulosos em Paris ou Londres. Também admirei ali o magnífico serviço de porcelana chinesa antiga, com o qual ofereceu o amável Governador Graça um banquete à Missão de que eu fazia parte.
Entre outros edifícios, se não elegantes, ao menos respeitáveis pela sua idade, notam-se a Catedral, o Paço municipal, o Senado e a igreja de São Paulo, construída em 1594. Esses edifícios estão ornados exteriormente de estátuas de mármore e granito, deformadas pela intempérie, e interiormente, de pinturas a fresco, quase destruídas pela incúria. Ao sair desses monumentos seculares, acorda o viajante como de um sonho, sentindo-se na China, depois de ter sido transportado em espírito a alguma antiga basílica de Portugal ou Espanha.”
Quem chamou a nossa atenção para a existência deste livro foi Carlos Francisco Moura, respeitado investigador do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, quando, ainda jovem, escreveu um artigo sobre o mesmo no Boletim do Instituto Luís de Camões (vol. IX, de 1975), que o nosso saudoso Luís Gonzaga Gomes diligente e competentemente dirigia. Carlos Francisco Moura continua ligado àquela emblemática instituição portuguesa do Brasil, criada em 1837, sendo também colaborador do Instituto Internacional de Macau, que publicou vários dos seus estudos sobre o relacionamento do Brasil com Macau.
Outras observações de Henrique C. R. Lisboa, sobre a cidade chinesa, contrastes com Hong Kong e diferenças entre as artes ocidental e oriental, serão incluídas no próximo artigo desta série semanal intitulada “Falar de Nós – Macau e a Comunidade Macaense” iniciada em Dezembro de 2003.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.




