Carlos Frota*
Carlos Frota*

De Macau fui para outros destinos, mas Macau ficou-me no coração. Saí com a noção de ter tido um romance incompleto com esta cidade, com a sua gente, com os mistérios desta cultura que nunca pude nem posso penetrar.

Nos anos de ausência – quase dez, ao todo – imaginei-me a passear pelas ruas estreitas da cidade mais antiga, a deambular nos tim-tins e a parar de súbito numa montra, de olhos transfixos na porcelana de que caíra enamorado nesse preciso instante… e que era preciso levar comigo.

Connosco, porque essas deambulações eram sempre feitas a dois, sendo minha mulher a negociadora hábil que tinha tanto prazer em discutir o preço final da raridade como o vendedor em defender o seu mínimo dos mínimos!

 

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Quando, em princípios de 2011, visitei Macau, após uma ausência de mais de oito anos, a cidade mudara. Terminara a minha missão de Cônsul-Geral antes do período de liberalização da indústria do jogo (final de 2012), simbolizado pelo estreito corredor unindo a Taipa a Coloane. E vim encontrar o COTAI já com a sua estrutura actual, quer dizer, a “cidade dos casinos” já erguida, a unir aquelas duas ilhas.

A região mudara de facto, fisicamente, mas também humanamente, pela maior incidência do turismo na vida do dia a dia. E o COTAI, insisto, lá estava a atestar a nova prosperidade da RAEM.

A cidade pacata enchera-se de gente, o antigo Largo do Senado e as Ruínas de S. Paulo passaram a constituir pontos permanentes de visita de centenas e centenas de visitantes a qualquer hora do dia – e o comércio local ganhava naturalmente com isso.

Mas também a própria composição da comunidade portuguesa se alterara. Não encontrei apenas os velhos residentes, meus companheiros da viagem da “transferência” nos três anos imediatamente anteriores e imediatamente posteriores ao simbólico 19 de Dezembro de 1999. Gente nova chegara, na maior parte jovens, jovens solteiros e jovens casais, impelidos a procurar um futuro fora de Portugal e mesmo fora da Europa, a braços com a profunda crise económica de má memória.

E Macau era aliciante por múltiplas razões, desde a familiaridade de uma terra que Portugal administrou quatro séculos e meio, até à rápida evolução da China que progredia a passos de gigante.

 

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Lá muito longe ficara portanto a Macau dos chás-gordos e das conversas preguiçosas, nas varandas coloniais. Com os passeios ao domingo depois da missa, na Rua Central, como contava o meu saudoso amigo Henrique no seu romance magistral.

Das meninas embonecadas e dos cavalheiros encasacados a rigor, depois de uma surtida às lojas de Hong Kong, quem sabe?

E dos riquexós que passavam, lentos, a quebrar ligeiramente a modorra dos dias. E como de fundo a misteriosa cidade chinesa, das sopas de fita e dos anciãos passeando os seus pássaros, em gaiolas de verga, nos jardins da cidade… depois de praticarem de manhãzinha o seu quase sagrado tai-chi.

Mas muita dessa Macau (quero dizer, a Macau “macaense”) não a encontrei já quando cheguei, se não na memória dos mais velhos e nos saborosíssimos romances de Henrique de Senna Fernandes. Ou no olhar europeu da escrita de Rodrigo Leal de Carvalho. As sucessivas saídas de famílias macaenses para Portugal, mas principalmente para o Canadá e a Austrália, reduziram e em muito, na sua expressão numérica, a comunidade dos filhos da terra.

De certo modo, o Clube Militar, renovado, era o bastião a desafiar os novos tempos, ligando passado e presente, com a sua fingida eternidade. E ao lado o Jardim de São Francisco. E lá longe o Tap Seac. E do outro lado, na Avenida da Praia Grande, o Palácio do Governo, centro da vida administrativa do Território até final da Administração Portuguesa e desde então reduzido a funções puramente protocolares.

Não falando já de Santa Sancha, escondida no seu pudor arbóreo e portanto vedada, como anteriormente, à curiosidade dos estranhos.

Raramente, em todos estes anos, passei a pé, em frente ao Palácio, mas com o meu pendor literário, de tidas essas vezes imaginei tempos de maior movimento, no que foi o centro nevrálgico da governação, noutros tempos.

Símbolo da nova era, lá estava o velho/novo Bela Vista, princípio e fim da mais interessante das aventuras do meu percurso profissional e humano.

Mas, mais importante ainda, muitas vezes tenho ido, por razões práticas, ao velho Hospital de São Rafael, a chancelaria consular, cujos doentes e defuntos são há muito e tão só os documentos eventualmente desencaminhados e os arquivos mortos atinentes ao registo civil dos nacionais portugueses…

 

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Não sendo atreito a frequentes ataques de nostalgia “dos bons velhos tempos” – a saída forçada da minha terra natal, com a descolonização, e as muitas voltas pelo mundo, curaram-me de tal maleita – aceitei o novo contexto de Macau, com toda a naturalidade. E foi com pleno conhecimento da nova fisionomia urbana (e humana!) que encetei os primeiros contactos – que se viriam a concretizar numa proposta de futuro trabalho docente, na Universidade de S. José. Fiquei entusiasmado!

E foi assim, em estado de permanente entusiasmo, perante a perspectiva de regressar a Macau, que decorreu o meu último ano, como embaixador de Portugal em Jacarta.

Tendo tido experiência lectiva universitária na África francófona, antes do ingresso na carreira diplomática, e em Portugal, imediatamente antes de vir para Macau em 1995-1996, o meu baptismo como docente na USJ, ainda nos edifícios do NAPE, foi mais uma confirmação do que verdadeiramente um baptismo. Sendo nova a experiência, não era inteiramente nova, na realidade.

As áreas que me sentia habilitado a leccionar eram as que decorriam da minha formação contínua de quase três décadas e meia como diplomata, não só pela bagagem livresca que isso implicou, mas pelas múltiplas situações da vida internacional em que participei ou observei de perto. Para além de ter sempre na mente o fio condutor dos acontecimentos que iam dando forma à minha/nossa época, caracterizada principalmente pelas rupturas e pelas mudanças.

E perante rupturas e mudanças líderes políticos experimentados nas lides do poder, assim como académicos com vasta bibliografia, a atestar a sua fecundidade intelectual, parecem tão inseguros na análise, como um recém licenciado em Ciência Política e ou em Relações Internacionais!

Ter que predizer o futuro, e mesmo tentar explicar tão só o presente, são desafios muitas vezes insuperáveis!

Mas não seria exacto se não desse aqui nota da novidade da minha experiência docente, num ponto preciso: o perfil social e cultural dos meus novos alunos. Pois não se tratava de dar aulas a alunos portugueses, nem lusófonos, mas na sua maioria a estudantes chineses de Macau e, ainda por cima, não em cantonense, em inglês, a língua de trabalho da Universidade!

Ora o que eu teria pela frente era o duplo, o triplo desafio de dar as aulas numa língua que não era a minha, nem a deles, mas num terceiro idioma que, generalizado que seja como língua franca, os jovens não dominavam necessariamente bem.

Mas naturalmente que o ensino numa língua estrangeira esconde sempre uma dificuldade adicional: da decifração do código cultural de que cada idioma é a chave.

E a aventura continua, Amigos, até para a semana !

 

* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau e antigo Embaixador na Coreia do Sul e Indonésia.