Luiz de Oliveira Dias*

Luiz de Oliveira Dias*

Foi um dos fados que José Gonçalo Bastos Silva cantou tão bem como ele sabe, na Serenata com que terminou o Mês de Camões em Macau. Coimbra Menina e Moça/Rouxinol de Bernardim/Não há terra como a nossa/Não há no mundo outra assim. E não há mesmo.

Quando o ainda nosso Cônsul Geral, Embaixador Vítor Sereno, subiu ao palco do Teatro D. Pedro V para apresentar o Grupo Clave 4, que convidara com o apoio da Casa de Portugal – leia-se, Dra. Amélia António – para vir expressamente de Coimbra para esta serenata, disse, mais ou menos, estas palavras: Nasci em Coimbra, cresci em Coimbra, foi na Universidade de Coimbra que me formei em Direito, amo Coimbra. Todos o entendemos. Sala cheia – e não só de antigos estudantes de Coimbra em Macau mas muitos daqueles que, como se ouvia na Desgarrada, têm, saudades dela mesmo sem nela nunca terem estado.

À saída cruzei com o Dr. Manuel Trigo e sua mulher que se admiraram de eu lá ter ido apesar de apoiado na minha preciosa bengala. Respondi-lhes que, para qualquer coisa que me lembrasse Coimbra eu iria mesmo de muletas.

A Serenata foi tão bonita que, quási nos emocionou a nós para quem Coimbra, a Coimbra do Mondego e dos amores que lá tivemos, por de perto e por dentro a conhecemos e a lembramos como se ainda lá estivéssemos.

Nas mesmas palavras de abertura, Vítor Sereno disse também isto: Trabalhei em quatro Continentes mas, de todos, é em Macau, na China, que me sinto mais perto de Coimbra.

Apagaram-se as luzes e o sortilégio começou: entraram para o palco o primeiro e o segundo guitarras e o viola. Óptimos, como demonstraram nas várias guitarradas que tocaram, desde a em Ré menor de Artur Parede à em Lá menor de João Bagão. Óptimos também os Cantadores, o Paulo e o José Gonçalo que tiveram o bom gosto de cantar todos tradicionais bem como algumas baladas, a terminarem com a famosa, de Fernando Machado Soares – “Coimbra tem mais encanto/na hora da despedida”, que se transformou numa espécie de hino dos que tendo estudado em Coimbra, no fundo nunca de lá saíram.

Foi uma noite encantada. Lágrimas de emoção em todos os olhos – apesar de Vítor Sereno ter dito em voz alta do fundo da plateia “Isto não é para chorar” – certos de que não vai haver outro igual.

O primeiro Fado foi um dos mais difíceis de cantar: “É tão lindo o teu olhar/que eu nem sei mesmo se Deus/fez teus olhos de luar/se o luar dos olhos teus”. Depois, o Menino de Oiro, de António Menano e mais outros do meu tempo mas do tempo de todos nós. Até que, para aliviar ambos os cantadores se atiraram para a desgarrada – “Coimbra para ser Coimbra/três coisas há de cantar/guitarra, tricana linda/capas negras a voar”.

Correctíssimos como sempre a malta é, os Clave 4 +1 chamaram ao palco Vítor Sereno e Amélia António e pondo-lhes ao ombro as suas capas agradeceram o convite que lhe haviam feito saudando-os com um bruto FRA gritado com toda a cagança e toda a pujança.

E todos e também nós os da plateia – acabámos cantando com eles a “Coimbra tem mais encanto na hora – nesta hora da despedida”. E acabou.

Foi bom – foi óptimo. Só que em Coimbra não acabava ali – íamos pela noite dentro a soltar os últimos arpejos das guitarras até pararmos nas escadas da Sé Velha ou nas da Igreja de Santa Cruz/feita de pedra morena…

 

* Docente. Anterior presidente do Instituto Politécnico de Macau.