“Além de pedidos de desculpas, apenas em 1950 as autoridades americanas pagaram pouco mais de 20 milhões de dólares a Portugal como compensação pelos danos causados pelos seus aviões em Macau”
Um estimulante artigo, recentemente publicado na Revista de Marinha, veio de novo suscitar a questão dos ataques aéreos americanos a Macau nos primeiros meses de 1945, corroborando a tese do engano e procurando explicar as circunstâncias e os possíveis erros dos serviços de intelligence e os verificados na transmissão de ordens na cadeia de comando. Um dos seus autores é o Comandante John P. Cann, da Marine Corps University (Quantico, Virginia, E.U.A.), reconhecido especialista na chamada “guerra assimétrica”, com muito relevante obra publicada, incluindo vários trabalhos sobre as Forças Armadas Portuguesas na Guerra do Ultramar (1961-1974). Guardo nas minhas estantes alguns dos livros, com amáveis dedicatórias do autor, o último dos quais sobre os Comandos em África, cujo título original, em inglês, é “Portuguese Commandos – Feared Insurgence Hunters, 1961-1974”. A versão portuguesa, de Fevereiro de 2019, é uma edição da Tribuna da História.
Nesse artigo, intitulado “Alvo para hoje: Macau!”, assinado conjuntamente com o investigador português José Correia, da Comissão Histórico-Militar da Força Aérea Portuguesa, além de se fazer um enquadramento adequado da situação de Macau nos últimos meses da Guerra do Pacífico, são sucintamente relatados os sucessivos ataques ocorridos a partir de Janeiro de 1945, quando já se esperava para breve a rendição do Japão.
Missão especial no Mar da China
Em Janeiro de 1945 foi constituída, no âmbito da 3.a Esquadra Americana, comandada pelo Almirante William F. Halsey, a Task Force 38 (TF38), com a missão especial de destruir forças navais e aéreas japonesas em diversas zonas meridionais do Mar da China. Não tendo sido identificados, de imediato, alvos significativos, o comandante da TF38, Vice-Almirante John S. McCain “pediu autorização a Halsey para atacar alvos alternativos, na que foi denominada de blanket mission, o que foi autorizado”. Assim, “os aviões da TF38 começaram a afundar navios mercantes japoneses e as suas escoltas ao longo da costa da Indochina e a atacar portos em Hainan, Amoy, Formosa, Ilhas dos Pescadores, Cantão e Hong Kong”. E, “a 16 de Janeiro, pilotos do porta-aviões USS Hancock, deslocando-se através do delta do Rio das Pérolas, atacaram repetidamente Macau”.
A TF38 compreendia quatro grupos de ataque, tendo o que era comandado pelo Vice-Almirante Gerald F. Bogan sido incumbido de observar os aeroportos e bases de hidroaviões no delta do Rio das Pérolas. Com este propósito, Bogan propôs a McCain que mesmo sendo Macau pertença de Portugal, país neutral, fossem inspeccionadas “as águas da península e áreas adjacentes em busca de aviões e hidroaviões…” Obtida a concordância de McCain, Bogan mandou dar estas instruções aos pilotos: “…não devem atacar Macau ou quaisquer navios que estejam a menos de duas milhas da costa, a não ser que a aviação japonesa ou navios japoneses estejam em Macau ou nessas águas; nesse caso os ataques limitar-se-ão a esses aviões e navios…”
Todavia, a mensagem não terá sido correctamente entendida e transmitida com clareza no briefing que antecedeu a missão, embora se saiba que o oficial responsável terá lembrado “que Macau era pertença de Portugal, país neutro”, tendo o mesmo sido confirmado por outro oficial mais antigo. Esses oficiais pouco sabiam de Macau e um boletim dos serviços de informação da US Navy afirmara erradamente que o Centro de Aviação Naval de Macau (então já desactivado) era usado pela aviação japonesa, o que podia pôr em causa o seu estatuto de neutralidade. Além disso, prevalecia o entendimento de que uma blanket mission implicava uma “varridela geral da aviação inimiga onde quer que ela fosse encontrada”, o que significava “a destruição de quaisquer instalações que pudessem servir ou esconder aviões, incluindo hangares, pistas e quaisquer outras estruturas de apoio aos aviões”. Acreditavam mesmo que “a única forma de garantir a total eliminação da ameaça era destruindo todas as estruturas relevantes, mesmo que não vissem quaisquer aviões”.
Os “raids”
A visibilidade era má quando foram constituídos dois grupos de ataque a Macau, comandados pelos Tenentes George Kemper e Lloyd Newcomer. O primeiro aproximou-se por volta das 09h00, “identificou o proeminente hangar ao sobrevoar Macau” e, mesmo sem ver aviões, “bombardeou o hangar e em seguida dirigiu-se a Sanchau, o alvo seguinte”. O grupo de Newcomer chegou às 09h20, “depois do seu ‘raid’ sobre Sanchau e Chungshan, e também bombardeou o hangar, deixando-o em chamas” e vendo “fumo negro a sair, sinal de que havia aviões e combustível a arder”. Só que esses aviões eram portugueses e encontravam-se já desmantelados e arrumados no interior do hangar, que albergava também alguns milhares de litros de combustível. Entretanto, o grupo de Kemper “voltou a sobrevoar Macau às 09h30 e viu o hangar destruído”. Regressados em formação única ao USS Hancock, registaram no seu relatório de missão “que não tinham sido avistados aviões em Macau e que o hangar havia sido atacado”.
Como os serviços de informação não corrigiram o seu erro, Macau voltaria a ser alvo de ataques, no dia 25 de Fevereiro, quando o navio mercante panamiano SS. Masbate foi bombardeado no Porto Interior por um PB4Y-I Liberator, “causando grande número de baixas no navio e em terra, por engano, devido às más condições atmosféricas”, e de novo a 7 de Abril, quando um Lockheed PV1 Ventura afundou o rebocador chinês Fei Cheong ao largo de Macau, matando 19 tripulantes, todos chineses. Os americanos, que também bombardearam a Ilha Verde, alegaram que o rebocador “estava no mar e não ostentava a bandeira portuguesa”.
Os autores do artigo garantem que os protagonistas desses dois ataques, pilotando aviões provenientes de bases nas Filipinas, “tinham tido um briefing sobre o estatuto neutral de Portugal e de Macau e, mesmo assim, tal não servira para proteger os seus portos interior e exterior”. É que – foi esta a explicação – “a falta de informações rigorosas sobre Macau, a confusão quanto ao seu estatuto de neutralidade e o que isso implicava, e os mal-entendidos sobre a interpretação de uma blanket mission, contribuíram para os ataques indevidos no dia 16 de Janeiro. Quanto aos ataques subsequentes, “se os briefings às tripulações dos bombardeiros estacionados nas Filipinas tivessem sido mais claros e detalhados, teriam sido certamente evitados esses ataques”.
Há registos de, pelo menos, mais dois ataques (que os autores do artigo não referem), a 11 de Julho, quando um B-29 lançou 3 bombas sobre o Bairro 28 de Maio, além de metralhar vários locais da cidade, e a 26 de Julho, quando 4 bombas foram largadas sobre Coloane. A 6 e 8 de Agosto, o mundo seria surpreendido pelo lançamento das primeiras bombas atómicas, sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, obrigando o Império do Sol Nascente a uma rápida e incondicional rendição pouco depois. Além de pedidos de desculpas, apenas em 1950 as autoridades americanas pagaram pouco mais de 20 milhões de dólares a Portugal como compensação pelos danos causados pelos seus aviões em Macau.
Graças às suas pesquisas e ao acesso que teve a fontes americanas, foi oportuno e positivo o comandante John P. Cann ter facultado estas achegas para uma melhor compreensão de uma questão que nunca havia sido considerada completamente esclarecida, no que contou com a boa colaboração de um qualificado investigador português. Com fundamento nas explicações dadas, tornou-se mais defensável a tese do engano, mas esse lamentável engano foi tão reiterado que jamais se poderá excluir uma outra conclusão, que é a de que terá sido apenas um engano conveniente…
* Presidente do Instituto Internacional de Macau.
Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



