António Aresta*

António Aresta*

O novo livro de Cecília Jorge, “Poemas para Macau, é um marco na sua já longa bibliografia de investigação dedicada ao Território, onde sobressaem títulos, como por exemplo, “Novo Ano Lunar: Festa de Cor e de Fantasia em Macau”(1984), ou “Sabe Comer com Pauzinhos?: a cozinha chinesa possível em Portugal” (1987).

Formada em germânicas, jornalista prestigiada e co-fundadora da icónica editora Livros do Oriente, Cecília Jorge em parceria com Rogério Beltrão Coelho publicou inúmeras outras obras, destacando-se “A Fénix e o Dragão : realidade e mito do casamento chinês” (1988), “Medicina Chinesa – em busca do equilíbrio perdido” (1988), “Álbum Macau – sítios, gentes e vivências”, 3 volumes (1993), “Viagem por Macau”, 4 volumes (2014) .

Numa entrevista concedida a Fernando Costa Andrade e inserta no volume “Memórias e Testemunhos”, editado pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude em 1999, Cecília Jorge afirmava que “A minha obra vai cumprindo os objectivos que me trouxeram a Macau: que é desenterrar as raízes desta terra para que não apodreçam nem se percam. A intenção era plantá-las noutro lado, mas tenho a impressão de as ter interiorizado”.

E por falar nessa crença iluminista sobre o valor das raízes, as imagens da Casa de Aureliano Guterres Jorge, no Beco do Lilau, estrategicamente arrumadas no meio do livro, vem mostrar de um modo exemplar o poder sedutor da retórica da imagem, segundo Roland Barthes, conferindo à nostalgia o poder de apagamento do sujeito saudoso, com a radicalização da passividade, “E nas gentes morre o hábito / da meditação / da comunhão”.

Todas os estudos de Cecília Jorge creditam-na como uma autora de referência no âmbito da macaulogia e da sinologia, e porque sabe do que fala, não se coíbe de dizer que “Portugal não sabe o que é Macau. Portugal não conhece os macaenses. Mantém a atitude distanciada e pouco aprofundada do curioso e não do estudioso”, o que pode ser compreendido de outra forma menos dramaticamente inquietante, “Pés de barro da lusitanidade / caravelas de vela solta / que se vão rasgando / no retorno à Pátria”.

Essencial é mesmo este pormenor subtil do movimento das pessoas com ideias, “Porta aberta para dois lados / de entrada / sem saída”, porque “Quem diz / que Macau se perde / em cada dia / que homens sem alma / a esventram ?”.

Os “Poemas para Macau” representam uma inquebrantável fidelidade a uma certa ideia de Macau, como epicentro de uma tempestade de emoções causadas pela mudança de bandeiras e que se afasta ad nauseam de uma modernidade subvertida e oprimida pela eterna luta entre eros e thanatos, cuja encenação é generalizada pela riqueza oriunda da indústria do jogo.

Nestes poemas, meditados e escritos ao longo dos anos, é possível mapear a construção da complexidade de um lugar literário que a diáspora tornará especial. Macau é uma “Ficção criada pelos portugueses / nem os próprios dela / se apercebem”, um lugar cristão e latino, uma espécie de prótese encarcerada na memória e na imaginação do grande corpo confuciano, “Na confluência de civilizações / dois mundos / partilham um patamar / harmonizados / num só”.

Entre a sensibilidade e o entendimento vemos a enigmática incisão taoista, “O nada intenso / Nada cheio de nadas / nada de um / sentimento pleno / que nos une / que vale”, sim, porque “Amanhã será mais dia ! / O que é o nada ?”. É a consciência da finitude e da contingência da “Terra maior que o mundo / terra funda onde afundam / consciência moral virtude / Almejada plenitude / existência singela / humana partilha / solidariedade / e amizade // palmilhar lento / nesta passagem / às portas da Eternidade”.

Aqui, neste lugar, nasce-se português de Macau ou tornamo-nos portugueses de Macau? A resposta a esta magna pergunta bipolar proporcionaria a construção de um caprichoso silogismo aristotélico, mas não pode ser encontrada neste livro de Cecília Jorge, que nos conduz a um outro patamar de autenticidade e de liberdade porque aspira à inteligibilidade de Macau.

A amplitude da sua meditação poética e ontológica transcende essa interrogação que não deseja confundir o conhecer com o pensar, “Quem sou? / Donde venho? De que lado / do Mundo? / E para onde vou? / Quanto sangue se misturou / até me chegar às veias confuso? / Por onde andaste tu espectro / que surges quando vagueio à sombra / das banianas e olho o Mar / tão baço?”.

A poesia de Cecília Jorge oferece-nos a visão problematizante de uma interioridade aberta a uma encruzilhada de caminhos e a uma odisseia do nosso descontentamento. Quando deixar de habitar a nossa memória, Macau será apenas um aforismo gordo de história , de responsabilidade moral e de antropologia filosófica, “Não sei quem sou / sei onde estava / não onde estou / Não sei por onde vou / por onde não vou / Desconheço o que quero / o que vou querer / Fico-me no que desejei / pelo que lutei / no que cumpri / … nem sequer desespero / pelo que não consegui”.

 

*EX-DOCENTE EM MACAU E INVESTIGADOR