Jorge A. H. Rangel *
“Entretanto, é ainda a pesca que anima a vila e o seu pequeno comércio. Tal como em Macau, só as pequenas sampanas encostam aos cais ou mais se aproximam de terra…”
Há poucos dias, a convite do presidente da Associação dos Antigos Alunos da Escola Comercial Pedro Nolasco, pude partilhar recordações da década de 1950, que foi um período de paz instável, a seguir à Guerra do Pacífico e à guerra civil chinesa, cujo desfecho foi marcado pela implantação da República Popular da China em Pequim, no dia 1 de Outubro de 1949. Nesse encontro, integrado na série intitulada “Serões com História”, que aquela associação tem levado a efeito na Fundação Rui Cunha, apenas houve tempo para uma referência muito breve à vida nas ilhas, cujo ambiente era ainda muito bucólico e a actividade económica basicamente artesanal. É, por isso, oportuno, facultar ao leitor este elucidativo testemunho redigido no final da década de cinquenta por Raquel Soeiro de Brito, investigadora e professora universitária, e publicado em Lisboa, em 1962:
Parca urbanização
“Situada 6km a sul de Macau, a ilha de Coloane é um arco granítico, aberto a sul-sudeste, formado por uma série de picos, de que o mais elevado, no sul, atinge 173 m, separados uns dos outros por colos estreitos, aparecendo a diferentes alturas entre os 50 m e 110 m. A costa é geralmente abrupta, à excepção de exíguos anfiteatros formados pela junção ocasional de algumas linhas de água (Ká-Hó, Siac Pai Van, Tai Van, Coloane) e de uma autêntica baía, Hac-Sá.
Coloane, com 6,6 km² de superfície e 2800 habitantes, de que mais de metade (1660) pertence à vila, e 460 às duas maiores aldeias, Hac-Sá (220) e Ká-Hó (240), é o território menos povoado da província de Macau. Todas as aldeias e lugares habitados se situam perto das melhores enseadas e são sempre limitados, pelo interior, por um pequeno aro de culturas: hortas nas zonas mais baixas, por vezes arroz que trepa pelas encostas socalcadas, até onde as nascentes e riachos o permitem. As aldeias têm o casario junto, formando pequenos núcleos com espaços de horta entre eles. As casas são térreas, rectangulares, de tijolinho de cutelo, segundo a tradição do Sul da China, telhado de duas ou quatro águas, de telha plana com as juntas protegidas por outras em meia-cana, imitando os bambus que vieram substituir. Portas estreitas e pequenas aberturas dão ao interior pouca luz, que serve para encobrir a confusão, a falta de arranjo e a tristeza do interior, pequeno e pejado de coisas, onde as pessoas se não podem mover à vontade. Como sempre, defronte da porta fica o altar com a estela familiar, onde ardem permanentemente pivetes e lamparinas; junto às paredes vêem-se, de dia, os ‘burros’ de lona que à noite se abrem em qualquer canto. A vila é formada por duas longas ruas paralelas à baía e algumas transversais. Quase todas as casas fronteiras ao mar têm os pisos térreos reservados ao negócio da pesca; a rua de trás é a rua comercial: géneros alimentícios, vestuário, quinquilharias; tanto num caso como noutro, os andares superiores são sempre para habitação. A vilória termina por uma cintura de hortas que estacam contra os relevos vizinhos.”
Um mundo rural
Como vimos, na ilha havia apenas a vila de Coloane e algumas pequeníssimas povoações, predominando a vida rural:
“O interior da ilha, de vigoroso relevo granítico, é despovoado e sem qualquer cultura. Como a cobertura vegetal é muito rala e o solo de alteração granítica extremamente friável, todas as zonas elevadas da ilha mostram enormes grotas por onde, na época das chuvas, as águas rolam em turbilhões, arrastando atrás de si grandes quantidades de terra. Este processo agrava-se de ano para ano, razão da urgência do repovoamente florestal, a que se começou a proceder há cerca de três anos. As espécies mais indicadas são casuarinas (Aquisitifoli e Strita), pinheiro da China (Pinus maçoniana) e acácias, com que já estão repovoados 150 ha, faltando ainda 310 ha.
Apenas uns 40 ha (6 p. 100 da superfície total), estão sujeitos a cultura regular, de que o arroz ocupa a maior parte, embora com menor rentabilidade do que as hortas. Estas são sempre pequenos retalhos minuciosamente tratados, tal como em Macau; somente, enquanto ali se usa a hortaliça estreme, aqui é frequente encontrarem-se renques de papaieiras ao longo dos canteiros. Também são mais usuais do que em Macau a batata doce e o inhame (Colocásia), este geralmente bordejando os canteiros ou em filas, alternando com as outras hortaliças. Nos terrenos com abundância de água a horta alterna com o arrozal. Em Março, depois das chuvas, preparam-se os tabuleiros de arroz, começando os homens por fazer uma passagem a arado, puxados por búfalos, a que se segue uma gradagem e uma estrumação (com estrume humano e de qualquer animal). Logo a seguir as mulheres fazem a sementeira densa, pois passados vinte a trinta dias procede-se à repicagem para os tabuleiros definitivos, cuja preparação foi idêntica à dos viveiros. As variedades mais empregadas conservam-se na terra à roda de três meses. (…)
Logo que o arroz é ceifado prepara-se a terra para a horta, removendo-a apenas com arado e alisando-a com grade, fazendo-se imediatamente as sementeiras de hortaliça. Esta ficará na terra até Março, altura em que de novo entra o arrozal. Esta intensa ocupação é relativamente recente e devida ao constante aumento demográfico e à falta de terrenos com boas condições de cultura. A produção é quase exclusivamente destinada ao consumo local e só se poderá desenvolver quando houver disponibilidades de água para rega. (…)”
Pesca e construção naval
Mais do que a limitada agricultura, era a pesca que dava vida e movimento à ilha:
“Entretanto, é ainda a pesca que anima a vila e o seu pequeno comércio. Tal como em Macau, só as pequenas sampanas encostam aos cais ou mais se aproximam de terra; os barcos maiores ficam sempre ao largo, mais ainda do que ali, porque o assoreamento é muito grande e não podem correr o risco de ficar encalhados na maré baixa. Embora todo o dia haja movimento no cais e na avenida que lhe fica fronteira, é da tardinha até às dez, onze da noite que ele se acentua, com a chegada quase contínua de dezenas de sampanas que fazem o transbordo do peixe e de pessoas entre os barcos ancorados ao largo e a terra. Umas vezes pertencem aos próprios barcos, outras são alugadas expressamente para esse serviço. A maior parte delas vem quase a rasar a água, abarrotadas de peixe e de gente – homens para fechar os negócios da venda e comprar os apetrechos necessários, mulheres para as voltas domésticas, gaiatada para correr à vontade enquanto os pais resolvem os seus problemas. Perto do cais, no mar repleto de embarcações, o movimento é grande: umas sampanas encostam e descarregam gente e pescado e outras manobram para a partida, enquanto muitas aguardam pacientemente um lugar para acostar. Em terra a azáfama é semelhante: numa área relativamente larga da rua andam pessoas apressadas, de um lado para outro, transportando cabazes e embrulhinhos; os miúdos esgueiram-se, a correr, por entre as pessoas, dando encontrões a este e àquele. No cais, ainda a confusão é maior: o pequeno plano inclinado está cheio de mercadoria e de gente que se acotovela num vaivém contínuo, na azáfama da descarga e carga dos barquitos… O peixe é levado directamente aos lans, onde é leiloado e vendido, seguindo muito camarão e linguado para Hong Kong.”
Perto da vila havia também um estaleiro de construção naval, que ainda foi resistindo até ao tempo presente, mas já com cada vez mais reduzida actividade. Para se chegar a Coloane, ia-se de lancha que saía do Porto Interior e demorava cerca de uma hora a aportar à ponte-cais da vila, sendo os horários sujeitos às marés. Foi um outro tempo de Macau, bem diferente do actual e que muitos, hoje, nem querem acreditar que poderá ter existido ainda no início da década de 1960.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



