Neste ano em que se evocam os 500 anos do nascimento de Luís de Camões [1524? -1580] parece-me interessante compulsar uma mão cheia de esquecidas edições locais, tão diversas entre si, mas unidas no mesmo amor platónico ao épico. E começou a perceber-se a vantagem de se promoverem traduções para a língua chinesa de algumas poesias de Camões, para além da sua biografia. Todos estes espécimes sumariamente descritos são apreciadas raridades muito cobiçadas pelos bibliófilos.
Logo em 1936 aparece o título, Luís de Camões, editado pela Propaganda Cultural/Imprensa Nacional de Macau, com 53 páginas, [“edição gratuita, oferecida aos alunos das Escolas de Macau, em 10 de Junho de 1936, 365º aniversário da morte do grande épico”] A tiragem foi de 2000 exemplares, com traduções em francês (Victor Hugo), em inglês (W.J. Mickle, Robert Southey, Edgard Prestage, Lord Strangford, Aubrey Bell e John Adamson) e em chinês (sem menção do nome do tradutor).
O gabinete do governador António Bernardes de Miranda divulga, no dia 5 de Junho de 1936, o Programa da comemoração do Dia de Camões: “Às 18 horas do dia 10 de Junho prestar-se-á homenagem no Jardim de Camões ao imortal Poeta, glória da nacionalidade, devendo comparecer os alunos das Escolas portuguesas e chinesas com os respectivos professores e um pelotão de cada uma das unidades militares aquarteladas nesta colónia, bem como contingentes das corporações militarizadas. Usarão da palavra os exmos. Snrs. Dr. José Ferreira de Castro e Ho-Sha”.
Em 1999 a Direcção dos Serviços de Educação e Juventude promoveu uma cuidada segunda edição fac-similada deste título, sob a égide de Rui de Carvalho.
Em 1937 surge o livro Sumário dos Luzíadas, com 72 páginas, bilingue, português-chinês, que é “ampliação do discurso proferido no dia 10 de Junho de 1937, no Jardim da Gruta de Camões em Macau”, por António Maria da Silva, Chefe da Repartição Técnica do Expediente Sínico. É a biografia do poeta, encaixada no contexto histórico. A sugestão partiu do governador Artur Tamagnini Barbosa, para que se “publicasse em chinês, dando assim a conhecer aos habitantes desta grande porção do continente asiático o conteúdo da nossa admirável epopeia”. A versão chinesa foi coordenada por “Chu-Pui-Chi, distinto letrado da Repartição Técnica do Expediente Sínico e profundo conhecedor da língua de Confúcio”. A impressão do livro seguiu o modelo chinês de encadernação.
Em 1939, há um inusitado sinal de vanguarda estética e literária, Camões: Retrato de Malhoa. Biografia da Presença, edição do Conselho Inspector de Instrução Pública de Macau, um folheto com 4 páginas, apenas na língua portuguesa. Falta saber se o promotor da ideia desta edição veio de Coimbra e se pertencia ao círculo de amizades e afinidades do grupo da Presença. Este folheto foi reeditado em fac-símile, em 1999, pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude.
Em Hong Kong, foi apresentado Camoens [compiled by J.M. Braga for the Portuguese Institute of Hong Kong on the occasion of the showing of the portuguese film Camoens at the King’s Theatre, Hong Kong], publicado pela St. Louis Industrial School, Hong Kong, em 1949, com 12 páginas.
A edição mais conhecida e difundida é esta, Os Lusíadas contados às Crianças e Lembrados ao Povo, de João de Barros. A tradução para a língua chinesa foi feita por Luís Gonzaga Gomes e Tcheong Iec Tchi, Macau, 1953, 45 páginas. A segunda edição é de 1972, integrada no IV Centenário e substancialmente maior, com 181 páginas.
Graciete Batalha, uma destacada professora do Liceu de Macau e investigadora com uma obra muito relevante, organizou uma edição especial para as comemorações do IV Centenário, Os Lusíadas de Luís de Camões. Reprodução fac-similada de algumas páginas da 1ª edição de 1572, publicada na Imprensa Nacional de Macau, em 1972, com 40 páginas.
No mesmo ano, em 1972, Edgar C. Knowlton publica no Boletim do Instituto Luís de Camões, Camões – poem translated from portuguese with introduction and notes, [Vol. VI, Separata, pp. 7-122].
As inevitáveis polémicas estão omnipresentes. Em Hong Kong é editado, pela comunidade portuguesa na Typographia De Souza, em 1880, a Memória dos Festejos Celebrados em Hongkong por Ocasião do Tricentenário do Príncipe dos Poetas Portugueses Luís de Camões, com 106 páginas. Algum tempo depois, António Joaquim Basto, publica com estrondo, também em 1880, na Typographia Mercantil, em Macau, A Inépcia em Acção ou uma página para a história dos festejos promovidos em Hong Kong pela Comissão do Tricentenário de Camões, um livrinho com 42 páginas. Para além das vaidades irritadas e irritantes, para utilizar um título do grande Camilo Castelo Branco, tudo isto foi mais um pretexto para se falar de Luís de Camões, da sua vida e da sua obra.
Mas há muito mais edições esquecidas e estudos diversos atomizados pela comunicação social portuguesa e inglesa, de Macau, de Hong Kong e de Xangai.
Vale a pena olhar, por exemplo, para o jornal “China Mail”, de Hong Kong, Nº 5279, na edição de 11 de Junho de 1880, para ver o enorme destaque, a três colunas, concedido aos festejos do Tricentenário de Camões na colónia britânica. No Clube Lusitano, com a presença da nata da comunidade, incluindo o governador Sir John Pope Hennessy, prestou-se uma grande homenagem a Camões, com um banquete, música, canções e outras actividades, tendo José Maria de Oliveira e Lima declamado o seu original poema, “Macao Esposa de Camoens”, que o jornal transcreve na íntegra.
Quando todos estes trabalhos estiverem devidamente rastreados e sinalizados, a floresta de estudos camonianos aumentará o seu perímetro.
*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas.



