Jorge A. H. Rangel*
Jorge A. H. Rangel*

“Este livro responde a um desafio que me foi feito pelo Senhor Vice-Reitor da Universidade de Macau, Prof. Doutor Rui Martins, aquando de uma das visitas que fiz a essa Universidade: uma reflexão que juntasse num só livro o conjunto de observações que dessem conta de uma leitura complexa de Luís de Camões, no seguimento de duas conferências que ali pronunciara.”

Da breve nota de abertura da autora

 

Assisti ao lançamento do livro em Lisboa, numa concorrida e bonita sessão realizada no Grémio Literário, e à sua apresentação em Macau, alguns meses volvidos, no primeiro dia do Encontro da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), que decorreu entre nós de 15 a 17 do mês passado, na presença de muitos participantes e convidados, que escutaram interessadamente e aplaudiram merecidamente a autora, Prof.ª Helena Carvalhão Buescu, pela oportuna produção deste notável trabalho conjuntamente publicado pela Universidade de Macau e pela Edições tinta-da-china, Lda. Na sequência de conferências por ela proferidas nesta Universidade, foi-lhe proposto que aprofundasse e partilhasse “uma reflexão que juntasse num só livro o conjunto de observações que dessem conta de uma leitura complexa de Luís de Camões.” Este repto, conforme nos revelou a autora, “veio ao encontro da sua longa, se bem que algo descontínua, revisitação da obra camoniana, no decorrer do seu próprio percurso crítico”, quando sentiu “de imediato que queria responder-lhe, por forma a articular de modo consistente o que andava disperso, embora sempre presente, no seu próprio pensamento.”

Foi assim que surgiu, ainda sob o signo das comemorações de mais um centenário de Camões, “este ensaio sobre o desconcerto do mundo que percorreu a grande epopeia portuguesa”, sendo ele uma excelente escolha para ser a obra comemorativa do Encontro da AULP em Macau, que trouxe até nós responsáveis académicos de muitas instituições do ensino superior do espaço lusófono, para apreciarem e debaterem a cooperação universitária internacional e o papel da língua portuguesa como ponte cultural.

 

Um contributo incontornável

A obra, que se saúda como um contributo incontornável para um entendimento amplo de Camões, tem cinco capítulos: Herói e imortalidade, Epopeia e desconcerto do mundo, Múltiplas imagens de Camões, Formas de sobrevida da epopeia camoniana e Camões no Oriente. Partindo do conceito de “negative capability” (capacidade negativa), de John Keats, “propõe-se neste livro uma leitura que percorre Os Lusíadas como construção que estreitamente alia, por um lado, o canto dos feitos dos Portugueses e, por outro, o tema do desconcerto do mundo”. Este tema, “importado da lírica, torna-se o núcleo da reflexão poética no texto épico, e permite compreender como o Poeta se manifesta, ele mesmo, como herói na sua epopeia”.

O canto e o desconcerto “são, assim, formas de subjectivização d’Os Lusíadas, levando o Poeta a louvar os que são dignos de integrar o Poema, mas também a expulsar deste aqueles que o não são”, sendo este “o terreno das incertezas, dos mistérios e das dúvidas a que Keats se referia a propósito de Shakespeare”. A essa tese central “associam-se ainda as múltiplas imagens de Camões, a ‘insolação sublime’ (Eduardo Lourenço, O Labirinto de Saudade) que ele representa, até hoje, na literatura portuguesa, e a sua presença no Oriente”, sendo, para nós, particularmente relevante este último capítulo, sabendo que um dos pontos que continua a ser debatido em torno do percurso camoniano se relaciona com o seu estanciamento em Macau. A autora dá a esta questão uma resposta fundadamente positiva, sendo absolutamente recomendável a sua leitura.

 

Apontamento biográfico e uma oportuna recordação

Helena Carvalhão Buescu é professora catedrática emérita de Literatura Comparada na Universidade de Lisboa, sendo também professora ou investigadora visitante muito respeitada de várias outras prestigiadas universidades. Tem mais de uma centena de ensaios e vários livros publicados, o mais recente dos quais é “Heranças Imperfeitas” (2025). Fundou e dirigiu o Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa. É membro da Academia Europeia e membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa. Foi distinguida com vários prémios e um doutoramento honoris causa, pela Universidade de Bucareste.

Tendo sido aluno do seu saudoso pai, Victor Buescu, meu professor de Cultura Clássica, juntamente com aquela portentosa figura intelectual portuguesa de dimensão universal que foi o Padre Manuel Antunes, director da “Brotéria”, pude conversar várias vezes com ela durante o Encontro, recordando as aulas e os trabalhos daqueles distintos e inolvidáveis mestres e o meu exame final com eles, com o salão lotado, em que me deixaram perorar livremente sobre o paralelismo estrutural e conceptual da Eneida e da Ilíada e sobre as expressões poéticas épicas de Vergílio e de Homero e me atribuíram a nota mais alta.

 

As referências a John Keats

A autora explica a referência ao conceito atrás apontado do poeta inglês no contexto da epopeia camoniana: “A visão de uma beleza estética capaz de se enraizar, não na construção lógica e sistemática, mas na capacidade de se mover entre ‘incertezas, mistérios e dúvidas’, isto é, na vida de contingências potencialmente contraditórias e até em boa medida irresolúveis, caracteriza, segundo Keats, os grandes escritores como Shakespeare”. E, embora ele não se tenha referido a Camões, “parece-me que é esta mesma capacidade que caracteriza a sua obra épica (e também lírica), monumental mas não sistemática, e certamente vivendo de contradições e mesmo autocontradições”.

Segundo a autora, Os Lusíadas conjugam o aparentemente inconjugável, realçando a íntima conexão entre os temas da glória e do desconcerto do mundo. “A glória sobressai quando contrastada com o desconcerto do mundo, devido à mestria com que a capacidade negativa surge como forma apta a descrever um mundo dúctil, contraditório, capaz de uma coisa e do seu inverso, do grande e do muito pequeno, Adamastor e Veloso, ao mesmo tempo”. E é, por outro lado, a partir do entrelaçar destes temas que nasce e se impõe a figura de outro herói n’Os Lusíadas: o do Poeta Camões, ele mesmo.” “É esta a substância que emana da epopeia camoniana”, e é este o entendimento que a autora desenvolve nesta sua obra. “Camões canta os feitos dos portugueses, tal como fez Vergílio com os feitos de Eneias e os troianos”, mas “o único a poder imortalizar Vasco da Gama e os seus feitos é o Poeta”, reconhecido como o seu imortal cantor. É ele, afinal, como Vergílio ou Homero e Ovídio, “quem interage, enquanto poeta, com a narrativa de que é, em última instância, o maior narrador”.

Seja-me permitido acrescentar uma breve nota pessoal sobre Keats (Outubro de 1795 – Fevereiro de 1821), que foi objecto de dois trabalhos que apresentei sobre o poeta, um dos quais em Cambridge, que foi o prolongamento de um outro que teve a orientação de Fernando de Melo Moser, inesquecível mestre. É que John Keats não foi um qualquer poeta romântico. Apesar da sua curta existência (morreu tuberculoso, com apenas 25 anos de idade), foi um homem cultíssimo. A busca da beleza, nos sentimentos e na natureza, não ficaria completa sem uma imersão profunda nos clássicos. Traduziu a Eneida e dedicou odes a Homero e a Ovídio, sendo reconhecido como um dos maiores nomes da literatura inglesa. A sua infância atribulada, a orfandade precoce, a passagem por Enfield, onde teve o apoio do director da academia na leitura e no estudo de obras maiores da antiguidade clássica, a paixão pela literatura, a formação que teve no campo da Medicina, que lhe deu a conhecer as piores maleitas físicas, bem como as viagens que fez, proporcionaram-lhe uma extraordinária mundivisão e um entendimento muito completo sobre o desconcerto do mundo e as contradições, as incertezas, as dúvidas e os mistérios que inspiraram, estimularam e condicionaram os grandes escritores.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.