Macau não se distingue por acaso. Distingue-se porque, durante décadas, foi capaz de formar gente da terra com uma competência rara: viver e trabalhar em várias línguas e em vários códigos culturais com naturalidade – na escola, no trabalho, na cultura, no associativismo, na economia, no desporto e na vida pública. Essa diferença é um ativo estratégico. E, se Macau quer continuar a ser Macau, então a missão é simples de enunciar e exigente de cumprir: dar continuidade e apostar nesta geração com responsabilidades reais, não apenas com elogios ocasionais.
No discurso dirigido à comunidade macaense, em 10 de Fevereiro de 2026, o Chefe do Executivo Sam Hou Fai deixou uma ideia que vale como orientação: “acreditamos que a comunidade macaense dispõe de amplas oportunidades para contribuir significativamente e alcançar feitos notáveis”. É precisamente nesse “contribuir” – com método, com continuidade e com resultados – que Macau ganha a sua diferença.
Há hoje um conjunto de jovens macaenses (e macauenses de matriz macaense) bem formados, independentes, com experiência e com amor à cidade – uma geração mais “limpa”, menos presa a disputas internas do passado e mais orientada para o que interessa: construir, servir e fazer acontecer. Uma geração ligada ao mundo lusófono de forma prática e contemporânea: a língua como ferramenta de futuro, não como ritual de nostalgia.
Alguns nomes são já evidentes e merecem ser chamados pelo que representam: por ordem alfabética, Anabela Barros Silvério, Ângela Ramos, André Ritchie, António Monteiro, Bernardo Alves, Duarte Alves, Duarte da Silva Rosário, Elisabela Larrea, Fernando Lourenço, Gisela Nunes, Giulio Acconci, Isabel Salvado Silva, Jerusa Antunes, Jorge Neto Valente, José Basto da Silva, Mariana César de Sá, Mina Pang, Paula Carion, Sérgio Peres, Wong Ka In.
(E sublinho: não é uma lista fechada – é uma lista de pessoas concretas que conheço e assumo, sabendo que há outras com o mesmo perfil e mérito.)
Alguns destes nomes já participam em órgãos consultivos e técnicos – e isso é um bom sinal. Mas o ponto decisivo é outro: a continuidade. Macau não precisa apenas de “convidados” para painéis, nem de nomes para preencher comissões. Precisa de percursos com sequência, de missões com calendário, de projetos com orçamento, de metas avaliáveis e de renovação constante. Em resumo: aposta séria, com consequências reais. A frase deve ser dita sem rodeios: a missão da RAEM é pôr esta geração a decidir e a executar, não apenas a “representar”. E, ainda mais direto: não basta sentá-los à mesa; é preciso dar-lhes instrumentos – responsabilidade, continuidade, meios e exigência.
Esse princípio torna-se ainda mais relevante quando olhamos para a integração regional. No mesmo discurso, o Chefe do Executivo foi explícito ao apelar a uma atitude proactiva: “incentivamos e apoiamos os amigos macaenses a deslocar-se proactivamente… à … Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”. Ora, é precisamente aqui que os perfis bilingues/trilingues – com cultura de mediação, disciplina profissional e ligação ao mundo lusófono – podem fazer a diferença: a ligar pessoas, instituições, projetos, investimento, educação e cultura, com credibilidade e resultados.
E aqui entra uma diferença que importa dizer com clareza, sem dramatizações. Na RAEM existem várias organizações de bairro, sociais e sindicais que, com disciplina interna, rede, treino e estratégia, promovem, preparam e lançam os seus associados para lugares cimeiros. Isso faz parte do seu modo de funcionar e, em si, é uma realidade organizativa que produz resultados. Ora, é precisamente aqui que a nossa comunidade, menos organizada, falha: temos quadros, temos talento, temos bilingues/trilingues com mundo e com Macau no coração, mas muitas vezes não temos uma “máquina” cívica estável que os projete, os acompanhe e lhes dê continuidade. Resultado: o mérito existe, mas a escada é curta; a competência está lá, mas o caminho para o topo é irregular; há conteúdo, mas falta estrutura.
Acresce um aspeto de natureza estrutural: os modelos de participação e concertação foram desenhados para assegurar estabilidade, previsibilidade e continuidade administrativa. Quando não existem mecanismos formais e regulares de renovação, com critérios claros e trajetos transparentes, a incorporação de novos quadros tende a ser mais gradual e dependente de oportunidades pontuais. Por isso, quando falo em “aproveitar esta geração”, não é retórica: é um programa de trabalho para a cidade e para as instituições. Passa por criar vias transparentes e previsíveis para a progressão por mérito; por garantir que os órgãos consultivos e técnicos não são apenas lugares de presença, mas de impacto; por apoiar projetos que reforcem o bilinguismo/trilinguismo como prática viva no ensino, na cultura e na economia; e por assegurar que quem tem qualidade não fica refém de culturas de fechamento que, por vezes, resistem à renovação – que a entrada de novos quadros aconteça por um percurso normalizado, e não apenas quando essas barreiras cedem.
Macau ganha quando esta geração deixa de ser “promessa” e passa a ser motor. Menos cerimónia, mais execução. Menos fotografia, mais obra. Menos folclore, mais futuro. Continuidade não é uma palavra bonita: é política pública, é método, é coragem e é compromisso.
E, para terminar: façamos isto com cabeça fria e mãos firmes – sem transformar cada nome e cada nomeação num caso de vida ou morte. Macau já tem muralhas e história suficientes; não precisamos de inventar mais cercos na Fortaleza do Monte só porque decidimos fazer uma coisa simples: apostar com continuidade em quem é bom.
*Antigo presidente do Instituto do Desporto



