Ao dar-me conta de a quantos estamos, decidi interromper a reflexão sobre os diferentes tipos de grego antigo, a propósito de potenciais problemas na narrativa original do Novo Testamento, para dedicar umas poucas linhas a alguma terminologia do tempo em que estamos a entrar na tradição ocidental. [Terei também de dedicar algumas escrivinhanças a um grupo de fãs dos meus escritos políticos que descobri existirem em Macau; não seria correcto da minha parte ignorá-los, especialmente depois dos seus esforços para elevar o meu profile e, assim, alimentar o meu entusiasmo.]

Dias Gordos e Dias Magros

Quanto se pode perder numa só vogal?!

Haverá alguém a quem a palavra carnaval seja desconhecida? Certamente não em Portugal, e muito menos no Brasil, terra de um dos dois carnavais mais celebrados e conhecidos do mundo. Mas a palavra carnaval, o que quer dizer? Será apenas o nome de uma festividade? Qual a sua origem e como é que tal festividade veio a ser baptizada com esta palavra?

Muitas palavras têm mais para dizer do que apenas aquilo que mostram à superfície, tal é o caso da palavra carnaval, que é mais do que apenas o nome de uns dias de festa que acontecem entre Fevereiro e Março. O seu significado seria muito mais fácil de se compreender se a palavra tivesse mantido em português a sua estrutura vocálica original. O português carnaval vem do italiano carnevale, que, embora se diga que derive do latim ‘carne, vale’, querendo dizer ‘carne, adeus!’, ou do sintagma latino ‘carne levāre’, ambas as propostas de derivação etimológica apresentam indubitáveis dificuldades. No caso da primeira, o vocativo da palavra latina para carne é caro e não carne; ainda que tal forma pudesse ser considerada em baixo latim, esta palavra é demasiado tardia para dele ser derivada. Por outro lado, vale que se utiliza como forma de despedida em latim –o nosso ‘adeus’– na realidade, não quer dizer ‘adeus’, mas sim ‘fica bem’, forma imperativa do verbo valēre, cujo significado mais básico é ‘ter força para se (auto)suster’ (de valēre, temos em português valer e válido). No segundo caso, carnevale não encontra cabimento morfológico, nem sequer fónico, em ‘carnem levare’, já que a forma vale não pode ser derivada de levāre, a não ser através de processos derivacionais alta e barrocamente excepcionais totalmente ad hoc e, consequentemente, propter hoc. Já para não dizer que, somente com muita água benta, a expressão ‘carnem levāre’ poderia querer dizer ‘remover a carne’. Estas duas derivações partem do princípio de que a palavra carnevale se refere à proibição de consumir carne que começa a seguir à Terça-feira de Carnaval.

A palavra para carnaval não aparece em textos latinos antigos; as primeiras ocorrências datam do séc. XII. Sendo que a sua origem medieval não é disputada, segundo o autor deste texto, seria muito mais simples derivá-la directamente do romance norte/centro-itálico do que do latim (não posso entrar aqui no problema da definição, ainda que geral, de romance itálico). O vocábulo carnevale derivaria, assim, do substantivo carne anteposto à forma verbal do indicativo vale, ou seja, ‘carne, vale’, isto é, ‘é válido comer carne’, o que, aliás, estaria em consonância com o outro nome dado à Terça-feira de Carnaval: Terça-feira Gorda. Nesta expressão, dia gordo está em contradição com a Quaresma, período magro de quarenta dias que se segue ao Carnaval; na Idade Média, quando esta expressão aparece, a carne não estava proibida somente às Sextas-feiras, como hoje, mas todos os dias até ao Domingo de Páscoa. Neste âmbito, faria sentido festejar de forma gorda o último dia em que se podia comer carne antes da Páscoa. Um bom exemplo de quão faustosas tais festividades chegaram a ser, encontramo-lo em Veneza, onde o Martedì Grasso marca o fim dos sete dias do seu famosíssimo Carnaval. Outra Terça-feira gorda internacionalmente conhecida é o Mardi Gras, aqui em francês, de New Orleans.

Entre nós, o Carnaval também é conhecido como Entrudo, palavra que deriva do latim introitu– e que quer dizer ‘entrada’. Embora a Terça-feira de Carnaval esteja oficialmente fora da Quaresma, de certa forma marca o seu início, pois é após as festividades gordas deste dia que começa o jejum quaresmal.

Mas como é que esta Terça-feira gorda se vê associada às festividades que hoje são reconhecidas com este nome? Primeiro, é necessário dizer algo sobre algumas dessas festividades. (Deixo de parte o carnaval brasileiro e as suas imitações congéneres nacionais.)

Existem manifestações folclóricas, articuladas hoje com o que nós denominamos Carnaval, como, por exemplo, os Caretos, em Trás-os-Montes, os Cigarrones e os Peliqueiros na Galiza, os Mamuthones e Issohadores na Sardenha, entre outros, que remontam ao passado pré-romano –no caso da Península Ibérica, ao seu passado celta e ibérico–, e que são vistas como tradições carnavalescas arcaicas. Embora agora associadas ao fenómeno do Carnaval, cuja data depende do calendário religioso que determina a data da Páscoa cristã, tais tradições, consideradas de alto valor etnológico, teriam sido, no seu tempo, rituais de cariz mágico-religioso que marcavam o fim do Inverno e a chegada da Primavera e cuja função seria propiciar as divindades responsáveis pelas colheitas e pela reprodução e bem-estar dos animais. Disso mesmo dão testemunho o carácter colorido destas manifestações e o facto de os seus participantes, muitas vezes, se vestirem com peles de animais e máscaras, às vezes com cornos.

Estes rituais, originalmente pagãos, foram absorvidos pela cultura cristã local e, graças ao carácter remoto das zonas onde são celebrados –Trás-os-Montes, Sardenha, etc.– conseguiram resistir, primeiro, à despaganização da Europa e, depois, à “higienização” da Contrarreforma. Muitas outras manifestações de carácter similar terão, sem dúvida, existido, mas não foram capazes de sobreviver.

O cristianismo, ou melhor, os seus agentes foram muitas vezes responsáveis pela destruição do património cultural daqueles que existiram antes de nós e de cuja herança nós fomos privados graças à sua visão obscurantista da realidade. Muito se tem dito e escrito acerca dos mármores do Partenão, que Thomas Bruce levou para Inglaterra em 1806; com ou sem autorização, isso depende de que lado do muro nos posicionemos. Mas a verdade é que, até à explosão que sofreu em 1687, durante a Guerra Moreana (1684-1699), o Partenão mantinha a sua forma original quase intacta, excepto pelo facto de que as estátuas contidas nos tímpanos dos frontões norte e sul e nas métopas do friso, peças agora em disputa, foram decapitadas, quando no séc. VI, o edifício foi convertido numa igreja bizantina dedicada à Virgem Maria. A deusa Atenas –imagine-se!– lá conseguiu manter a sua cabeça no lugar, pois podia-se fazer passar pela Virgem Maria.

A calendarização da Páscoa faz com que a Terça-feira Gorda se celebre por volta do exórdio da Primavera e, como, no passado, festejos estavam proibidos durante a Quaresma, estes rituais primaveris primitivos associaram-se aos festejos imediatamente anteriores ao início do longo jejum quaresmal. Desta forma, passaram a ser vistos como manifestações carnavalescas arcaicas, ainda que essa não tenha sido a sua função original. É, no entanto, graças a esse vínculo espúrio que algumas das tradições pré-cristãs da velha Europa conseguiram chegar até nós, mais ou menos, intactas.

 

* MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), Filólogo especialista em línguas antigas