Júlia Serra*
Júlia Serra*

Nesta obra interartística, a vida de Camilo Castelo Branco é interpretada por um grupo de mulheres que estão privadas de liberdade, no Estabelecimento Prisional de Santa Cruz do Bispo Feminino (EPSCB-F). Trata-se de um Projeto integrado nos duzentos anos comemorativos do nascimento do escritor Camilo Castelo Branco, a que a CCDR NORTE I.P. se quis associar. Este livro que conjuga texto e imagem a preto e branco resulta do envolvimento de vários artistas – sobretudo Regina Guimarães (escritora) e Tânia Furtado Moreira (curadora) – trabalharam afincadamente entre os meses de abril e julho de 2025, com intuito de re-visitar Camilo em Memórias do Cárcere, assumindo mais as relações adentro das grades, do que o a imagem externa do edifício. É um livro com prefácios, testemunhos, diário de bordo, retratos por todos os olhos e posfácio.

Considerado Camilo Castelo Branco um escritor do Norte, o Presidente da CCDR-N, após breve contextualização cultural referiu: “Também a sua inquietude o trouxe por imputação de crime de adultério, à Cadeia da Relação do Porto, onde esteve preso longos dias, que lhe deram glória nas Letras, um misto de maturidade literária e de fama pública, bem concertada com o seu papel inédito de escritor profissional” (p.11).

A Diretora do EPSCB-F, depois de agradecer o honroso convite formulado pelo Sr. Vice-Presidente da CCDR Norte, Dr. Jorge Sobrado, para este estabelecimento prisional se associar às Comemorações do Bicentenário do Nascimento de Camilo Castelo Branco, acrescentou: “O convite à reflexão, ao pensamento e ao autoconhecimento, apoiado nas Memórias do Cárcere, vem demonstrar que a expressão artística, a pluralidade e o acesso à cultura se constituem como elementos basilares de participação e de dignificação da pessoa, e, porventura do seu projeto de liberdade, independentemente da sua narrativa ou da situação de reclusão que vivencia” (p.13). I

Jorge Sobrado, Vereador da Cultura do Município do Porto (Ex Vice-Presidente da CCDR-N), após alusão à obra literária de Camilo e à sua posição de presidiário realçou que o escritor deu voz às injustiças intramuros e à própria Justiça que ficou imortalizada na frase “ISTO PRECISA SER COMPLETAMENTE ARRASADO” – lembrando o Grito de Munch – e terminou a sua intervenção com o seguinte parágrafo: “Fiel a si próprio, muito embora cindido e tantas vezes contraditório. Camilo Castelo Branco criou um tecido memorial de que persistimos ainda hoje como herdeiros, ensinando-nos o imenso fôlego de uma Literatura que é Liberdade em carne viva, verdadeiramente livre. Lê-lo é, por sinal, praticar um tributo a essa deusa secular, de trono incerto” (p.15).

Houve uma estratégia delineada para o desenvolvimento da obra, baseada em determinados capítulos (XXXII, V e I) e, após a leitura refletida por cada participante, seguia-se o debate e recomposição das passagens, com recurso a processos e procedimentos artísticos que foram trabalhados em doze sessões. Camilo era, assim, um ser vivente em cada uma das suas comparsas, apenas separadas no tempo, e em espera que o tempo da clepsidra se esgote para alcançar a liberdade. Cada uma era tratada pelo nome, real ou fictício, pois os números foram apagados, perante a evidência remanescente de um novo ser a desenvolver a hipótese de um novo futuro.

Tal como Camilo abordara na sua obra os horrores do ambiente e a injustiça da justiça que atormentou o Senhor D. Pedro V: “D. Pedro V foi o primeiro príncipe que se afrontou com a face mais cancerosa e repulsiva da humanidade” (p.435), hoje, o ambiente contém também cadeias de amizade e conflitualidade entre as reclusas no EPSCB-F, num total de 324, de várias nacionalidades e mundividências diferentes. O escritor via nos seus companheiros criminosos e transgressores, mas implicitamente julgava esses males pela ineficácia social e pelas disrupções dilemáticas geradas entre os reclusos: ele criava heróis e mitos, fundados nas injustiças que a Justiça não resolvia – caso do lendário José do Telhado – pretendendo denunciar que a prisão não era uma cura para um sofrimento invisível que cada um carregava.

Cada mulher deste grupo tinha cometido um crime que Camilo Castelo Branco na sua “cadeia” já tinha deslindado – ou por um suicídio, ou por assalto, ou por vingança, ou prostituição – e sentiu que, pela escrita deveria provocar uma interrogação no sistema judicial e no Outro. Cada face, mais ou menos envergonhada e com os corações dilacerados, reflete memórias entranhadas em cada ser, como demonstram os retratos, através do luto do olhar e da recusa em querer mostrar a cara. Por quê ser as mãos a parte do corpo mais visível a carregar e a definir o fardo?

Numa perspetiva semiótica, as mãos apresentadas em várias posições significam proteção, criação, mas também as linhas do destino e o carácter da pessoa. Quantas mães devem estar arrependidas e privadas dos seus filhos, quantas mulheres vítimas cumprem pena por se terem libertado de violência? As interrogações transversais tocam o leitor ao ver/pensar o olhar de quem não quer mostrar os olhos, de quem exibe apenas um olho ou de quem tem os olhos magoados de medo?

O livro é rico porque apresenta perfis, representa os retalhos e, finalmente, revela o rosto de frente, o retrato que é um palimpsesto de cada uma. Ali, está concentrado tudo que o artista pode captar. A descoberta fica a cargo do leitor… enquanto cada uma tenta fazer a sua autognose e descobrir uma identidade.

Felizmente que Camilo Castelo Branco, ao ser homenageado, abriu uma janela para entrar uma réstia de sol para cada uma antever um futuro, em Liberdade. Agora, é tempo de catarse, de sonhar os sonhos não vividos e de pensar que a Vida pode abrir novos caminhos … nunca perdendo “o voo do pássaro” para não ficar desasado!

“Estas Memórias do Cárcere, sendo de Camilo, são também dos seus companheiros na Cadeia da Relação do Porto, porque o grande escritor romântico, absorto no seu sofrimento, não ignorava o sofrimento dos outros, e dele deu testemunho em muitas páginas patéticas. […] Caso singular, o de Camilo, que, do mesmo passo que chora, ri, como se vê nesse notável e movimentado «Discurso Preliminar». […] Antes de contar a triste história dos seus companheiros de cadeia, narra com extraordinária vivacidade a sua odisseia, fugindo aos que iam no seu encalço para o entregarem à justiça, a mesma justiça a que ele decide enfim entregar-se, pondo termo à tentação de expatriar-se ou de suicidar-se. […] Para lá do que nelas haja de epocal, de circunstancial e de subjectivo, as Memórias do Cárcere têm uma validade universal e intemporal.” II

Bigotte Chorão

 

E fiquemos com as palavras de José Igreja Matos, no Posfácio, TUDO RECOMEÇA

E a poesia de Ruy Belo:

Uns passos mais.

Saio.”

 

NOTAS:

I. As citações paginadas in Camilo Castelo Branco, Memórias do Cárcere, Parceria A. M. Pereira, outubro 2001

II. Camilo Castelo Branco, memórias do Cárcere, posfácio de Bigotte Chorão, Porto Editora, Coleção Sudoeste, 01-2025.

 

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau. Este texto foi, originalmente, publicado no Jornal de Santo Thyrso em 30-03-2026