Dizem os brasileiros com razão, que o apressado come cru. Nem sempre é assim, mas é parecido. Aqui há uns tempos, a ver um rerun da TVB Jade, o programa Quatro Jovens em Viagem de Turismo, na realidade quatro octogenários conhecidos actores de cinema e televisão da região vizinha, que iam visitando vários países da Europa, fazendo brincadeiras, provando iguarias e dando destaque a lugares típicos e aos artesanatos locais. Passaram também por Espanha e Portugal, onde tiveram oportunidade de saborear o conhecido jamon ibérico, e em Portugal coube-lhes passar por Belém para provarem os tradicionais pastéis de nata. Vieram os pastéis para a mesa, em pratos à dúzia para aquela gente toda, cameramen, familiares e acompanhantes, empanturrar-se com o delicioso doce.
Em Macau e em Hong Kong existe o conhecido tan tat, parente próximo do pastel de nata, muito menos calórico, mas de massa mais gordurosa. Há várias pastelarias que os confeccionam bem. Assim de repente, estou a lembrar-me de uma loja ali perto da Rua Cinco de Outubro, e outra na Taipa que até oferece uma variante com baba de andorinha (in vó tan tat).
Voltando aos quatro idosos, um deles, Patrick Tsé Yin (alcunha Sei kó – Brother 4), talvez pensando nos inofensivos tan tats desta região, vai daí e mete um pastel de nata inteiro na boca e começa a mastigá-lo. As pessoas incrédulas a olhar para aquele maluco que já tem idade para ter juízo de resto, ainda lhe tentaram dizer qualquer coisa… Man mana Sei kó… quando, para espanto total, Sei kó, sem pestanejar, ainda com o primeiro na boca, junta de rajada o segundo! As imagens que nos chegaram como é normal já vêm depuradas do material supérfluo e inconveniente, senão certamente teríamos visto Patrick Tsé a correr para a casa de banho, ou para o cesto do lixo mais próximo para expelir aquela insuportável quantidade de açúcar. Aprendeu, assim, embora de forma desagradável, a diferença entre um tan tat e um pou tat (pou de Pou tou ngá – Portugal).
Esta parte do referido programa fez-me lembrar uma história. Já lá vão mais de quarenta anos, trabalhava eu numa instituição bancária de Macau, uso obrigatório de balalaica e calças a condizer, e tínhamos uma hora para almoço. Um colega meu, o Taborda, era daquele grupo que na altura veio para Macau jogar futebol, Dani, Carlos Ferreira, Massas, etc. Saudades. Bom, ajudei a comprar o almoço, umas caixas de chám líu (chássiu, siu yôk e galinha) para comermos na sala do arquivo. Normalmente as lojas juntam os molhos em saquinhos de plástico, e perguntam também ao cliente se deseja hám tan (ovo salgado). Se sim, costumam cortar o ovo ao meio com casca e tudo e juntam na caixa. Comecei então a dispor as carnes no papel vegetal, arroz para umas tigelas, as metades dos ovos retiradas em concha com uma colher, os molhos a um canto, faitchis e as colheres de plástico, quando o Taborda (de alcunha Sedas, nome que lhe ficou porque estava sempre a aborrecer o pessoal para lhe arranjar umas sedas), sem esperar pensou: Vou já comer esta metade de ovo cozido e eles que dividam! e vai daí mete à gula toda uma metade de ovo na boca e começa a mastigá-lo! Esbocei ainda um aviso para travar aquela loucura, mas o sistema nervoso dele foi mais rápido na mensagem e o Sedas saiu disparado em direcção à casa de banho para deitar fora aquela enorme quantidade de sal, e bochechar e gargarejar a garganta vezes sem conta. – Mas tu és doido ou quê? Estás bem?
Aquele heong há lou (fulano das berças, como dizem os chineses) já nem quis almoçar, e dali em diante cada vez que via um ovo cozido perguntava três vezes se era salgado ou não.
*Funcionário público aposentado



