Cláudia Ribeiro nasceu em Angola, no Lubango, e é autora do livro “No Dorso do Dragão – Aventuras e Desventuras de uma Portuguesa na China”, publicado pela Europa-América. A autora explica-nos que não era adepta de revoluções e que o seu fascínio pela China surgiu dos caracteres e da sua singularidade poderosa.
Apaixonada pelas viagens e atenta aos pormenores, na sua obra relata tudo o que caracterizava o povo chinês: os hábitos, a cultura, as crenças e mitos, monumentos e até os meios de deslocação para visitar os lugares mais emblemáticos. Tinha desenhado na mente conhecer Pequim, Xangai, Macau, Tibete, a Grande Muralha e o grande deserto de Taklamakan. Havia de lá chegar de moto, bicicleta, comboio ou de riquexó… estava traçado o seu percurso e valia-lhe a determinação.
Refere, então, tudo o que viu com tal vivacidade e realismo que dá a impressão de ter descoberto várias Chinas, e, efetivamente, ela teve tempo de fazer descobertas intemporais, durante o seu percurso de estudante, em que permaneceu em Pequim.
A escritora nasceu no Ano do Dragão, em Angola e, em 1975, veio com a família para Portugal. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Ao mesmo tempo, frequentou o então aí existente Curso Livre de Língua Chinesa. Em 1987, obteve uma bolsa do Ministério dos Negócios Estrangeiros da República Popular da China e, posteriormente, uma outra da Fundação Oriente, para prosseguir o estudo do chinês na Universidade de Línguas Estrangeiras de Pequim.
Viveu na China, como estudante de chinês entre 1987 e 1991, ano em que regressou a Portugal. Voltou lá em 1997 e registou mudanças rápidas, sobretudo a nível das cidades: os espaços antigos tinham-se modificado, para dar lugar a novos projetos. Muitas vezes, a interrogavam por que escolhera a China e este texto creio que responde e explica o conteúdo que constituem a dimensão volumosa do livro. A China, talvez tenha sido uma miragem de uma estudante sonhadora e viajante traduzida no texto:
“China?» nunca sabia responder. Nem sei se esse amor teve realmente algum começo. Talvez não pareça, mas este livro é também uma história de amor. A história de um amor complicado, porque amar a China não é fácil. Ser estudante na China era a melhor maneira de descobrir e conhecer o país. Não só porque assim aprendia a falar a língua, mas também porque era uma maneira de fazer a ponte entre a sociedade chinesa e a comunidade internacional – dois mundos tão diferentes um do outro. O estudante estrangeiro era visto pelo chinês como amigo da China, alguém que, livremente, por sua própria vontade, escolheu viver no seu país e aprender a sua língua. Além disso, o estudante estrangeiro tinha vantagens materiais e económicas: pagava muito menos do que um turista pelos mesmos produtos e vivia com algum conforto nos dormitórios para estudantes. Este livro não é um ensaio, nem é um estudo sério sobre a China. Também não é um guia de viagem, nem é um livro para ser lido por turistas. Para mim não é fácil dizer o que este livro é, nem é fácil classificá-lo. Tentei fazer com que este livro tratasse de temas que faltavam nos livros que eu li antes de ir para a China. Os temas de quem realmente viveu na China. Uma China pessoal, que eu vi e vivi – Cláudia Ribeiro, No Dorso do Dragão, (versão adaptada).
Numa entrevista – conduzida por Andreia Silva no Jornal Hoje Macau, a 21 de outubro de 2024 – respondeu à questão colocada: Publicou “No Dorso do Dragão” em 2001, que fala dessa experiência. Que diferenças destaca na China entre a data da publicação do livro e o período actual?
Publiquei, entretanto, uma versão revista desse livro em 2023. “No Dorso do Dragão” foi escrito entre 1995 e 1998, e quando o estava a escrever a China já era diferente daquela em que eu tinha vivido. A China é sempre um mesmo-outro, desenvolve-se por camadas e, se raspamos um pouco, afloramos o seu passado. Há muitos aspectos em que permanece idêntica, e muitos outros em que se tornou diferente. É um país que retirou da pobreza 850 milhões de pessoas em quarenta anos, um feito absolutamente extraordinário e que nunca é demais frisar. Mas o germe da China de hoje, desse país vibrante, cheio de vida e de esperança, que caminha confiante rumo ao futuro, já estava presente nos anos oitenta. Nas cidades chinesas, basta sair para a rua e é palpável uma trepidação, um ímpeto avassalador. Por comparação com os chineses, os europeus parecem zombies, gente mole, refastelada, auto-complacente. E a Europa parece um museu que se exibe sem se renovar.
Tendo dado a conhecer a escritora e a temática da obra, creio que o título “No Dorso do Dragão” merece uma reflexão, pois, para além da autora ter nascido no Ano do Dragão, este animal tem uma simbologia muito forte implantada na China. A sinóloga Ana Cristina Alves diz-nos que: “O Ano do Dragão inaugura a 10 de Fevereiro. Será de Madeira Yang. Traz prosperidade, sucesso, poder e felicidade. Serão privilegiadas a imaginação, a criatividade e a responsabilidade. A cor da sorte será o verde e o elemento a Madeira, que expandirá a energia e o poder criativo do dragão”. Para além da dimensão ontológica, o dragão apresenta -se com facetas multiformes e ligado a lendas e mitos. Há leituras que revelam o dragão com cabeça de camelo e com uma pérola mágica na boca que pode originar nuvens que se transformam em água ou fogo, com intuito de revelar o seu poder sobre o reino do céu e da água; pode ainda ser um dragão -cobra ou com olhos redondos (como retratou João Morgado em “Contos de Macau”); ter olhos de coelho ou patas de tigre; mas a sua máxima força simbólica está associada à capacidade de governar a terra, graças à sua investidura divina. Segundo Grousset,” não se trata de aspectos diferentes de um símbolo único, que é o do princípio activo e demiúrgico: poder divino, élan espiritual” (Dicionário dos Símbolos, p.273).
A interrogação poderá centrar-se sobre o “dorso”. É mais comum encontrar-se alusões à cabeça do dragão (a morada da existência consciente) e à cauda que agita as influências do passado. Sem uma explicação fundamentada, o dorso, sendo mais longo, pode prefigurar a caminhada da própria autora concentrando as aventuras e desventuras que o próprio dragão pode também induzir dos princípios chineses representativos no Bem e no Mal.
A textura do dorso, não tão resistente como a do Crocodilo, aguenta “as aventuras e desventuras de uma portuguesa na China” e afugenta os medos e as consequências do seu porte, significando que o título é metafórico – ele simboliza o território e as mundividências da autora, durante o período em que lá viveu. O dorso pode ainda retratar, na espécie de ondulação, como o animal entra nas festividades, e as oscilações padecidas na sua adaptação à cultura chinesa. A sugestão de espaço comprido permite uma certa acomodação ao lugar – Cláudia caminha /caminhou entre a cabeça e a cauda e sentiu e viu o que de melhor recolheu.
Luísa Ducla Soares, num livro para crianças, interroga “E se o dragão entrasse, de imprevisto, na tua casa, na tua escola, na tua vida? Como lidar com o diferente, com o medo, com o inesperado? Sem “o imprevisto”, Cláudia mostra como lidou com tudo isso e como até se afeiçoou, de tal modo que o escolheu para o título do seu livro. Ela levava – o para a escola, para cativar amigos e, assim, aprendeu a crescer. Apostou e desafiou o destino, mas tornou-se “muito grande” no/com o Dorso do Dragão.
O Ano do Dragão (ano em que nasceu a escritora da obra) é sempre um bom auspício para os nascidos neste signo zodíaco chinês. No Ano Novo Lunar há sempre grandes festividades na rua e o dragão sai à rua, no seu ano, para animar o folclore. Descreve-nos Óscar Gomes da Silva em “Olhares Amendoados”, 2016. Chiado Editora: “Chegou o lendário dragão que, desde há muitos séculos, a imaginação popular vê serpenteando a longa cauda e respirando ardentes labaredas. Agora, de papel colorido e bem decorado, envolvendo uma armação de bambu. Cada um dos participantes do grupo de dançarinos dá mobilidade ao mitológico animal por meio de uma haste de alumínio.”(p.23) A festa lá se faz e o importante é vivificar o dragão, dando-lhe vida e fazendo-o girar com frenesi, para animar a Festa.
Kung Hei Fat Choi! Feliz Ano Novo! Foi esta a Sorte que coube Cláudia Ribeiro.
*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau



