ROBERTO CEOLIN*

Há uns meses, a rádio oficiosa do PSD, oficialmente conhecida como a Rádio Observador, publicou um podcast acerca das eleições presidenciais de 1986, que elegeram Mário Soares Presidente da República, e que ajudam um pouco a perceber como é que um dos mais odiados primeiros ministros de Portugal conseguiu fazer-se eleger presidente. Dentro do nosso exército nacional de comentadores políticos, muitos tentaram fazer uma comparação entre as eleições de então e as de agora.

Em 1986, Soares só consegue chegar à segunda volta graças ao facto de que Pintassilgo, a segunda mulher a ocupar o cargo de primeiro-ministro na Europa, batida nessa corrida por Margaret Thatcher por apenas quatro meses, resistiu às pressões para desistir. Se tivesse desistido, os seus votos teriam acabado nas mãos de Zenha, candidato ideologicamente mais próximo da comunista-católica, e seria este a passar à segunda volta. O deixá-la em paz foi, aliás, a dica mais preciosa do plano que Paul Manafort, o qual viria anos mais tarde a ser director de campanha de Donald Trump, e Charlie Black, ambos conselheiros políticos de Ronald Reagan, entregaram à campanha de Soares a 14 de Junho de 1985. Soares era, na altura, tão impopular que fora aconselhado a não aparecer nos próprios cartazes e até nos tempos de antena, sendo substituído por figuras públicas, como a fadista Hermínia Martins ou o corredor Carlos Lopes, entre outros apoiantes famosos cujo apoio foi, muitas vezes, difícil de conseguir.

Uma vez na segunda volta, à boa maneira da esquerda, Soares ressuscita o fantasma do fascismo, dizendo no debate televisivo de 10 de Fevereiro de 1986 que são os ‘saudosistas do antigo regime’ que apoiam Freitas do Amaral. No fim, Soares lá ganha.

O ponto de contacto entre as duas campanhas está, sem dúvida, no jogo táctico, que pode não ser exactamente o mesmo, mas que, como de costume, substitui e mascara o vazio das campanhas eleitorais para a presidência da República. Em 1986, sobretudo na primeira volta, não era Portugal que estava em jogo, era sim a luta fratricida dentro do PS; em 2026, outra vez não é Portugal que está no centro do debate, mas sim a disputa entre os que dizem pertencer àquilo que nestes dias passa por direita e o medo que os do outro lado têm de desaparecer do mapa se esta tal direita prevalecer.

Diz-se que nesta campanha se discutiram sobretudo temas de governação e não temas afectos à presidência. Mas a principal diferença entre a actual campanha e a de 1986 está no calibre dos candidatos. A necessidade de falar de temas de governação deve-se ao facto de que os candidatos não têm arcabouço político próprio que os suporte, tendo assim de desviar a atenção dos eleitores para temas que não lhes pertencem discutir, à excepção, claro está, de Ventura, que desde o início não escondeu a sua pretensão de governar desde Belém. No passado, a discussão fazia-se à volta da personalidade e da capacidade do candidato de se impor ao sistema, de representar a nação e de fazer cumprir a Constituição, entre os demais deveres do Chefe de Estado. Quem não se lembra de Maria de Belém, em 2016, acusar Marcelo Rebelo de Sousa de ser uma pessoa errática porque este só dormia três horas por noite. Na altura pareceu-nos a todos algo ridículo, hoje não sei…

O desgaste do cargo de Chefe de Estado deve muito ao modo de proceder do actual Presidente da República que parece não ter consciência da gravitas que o cargo exige; a coisa começou mal logo de início, quando este decidiu fazer a campanha eleitoral toda de táxi! Ser Chefe de Estado não pode ser equivalente a uma espécie de avozinho que põe os netos sobre o joelho para lhes contar uma historiazinha. A atitude de Rebelo de Sousa, não só é desprestigiante para o próprio e para o cargo, é também altamente condescendente para com os portugueses que são vistos quase como se fossem crianças com problemas mentais que necessitam ser tratadas de modo especial. O povo português não precisa de um avô cantigas que ande por aí aos beijos e abraços, precisa sim de alguém que esteja à altura do cargo que ocupa e que não viva obcecado por ser ele o centro das atenções.

Nenhum dos nomes sonantes da política nacional, Durão Barroso, António Guterres, Paulo Portas -houve quem atirasse ao ar o nome de Pedro Passos Coelho-, nem sequer Santana Lopes, o eterno candidato a alguma coisa, decidiu dar o corpo ao manifesto. A pergunta ‘porquê?’ não é de somenos. A decisão destes políticos pode sugerir que o cargo não comporta o grau de dignidade de outrora. O número excessivo e a relativa baixa qualidade dos candidatos de 2026, que vai de alguém que se propõe instalar uma torneira que dê vinho nas casas dos portugueses a um liberal que parece estar doidinho para viver do Estado, parecem apontar para um desgaste institucional do cargo que terá necessariamente efeitos nefastos.

A ideia de que não é necessário muito para se ser presidente escolheu o pior dos tempos para se erigir, agora que a soberania nacional está cada vez mais sob a ameaça daquilo a que, eufemisticamente, se chama integração europeia. Dado o nosso grau de (ir)relevância no contexto europeu e internacional e a dimensão económica de Portugal, toda a transferência de poder para Bruxelas implica que progressivamente, e num futuro não muito distante, todas as decisões sobre o nosso destino serão ditadas por outrem algures fora de Portugal e não pelos legítimos representantes da soberania nacional, que reside no povo português e que este mesmo povo delega às pessoas que democraticamente elege.

A saga que começou na primeira volta continua, embora o cenário agora seja outro. Tendo descartado nove candidatos, corremos agora o risco de eleger o outro. Dos dois que restam, há um que à partida já é vencedor, não graças às suas qualidades ou historial político, mas sim porque não se quer o outro na presidência. Isto já aconteceu antes; em 2020, não foi Joe Biden quem ganhou as eleições americanas, foi Trump que as perdeu. As pessoas não votaram em Biden porque o queriam para presidente, votaram nele porque ele era o não-Trump. Sabemos todos bem como é que tudo isso acabou; aliás, ainda não acabou!

Quem ganhará as eleições em Portugal? Quem será o próximo Presidente da República de Portugal? António José Seguro ou o não-Ventura?

Os nossos monarcas, esses sim verdadeiramente suprapartidários –o rei é português, não é de nenhum partido– defenderam a nação lusitana contra mouros, castelhanos, turcos e franceses. A república, que começa a sua história manchada do sangue de D. Carlos e do seu filho D. Luiz, tem uma história em Portugal que deixa muito a desejar; sanguinária na sua primeira encarnação, alicerce do Estado Novo depois e agora é o que se vê: motor da mediocridade!

Em vez de uma figura institucional que encarne a nação e os seus ideais, preparada desde a nascença para ser de Chefe de Estado, descendente directo dos fundadores e defensores da pátria, a apenas dois anos do milésimo aniversário de São Mamede, quando D. Afonso Henriques tomou as rédeas daquele pequeno condado, que ele e os seus descendentes viriam a transformar, primeiro, num pequeno grande reino e, depois, no primeiro –e último a cair– império ultramarino do mundo, o que o sistema republicano nos tem para oferecer, sempre sob a égide da igualdade, é a escolha entre o mau e o ainda pior, entre uma banana podre e outra a apodrecer.

 

*MA (Conim.) MPhil, DPhil (Oxon.), Docente em línguas antigas na Universidade de São José