“As festas a S. João Baptista, Padroeiro da cidade, têm sido anualmente celebradas a partir de 24 de Junho de 1622 por voto do Município e da população desta Província em homenagem àquela plêiade de heróis que se opuseram com denodo e vitoriosamente às forças holandesas que procuravam a todo o transe a conquista desta cidade.”
Do Boletim Informativo “Macau”, de 30 de Junho de 1956
Foi um dos dias maiores da nossa cidade, com celebrações de alto significado, que contaram sempre com a presença das mais altas entidades oficiais, a participação plena da Diocese e a adesão de instituições públicas e da sociedade civil, com especial destaque para o Leal Senado da Câmara. Dia da Cidade até 1999, o dia 24 de Junho era assinalado com missas, uma procissão, diversas iniciativas municipais e associativas e um animado arraial, amplamente concorrido, como festa de cariz popular.
No decurso das últimas décadas, foi graças, fundamentalmente, à louvável persistência de algumas organizações de natureza associativa que as celebrações se mantiveram, com condicionalismos de vária ordem, alguns dos quais de difícil compreensão. A diáspora macaense nunca deixou de recordar a data, sentida por todos como o seu dia ou, cada vez mais, como o Dia da Memória e da Identidade de Macau. Mesmo com uma acentuada modéstia de recursos, exíguos apoios e já sem cunho oficial, um conjunto de associações locais quis manter viva a tradição, lembrando uma data de grande importância para a comunidade, por estar indelevelmente ligada à memória histórica da cidade.
Para se entender melhor o significado das celebrações e a relevância que elas grangearam em tempos idos, das minhas pastas de recortes de jornais e revistas, fui buscar, para este espaço do jornal, uma reportagem das celebrações do Dia de S. João Baptista, ocorridas precisamente há sete décadas, nos dias 23 e 24 de Junho de 1956:
Festa religiosa
“Macau festejou condignamente o seu padroeiro, S. João Baptista, realizando nos dias 23 e 24 de Junho as tradicionais comemorações e festividades em honra daquele Santo Popular. As festas a S. João Baptista, Padroeiro da cidade, têm sido anualmente celebradas a partir de 24 de Junho de 1622 por voto do Município e da população desta Província em homenagem àquela plêiade de heróis que animados de forças sobrenaturais e fé inquebrantável se opuseram com denodo e vitoriosamente às forças holandesas que procuravam a todo o transe a conquista desta cidade. Nesse inolvidável dia de 1622, se as forças se multiplicaram e um acendrado patriotismo dos macaenses conseguiu coisas inverosímeis, o povo na sua crença atribuiu também o desfecho da luta à protecção divina de S. João que protegeu o povo de Macau nessa pugna de direito.
E todos os anos, sempre com o maior luzimento, a festividade religiosa seguida de festejos populares se tem realizado em cumprimento duma prece que traduz a gratidão dum povo. O Leal Senado promoveu este ano nos dias 23 e 24 a festa religiosa havendo nos mesmos dias no terraço do Mercado de S. Domingos um arraial à portuguesa com bandas de música e atractivos.
Sua Exa. Rev.ma o Bispo de Macau, D. Policarpo da Costa Vaz, presidiu na Sé Catedral, no dia 23, aos actos vespertinos. No templo, em lugares especiais, estavam Sua Exa. o Encarregado do Governo, Brigadeiro João Carlos Guedes Quinhones de Portugal da Silveira, o Meritíssimo Juiz de Direito da Comarca, membros do Corpo Consular e Conselho de Governo, a Comissão Administrativa do Leal Senado, o Comandante do aviso ‘João de Lisboa’, Chefes de Serviços, e outras individualidades civis e militares. Seguidamente às Vésperas Solenes, o Revdo. Padre Benjamim Videira Pires, numa pregação patriótica de alto valor histórico, evocou o dia 24 de Junho de 1622, pondo em foco a importância da Fé naquela memorável façanha dos portugueses. A procissão saiu depois percorrendo o caminho que já é do hábito nos anos anteriores, levando os zeladores municipais, aos ombros, o Santo Padroeiro. A banda de música dos alunos salesianos tocou durante o cortejo. O Venerando Prelado da Diocese levava o Santo Lenho, seguindo atrás do pálio Sua Exa. o Encarregado do Governo, o Chefe do Gabinete, a Comissão Administrativa do Leal Senado e muitos fiéis.
No dia 24, às 10 horas da manhã, cantou missa solene o Revdo. Cónego Juvenal Garcia, Reitor do Seminário Diocesano de S. José, tendo assistido à cerimónia Sua. Exa. o Encarregado do Governo, o Meritíssimo Juiz de Direito, a Comissão Administrativa da Câmara e as mesmas entidades oficiais da véspera, tendo os alunos do Seminário de S. José desempenhado a parte musical.
Concurso de montras
Enquadrado nas festas a S. João Baptista resolveu o Leal Senado organizar um concurso de montras, com motivos à escolha dos concorrentes. Apareceram assim na principal artéria da cidade, Avenida Almeida Ribeiro, algumas montras com decorações artísticas, salientando-se as montras dos estabelecimentos das conhecidas casas ‘J. J. Lemos’ e ‘Rosita’. A Exposição de Montras a concurso contribuiu, já pela sua iluminação especial, já pelo bom gosto que acompanhou todas as decorações expostas, para dar uma nota típica e alegre à cidade contribuindo para um movimento desusado no trânsito das principais artérias.
Arraial à portuguesa no terraço do Mercado de S. Domingos
A Comissão Administrativa do Leal Senado, conforme já fez o ano passado, inaugurou pelo Sto. António um recinto enfeitado no terraço do Mercado de S. Domingos, com ‘stands’ para venda de refrigerantes, jogo de loto, venda de gelados e o respectivo restaurante com cozinha à portuguesa, destinando-se a sua receita a fins beneficentes.
Nas noites dos dias indicados houve no terraço do dito mercado um animado arraial à portuguesa. Apesar de já ter funcionado durante o Sto. António, o arraial das Festas dos Santos Populares teve naqueles dois dias particular animação e afluência desusada. Sua Exa. o Encarregado do Governo esteve durante algum tempo de visita ao recinto acompanhado pela vereação da Câmara Municipal. Circularam pelo recinto nas duas noites muitas centenas de pessoas que se entretiveram pelas várias barracas, sendo o ‘stand’ da cerveja, como é hábito, o mais frequentado. Não houve falta de música no arraial pois a banda da Polícia de Segurança Pública, a tuna Negro-Rubro e uma orquestra chinesa abrilhantaram o recinto executando vários números com regularidade, transmitindo aquela nota alegre indispensável nas festas à portuguesa.
O Clube Militar também festejou o dia de S. João na noite de 23 com um baile e arraial de características lusitanas que teve a honrosa presença de Sua Exa. o Encarregado do Governo. Houve também alegria e animação e o baile prolongou-se até às primeiras horas do dia 24.”
Foi assim há 70 anos. Por todas as razões, acreditamos que este dia e o Santo Padroeiro, que a comunidade macaense tanto valorizou e ainda venera, merecem todos os apoios para que possam continuar a ser condignamente celebrados na nossa cidade. Saltitando de local em local, em busca de um espaço mais adequado, depois de ser, infelizmente, inviabilizada a sua realização em ruas do Bairro de S. Lázaro, a próxima festa de São João, nos dias 20 e 21 do corrente, Sábado e Domingo, terão lugar pela primeira vez na Doca dos Pescadores. Apelamos à participação da comunidade e felicitamos a comissão organizadora, onde se destacam as Associações dos Macaenses e de Jovens Macaenses, com a colaboração da Casa de Portugal e do Instituto Internacional de Macau.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



