António Aresta*
António Aresta*

António Nascimento Leitão [1879-1958], natural de Aveiro, formado na Escola Médico-Cirúrgica do Porto, aporta a Macau em 1907 como alferes médico, do Quadro de Saúde de Macau e Timor.

Em Macau, o Grémio Militar, após um período de adormecimento, despertou para a liderança da vida cultural da cidade, através de uma sequência metódica de conferências mobilizadoras da comunidade portuguesa. A primeira conferência, a 3 de Janeiro de 1909, foi proferida por Manuel da Silva Mendes e intitulava-se, Lao Tse e a sua doutrina segundo o Tao Te King.

A segunda conferência, em 25 de Fevereiro de 1909, foi de António Nascimento Leitão, justamente intitulada, A Sanidade de Macau – Traços de Higiene Urbana e Social, publicada nesse mesmo ano pela Imprensa Nacional, num livrinho com 55 páginas. Esta conferência não é um exercício de retórica, é considerada um programa de governo para a saúde pública no Território.

Escassos dois anos depois de ter chegado, António Nascimento Leitão [ANL] está apto a identificar as graves debilidades na higiene urbana e social da cidade, apontando os caminhos para a urgente regeneração que era necessário encetar. Propõe uma ousada nova leitura da velha cidade: higienizar, limpar, organizar, disciplinar, arborizar e educar. E em nome do supremo bem comum, expropriar o que for preciso. Era uma revolução que se anunciava. Foi feita? Sim. E como se diz em bom português, foi feita às “pinguinhas”, nas décadas seguintes.

O retrato que faz, em 1909, é arrasador: “Ali ruelas sem ar correm na penumbra e acotovelam-se a cada passo. Por todas moram a miséria e o vício. Íntimas comunicações há entre elas e as artérias mais amplas e de maior movimento, que são quatro: o do jogo que conduz à desgraça; a do ópio à doença; a do crime ao estiolamento da prisão; e a da morte à vala misteriosa do sepulcro. Por triste ironia, dá-se a uma delas o nome de Felicidade”.

ANL faz uma reflexão sobre o papel do Estado e do governo, propondo uma intervenção activa na malha urbana, com bairros arejados, com a eliminação das fossas a céu aberto, ruas traçadas com uma régua e esquadro e o controle das fontes de água potável. ANL realça ainda este decisivo pormenor: “a instrução, a associação e a previdência são forças que, na destruição da miséria pública, animam as condições morais, físicas e económicas, precursoras da higiene, da saúde e do bem estar”.

ANL destaca duas “instituições cristãs de instrução e beneficência”, com um papel decisivo nesta mudança de mentalidade e de práticas sociais, como sejam a Associação Promotora da Instrução dos Macaenses e a Santa Casa da Misericórdia, ainda hoje activas no século XXI e servindo novas necessidades.

A Santa Casa da Misericórdia “assiste aos enfermos, aos desamparados, aos famintos, à pobreza, enfim, com hospital, dispensário, albergue, cozinha económica, asilo-escola e habitação barata e salubre. As outras instituições com escolas e com recolhimentos, asilo de artes e ofícios, asilos de infância e de inválidos – colaboram na obra da assistência pública da Santa Casa e previnem a miséria com a regeneração e educação física, moral e intelectual”.

Era urgente contrariar essa desmazelada forma de estar no mundo, que marcava ainda mais a vulnerabilidade humana, “no proletariado chinês e na massa inculta da população de Macau a organização da família está abalada até à sua base de sustentação pelo peso enorme de uma herança: o jogo, a síflis, o alcoolismo e a afeção moral da promiscuidade”.

ANL defendia um específico programa de apoio social, “é a puericultura e a protecção da infância. A mortalidade infantil em Macau regista-se, não por óbitos isolados, mas por intermináveis hecatombes”.

Esta descrição de Macau é digna de figurar numa antologia e por isso a deixo aqui registada: “Imagine-se um anfíbio raro, de excepcional beleza, deitado sobre um flanco numa praia de lodo e soerguendo do mar a cabeça num grácil torcicolo. O dorso, mostrando ao sol a pele de inestimável preço, inflecte-se ligeiramente, como se quisesse ocultar na donairosa postura uma úlcera saniosa que lhe corrói o ventre semi-submerso. Pulsa-lhe forte o coração, vive, mas preso no lodo. A nutrição, porém, ressente-se com a extensão e a cronicidade da úlcera. Assim é Macau. A Penha é a cabeça, que mal se demarca do colo; a face ventral perde-se no Porto Interior; a úlcera alastra-se pelo Bazar, Tarrafeiro, Patane, San-kiu, Sa-kong e pelas várzeas; e o dorso é a pitoresca e sadia contra-costa. O açoriamento do porto refreia-lhe a actividade, compromete-lhe a vida de relação; e a úlcera, urbana e social, sem tendência para a cura, alastra-se em constante supuração, afecta-lhe as forças vitais, definha-lhe de contínuo a vida vegetativa”.

Este reiterado “amor confessado pelo pensar”, para utilizar a expressão de Ricardo Jorge [1858-1939], médico higienista que fez escola, grande escritor e amigo de Camilo Castelo Branco, vem colocar ANL como um dos grandes pensadores de Macau, cuja interpelação antropológica, social e política nos faz olhar para a cidade com uma vontade de intervenção animada pela pedagogia social. Para os portugueses e para os chineses, a viver no mesmo perímetro, mas oriundos de matrizes civilizacionais diferentes, ANL, em 1909, faz-nos pensar na ética do futuro, isto é, na dimensão ética da cultura política e da intervenção social.

Muito mais tarde, Hans Jonas [1903-1993], nesta órbita especulativa, criará o conceito de princípio da responsabilidade. E esta forma ética de pensar e de actuar está presente na polémica que travou com Eduardo Reis, também médico, e que resultou na publicação deste ensaio, Desatinos dum Adventício – a propósito dumas confissões feitas sem exame de consciência prévio [Tipografia Mercantil, 54 pp., 1931].

Numa próxima oportunidade voltaremos a ANL, uma das grandes figuras intelectuais de Macau.

 

*Ex-docente em Macau. Colaborador regular do JTM, desde há décadas. Autor de variada bibliografia sobre Macau