Carlos Frota *

Carlos Frota *

Uma das mais interessantes tarefas, em cada início de dia de trabalho, era a leitura das informações diárias sobre os países das vastíssimas regiões que tinha “a meu cargo” -a África e a Ásia, partilhando-as naturalmente com mais três ou quatro colegas, distribuídos em duas salas numa das alas do velho Palácio das Necessidades.

Quanto a África, vivíamos em 1979 um período ainda muito recente das independências no espaço que se viria a organizar depois em CPLP, pelo que se tratava antes de mais e naturalmente, de consolidar relações de normalidade entre Estados. E quanto à Ásia, ir observando os principais sinais de mudança, ainda praticamente imperceptíveis aliás. Para todos os ocidentais uma região distante envolta em mistério, para nós portugueses a Ásia era um espaço com profundas ressonâncias históricas, ligadas aos Descobrimentos e à presença de comunidades de origem portuguesa nos mais diversos países. Malaca era só um dos exemplos, entre muitos, para além dos casos especialíssimos de Macau e Timor.

Retrospectivamente, vejo hoje quanto foi curto o tempo de euforia revolucionária em Portugal, depois do 25 de Abril – aquele em que se queria fazer tábua rasa da memória histórica do povo em que nos foi moldando uma presença multissecular fora da Europa.

Saídos do período mais conturbado da revolução e da descolonização, foi no reavivar da nossa dimensão histórica que reencontrámos inspiração e energia vital para prosseguir, de outra maneira embora, o percurso de uma velha Nação, com origem na Europa é certo, mas que esteve fora dela por cinco séculos, forjando laços perenes.

Sei do que falo, se me é permitida alguma veemência, pois de repente assaltam-me a memória rostos de vários sítios nesta imensa Ásia, de pessoas vindo ter comigo, de sorriso aberto, reclamando uma identidade com fortes e sentidas raízes portuguesas e, como prova tangível, os apelidos (Silva, Fernandes, Lopes…) que não enganam.

Mesmo a nível do discurso político, cedo descobrimos que a opção europeia não esgotava o nosso relacionamento internacional porque quer os laços da lusofonia, por um lado, quer o relacionamento com a Ásia e a América Latina por outro, nos “obrigavam” a uma extroversão muito para além do Velho Continente.

Aliás, qualquer preconceito ideológico sobre um Portugal orgulhosamente só (de outra maneira) sairia derrotado, em confronto com a realidade de cinco milhões de portugueses e luso-descendentes espalhados pelos cinco continentes.

Como cônsul duas vezes em França, na década de 90, tive o gosto de conhecer de perto, no quadro da comunidade portuguesa ali estabelecida, autênticos heróis anónimos do quotidiano, gente abnegada e de profunda ligação ao seu país.

No contexto internacional mais geral, desse meu início de carreira, a China, em 1979-80, dava os primeiros passos de abertura ao mundo exterior. Para nós, a situação futura de Macau só se colocaria anos depois, mas quanto a Timor vivia-se os primeiros anos da ocupação indonésia.

Mal sabia eu que, trinta anos depois, visitaria Timor Leste independente, enquanto embaixador na nação fundada por Sukarno. Num tempo aliás em que relações de grande cordialidade e cooperação prevaleciam entre Jacarta e Díli. E em que eram (como são) os indonésios os melhores advogados da causa de integração de Timor Leste na ASEAN.

E a ironia chegou ao ponto de, em 2009, ter apresentado as minhas cartas credenciais ao Presidente Susilo Yudoyono num naipe de quatro embaixadores que incluía, além dos meus colegas marroquino e croata, o embaixador de Timor Leste!

A minha primeira viagem de trabalho, fazendo parte da delegação oficial do Ministro do Comércio e Turismo, seria a Aman – Jordânia, tendo-me ficado impressas para sempre as cores e odores de espaços exóticos e de gente cordial que nos recebeu sempre acentuando as afinidades entre povos e culturas.

Mas antes, numa escala que implicou a pernoita na capital francesa, fui revisitar Paris, onde tinha estado pela última vez havia  três ou quatro anos. Com uma inevitável, mais do que desejada    escapadela às livrarias, para ver as últimas novidades nos escaparates do Boulevard Saint Michel.

Numa cidade desconhecida, como era para nós a capital da Jordânia, o reino hashemita governado pelo Rei Hussein (a gerir a situação dos palestinos subsequente às guerras de 1967 e 1973) –   a maior aventura foi localizar o cônsul honorário de Portugal que lá nos foi ver ao Hotel, depois de muitos e desesperados telefonemas. Um abastado homem de negócios, o cônsul revelar-se-ia um cicerone utilíssimo eficaz, embora o enquadramento oficial fosse muito simpático.

O ministro português assinou com o seu homólogo jordano um acordo na área da promoção turística e fomos recebidos em casa do  ministro anfitrião de modo muito hospitaleiro, para o que constituiria a primeira de centenas de recepções em embaixadas estrangeiras no decurso de mais de três décadas.

A referência a esta parte social da vida do diplomata só tem aqui sentido por revelar uma das importantes dimensões da profissão; a capacidade de transformar relações oficiais em relações pessoais e de amizade, lubrificante quase sempre eficaz para as asperezas do relacionamento frio e impessoal entre Estados e suas burocracias.

Duas datas marcantes me ficaram na memória, desse meu período inicial no Ministério. A 9 de Setembro de 1979 morre Agostinho Neto em Moscovo. E em 4 de Dezembro de 1980 desaparecem Sá Carneiro e Amaro da Costa no desastre de Camarate.

Além dos rumores postos então a circular, sobre as circunstâncias da morte do Presidente angolano, com versões em conflito que ninguém podia testar, lembro-me de pensar que na História de Angola se encerrava um primeiro capítulo, importante porque intimamente ligado à independência do país, qualquer que fosse o juízo que dele fosse feito no futuro – e preservada a necessária distância – pelos historiadores.

Quanto à morte do primeiro-ministro português e do ministro da Defesa (eu conhecia pessoalmente o Adelino, por quem nutria a maior admiração) tenho pensado no decurso dos anos o quanto o país perdeu com o desaparecimento físico de duas personalidades de grande estatura na vida política, atenta sobretudo à falta que ambos fizeram, dada a imaturidade do sistema político de que ambos foram co-fundadores, além de outros naturalmente.

Na minha segunda deslocação em serviço ao estrangeiro, nesse período inicial de formação, com a categoria de Adido de Embaixada (uma mera designação interna que não supõe estar-se em posto no estrangeiro), integrei uma delegação oficial ao Iraque, aos domínios de Saddam Hussein que tinha subido ao poder há pouco tempo.

 

* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau e antigo Embaixador na Coreia do Sul e Indonésia.