Carlos Frota *
A imagem, de há poucos dias, é forte: Angela Merkel dirigindo-se a um conjunto de pessoas, em frente a um microfone, tendo por detrás as barracas lúgubres do campo de concentração.
E a mensagem é forte também: o reiterar do Nunca mais! da chefe do governo alemão contra os terríveis acontecimentos que marcaram a História do seu país, da Europa e do Mundo, na primeira metade do século XX.
Ocorre esta deslocação nas vésperas de eleições gerais que serão um teste à liderança e grau de popularidade da Chanceler. Daí a oposição desvalorizar o acto, não indo naturalmente ao ponto de desvalorizar a mensagem…
Mas o que nos importa a nós que a visita tenha decorrido agora e não antes ou depois?
Não basta o seu significado?
Não bastam as palavras então proferidas como um renovado compromisso de quem, pela acção política, segue os movimentos da sua sociedade e pressente que erupções de xenofobia e racismo fazem recear que a História se repita?
A Chanceler foi a Dachau para recordar e honrar as vítimas, mas não só: foi também para lembrar que os demónios de então parecem, às vezes, reencarnar em grupos ou personalidades, bem identificados no presente.
A Alemanha, reunificada, lidera hoje, pela força da sua economia, uma Europa em crise.
Nos países do sul do continente, a mão de ferro alemã é ressentida negativamente de duas maneiras: pelo rigor das medidas de austeridade impostas a economias mais frágeis; e, como consequência disso, pelo grau de sofrimento de que são vítimas populações mais vulneráveis.
Na percepção prevalecente na Europa do sul, a mão de ferro da Chanceler está presente no sistema financeiro – e bancário… – que Angela Merkel simboliza. O que é simplificar o que é mais complexo…
Por mais que custe todavia aos países-alvo, o positivo que existe, nesta relação desequilibrada entre os dois pólos da Europa económica, entre o norte e o sul, é que esta última reconstruir-se-á pelas suas próprias mãos; e não pela generosidade de quem quer que seja, o que é uma excelente lição de vida para todos, novos e velhos, nas sociedades mais atingidas pela austeridade.
Mas voltemos a algum “preconceito alemão” que porventura exista:
– neste tempo de crise, os ressentimentos procuram razões obscuras no passado, o que é tão errado como gratuito.
Arrimada ao projecto europeu, a Alemanha hoje não tem rigorosamente nada a ver com uma realidade caduca, velha de mais de seis décadas.
Afastada pois qualquer referência, mesmo simbólica, entre passado e presente, fica da Chanceler Merkel a inteireza da sua mensagem do presente para o futuro.
E é pertinente porque, com a crise, vêm a tona egoísmos mais óbvios de pessoas ou de grupos; e agudizam-se sentimentos de exclusão, num contexto onde é a solidariedade que deve prevalecer.
E sejamos francos: pelo seu conteúdo, a mensagem de Dachau vai muito para além das fronteiras alemãs…
*Ex-embaixador de Portugal nas Coreias, ASEAN e Indonésia. Docente da Universidade de S. José.



