Carlos Augusto Rocha d’Assumpção [1862-1932], filho do Barão de Assumpção, era oriundo de uma prestigiada família portuguesa de Macau. Os seus estudos foram feitos no Seminário de S. José, então uma reputada escola servida por grandes mestres. Fez o exame de admissão à Procuratura dos Negócios Sínicos, enveredando em 1879 pela exigente carreira de tradutor-intérprete.

A geração de sinólogos que chefiaram a Repartição do Expediente Sínico, Pedro Nolasco da Silva [1885-1892], Eduardo Marques [1892-1898], Carlos Rocha d’Assumpção [1898-1911], José Vicente Jorge [1911-1920], Joaquim Fausto das Chagas [1920-1931] e António Maria da Silva [1931-1945], tinham em comum uma preocupação verdadeiramente cultural e pedagógica quanto ao ensino e à difusão da língua chinesa. E quase todos publicaram manuais escolares bilingues e alguns, como Pedro Nolasco da Silva, abalançaram-se na tradução de clássicos chineses para a língua portuguesa.
Esta sinologia portuguesa de matriz coloquial, administrativa e burocrática, serviu o poder político e a diplomacia, prestando serviços inestimáveis ao país, muitas vezes rodeados de um grande secretismo, garantindo o equilíbrio nas relações bilaterais, entre Macau e a China e entre Portugal e a China. Mas os sucessivos governos nunca foram capazes de estruturar uma escola sinológica, para criar uma ideia programática e doutrinal, uma continuada produção bibliográfica ou a manutenção de um corpo de discípulos. Por isso nunca se conseguiu passar do patamar da nomeação das comissões para o estudo do ensino e da difusão da língua chinesa. E com o passar do tempo, foram largas dezenas, que se sucediam umas às outras. Parece que ainda não houve disponibilidade para se compulsar e analisar, e muito menos editar, todos os relatórios produzidos e publicados no Boletim Oficial por essas comissões…
Em virtude da sua proficiência linguística, Carlos Rocha d’Assumpção esteve em comissão de serviço no Consulado de Portugal em Cantão, em 1887.
Carlos Rocha d’Assumpção [CRA], à época 2º Intérprete de 1ª Classe e Sub-Chefe da Repartição do Expediente Sínico, apresentou “O Primeiro Livro para o Estudo da Língua Sínica – publicado a expensas do Leal Senado da Câmara de Macau para Uso dos Alunos da Escola Central”, impresso na Tipografia Comercial, em 1893, com 69 páginas. O livro é valorizado com um Parecer de Pedro Nolasco da Silva, que era o Presidente da Junta Escolar de Macau: “É sabido de todos que, em Macau, os meninos macaenses em geral falam o dialecto cantonense, mais ou menos correctamente, mas esse dialecto tem uma utilidade muito limitada, porque não é usado fora da província de Quantung, enquanto que a língua mandarina tem uma esfera muito mais ampla, pois é conhecida e falada em quase todo o império chinês. E como outrossim é indiferente para o estudo da língua chinesa escrita, que se adopte como base qualquer dos dialectos, a Junta Escolar julgou dever pôr de parte o dialecto cantonense e adoptar na Escola Central a língua mandarina. É por isso que aprova o livro do Sr. Assumpção escrito nessa língua”.
CRA explica a metodologia que seguiu no seu livro: “apresentamos-lhes neste compêndio 800 letras chinesas das mais usadas, divididas em 50 lições de 16 letras cada uma e acompanhadas da sua pronúncia e significado”. Assim, o objectivo era este: “o aluno que tiver bem estudado este compêndio terá adquirido o conhecimento de 800 letras e de 700 frases usuais, sendo 500 dos exercícios e 200 das 5 recapitulações”.
CRA agradece a supervisão científica de Hsu Hua Fang, “esclarecido letrado pekinense da Repartição do Expediente Sínico, antigo aluno de Tung Wen Kuan de Peking, que com a sua usual prontidão e nunca desmentida amizade, nos auxiliou neste nosso modesto trabalho, concorrendo principalmente para a boa escolha das frases, de cuja vernaculidade só ele podia ser bom juiz e competente apreciador”.
O jornal “Echo Macaense” [Nº 9 de 12 de Setembro de 1893], dirigido por Francisco H. Fernandes, saúda efusivamente o aparecimento deste “livro útil”, augurando-lhe uma grande serventia escolar.
E no mesmo jornal, na edição de 10 de Outubro, CRA coloca este “Anúncio de Despedida. Carlos Augusto Rocha d’Assumpção tendo de partir inesperadamente para Shangai em comissão de serviço e não podendo despedir-se pessoalmente das pessoas de suas relações, fá-lo por este meio, oferecendo os seus serviços naquela cidade”.
Em 1901 CRA estará em comissão de serviço na Embaixada de Portugal em Pekim.
Continua a trabalhar intensamente no ensino e na difusão da língua chinesa. Publica o “Formulário de Conhecimentos Úteis, Chinês-Português”, s/d. Faz parte de uma comissão pensada para organizar o ensino da língua sínica em Macau, nomeada em Outubro de 1906, pelo Governador Martinho Montenegro, e que integrava Manuel da Silva Mendes, Pedro Nolasco da Silva, José Vicente Jorge e António Gonçalves Roliz.
Em virtude dos seus serviços muito relevantes, CRA foi distinguido com várias condecorações, com a Ordem de Santiago da Espada, com a Ordem de Cristo, com a Ordem de Isabel a Católica de Espanha e com a Ordem do Duplo Dragão da China.
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau



