António Aresta*
António Aresta*

Raquel Soeiro de Brito, de seu nome completo, Maria Raquel Viegas Soeiro de Brito, alentejana de Elvas, onde nasceu a 12 de Dezembro de 1925, cumpre este ano jubilosamente 100 anos de vida.

Licenciada em Geografia em 1948 e doutorada em 1955, mais tarde professora catedrática na Universidade Nova de Lisboa, é uma das mais importantes figuras da Escola de Geografia de Lisboa, fundada por Orlando Ribeiro.

Raquel Soeiro de Brito [RSB] dizia, “acima de tudo sou uma geógrafa de campo. Tenho muita honra nisso e muito gosto”. Por isso, fez investigação e trabalho de campo nos Açores, na Madeira, em Portugal continental, em Cabo Verde, na Guiné, em Angola, em Moçambique, em Timor, em Macau, no Brasil e em S. Tomé e Príncipe. Tanta e tão diversificada investigação no espaço do antigo império colonial deu origem a duas preciosas publicações: Geografia e Geógrafos: episódios de uma vida de geógrafa, 2017 e Memórias Fotográficas. Uma entrevista com Raquel Soeiro de Brito [coordenação de Francisco Roque de Oliveira], 2021.

Ocupar-me-ei apenas de relance, de dois trabalhos, as Imagens de Macau, 1963 e Um Olhar Sobre Macau, 1991. Sem esquecer o filme “Macau”, rodado em 1960, com escassos 18 minutos e restaurado pela Cinemateca Portuguesa. Entre 1960 e 1991, Macau mudou imenso, como era previsível que mudasse, mas é difícil e arriscado fazer juízos de valor ou analogias sobre o passado e sobre o presente.

O livro, Imagens de Macau, de 1963, está dividido em sete capítulos breves [introdução; a cidade; as hortas; a vida marítima; Coloane; Taipa; remate] seguidos de um valioso álbum fotográfico e de diversos mapas.

RSB percebeu logo que “Macau representa um ponto de encontro do Ocidente com a China milenária. É hoje um símbolo da possibilidade de convívio diário de pessoas de credos diferentes sem, todavia, se fundirem”.

A memória da sua estadia tem pormenores muito curiosos: “Cheguei a Macau na altura das grandes festas dos 10 anos comunistas! De modo que, no mesmo dia, almocei com um nacionalista rico que tinha uma casa fantástica, lindíssima, com todas as iguarias chinesas e depois jantei em casa de um comunista também rico, não é? Esse era… como é que eu hei-de dizer? … era o manda-chuva de Macau”.

RSB tem necessidade de chamar a atenção para o simbolismo da capa do seu livro, que de outro modo passaria despercebido: “a capa desse livro é uma coisa espantosa! Vocês viram o livro, não? De estatura, o gaiatinho não tinha mais de três ou quatro anos, no máximo. Tinha já um irmão às costas. Tinha uma saca na mão com comida e a mãe tinha outro miúdo de um lado e dois nos braços! Eu estava a dar rebuçados aos miúdos e este, coitadinho, assim, assim… E eu achei, ‘mas o que é que o miúdo tem?’. Custou-me a perceber que o miúdo estava com medo de mim e com medo dos rebuçados”. Era a tradicional desconfiança e medo perante ‘os diabos estrangeiros’.

E continua a puxar pela memória, com estas incomodidades a vir ao de cima: “nunca tinha visto um rebuçado! Foi preciso a mãe pegar nos rebuçados e dizer-lhe – ‘come que é bom, come! A senhora dá! Come que é bom!. E o miúdo assim… Foi preciso a mãe meter-lhe o rebuçado na boca! Aquela criança fez-me uma impressão maluca. E, depois, a mãe disse-me – ‘Senhora, leve-me, pelo menos um destes’. Essa foi uma coisa danada. A mãe era para aí da minha idade, se fosse! Se calhar era mais nova. Tinha este gaiatinho que, teoricamente, era o mais velho, tinha o irmão às costas, dois…; a mãe tinha outro no chão, três…; e dois gémeos nos braços, cinco! O miúdo…, a cara do miúdo! Que coisa espantosa!”.

Para compreender a faina e o modo de vida dos pescadores de Macau, RSB faz algumas arriscadas viagens: “e esta aventura de ir com os pescadores comunistas, que eram os únicos que podiam andar no mar. Se não eram comunistas, mantinham a bandeira comunista para disfarçar…”.

RSB fez questão de agradecer publicamente o precioso auxílio “da senhora Choi, família Barbosa da Conceição, drª. Ana Maria Amaro, tenente Fernando Amaro, dr. José Vidigal e engº. Agrónomo Pais de Ramos, porque com eles convivi mais tempo e me ajudaram a penetrar com rapidez nos diversos ambientes de Macau”.

Já o livro, Um Olhar Sobre Macau, foi preparado como sendo um catálogo propedêutico para uma grande exposição dedicada ao Território, no Museu Nacional de Etnologia, entre Maio e Setembro de 1991.

Longos dias têm cem anos, diz o povo. Parabéns Raquel Soeiro de Brito por uma vida cheia dedicada aos estudos geográficos e por todos os ensinamentos que nos proporcionou.

 

Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau