Albano Martins

Albano Martins*

1.Em Janeiro deste ano a taxa de inflação em Macau, medida pela variação média dos preços dos últimos doze meses, ou seja abrangendo ainda onze meses de 2015, foi de 4,48 por cento!  A minha última previsão de 29 de Janeiro deste ano, apontava para um valor no final de  2016 situado no intervalo entre 3,2 e  4,4 pontos percentuais.

Iremos assistir assim, se estiver certo, gradualmente ao longo dos primeiros  seis a sete  meses de 2016, a uma redução da inflação, medida pela tal variação média, provavelmente abaixo do limite mínimo previsto, sendo que algures na segunda metade do ano, se assistirá a uma ligeira subida desse valor e que reporará o índice dentro do intervalo avançado.

Em boa verdade sinto que haverá possibilidades de essa tendência pressionar para baixo os 3,2 pontos percentuais!

Mas é ainda muito cedo para se concluir por uma tendência desse tipo. No entanto, a pressão será muito maior sobre o limite inferior do que sobre o limite superior do intervalo que avancei. Uma boa notícia para todos!

Com grande probabilidade podemos dizer, mesmo faltando onze meses ainda, que a nossa inflação ficará abaixo do valor de 2015 que, como sabem, se situou nos 4,56 pontos percentuais!

 

2.Temos um Plano quinquenal que pela primeira vez foi concebido para Macau. Acredito que a China tenha feito questão em dar um sentido às nossas “vidas”!

Trata-se de um exercício que considero de extrema importância por enquadrar a actividade do governo nos próximos cinco anos, funcionando com uma espécie de fio condutor entre as linhas anuais de acção governativa, retirando aquela sensação que todos nós temos de que o que se encontra nas LAGs é tudo muito conjuntural e sem sentido de futuro.

Macau precisa de se repensar, e essa função deve encontrar pontapé de saída primeiro do seu próprio governo, que nos deve dizer o que vai na sua alma, para nós depois podermos dar o nosso próprio contributo. A população aí terá naturalmente uma palavra a dizer, uma reflexão a fazer. Desse exercício poderão vir a sair inputs para os órgãos do governo ajustarem e re-quantificarem as suas metas, ou melhor quantificarem, porque curiosamente não fizeram bem o primeiro trabalho de casa!

Será errado deixar-se que caia na praça pública todo esse exercício macroeconómico de quantificação pois isso não se faz atirando a moeda ao ar nem ouvindo o que vai na alma de toda a gente.

Se o Governo quer de facto ouvir, com respeito e com pragmatismo, o que a população e os estratos mais representativos da nossa inteligentzia de facto pensam sobre Macau, deve preparar o trabalho de casa com alguma seriedade. Não tem interesse algum deixar-se uma questão de tão grande importância sem enquadramento técnico e científico.

Há questões que toda a gente gostaria de saber.

Para onde vamos?

Depois dessas recessões que ainda iremos ter à porta, qual é a ideia? Crescer a um dígito baixo? Crescer a dois dígitos?

Quais as consequências directas para Macau desses diferentes tipos de comportamento?

Como iremos devolver a cidade à sua população, residente e não-residente?

Iremos continuar a ser empurrados continuadamente nos passeios, nas passadeiras, quando temos de sair de casa, ou vamos começar a pensar devolver a cidade aos peões e enterrar o trânsito em passagens subterrâneas ou desniveladas?

Continuaremos a ter de subir escadas rolantes para alcançar passagens aéreas ou teremos toda a praça, agora alargada com as ruas que desaparecem, para podermos ir a esplanadas, passear a família, montar negócio e viver a vida com qualidade?

Continuaremos a ter um sistema de saúde sem qualidade, sem especialistas que acompanhem essa qualidade que se pretende, ou vamos apostar em trazer para cá medicina de qualidade, fazendo de Macau aquilo que nos anos 90 muita gente achava que tinha pernas para andar, mas que acabou por acontecer em paragens perto de nós, mas não cá?

Vamos diversificar, como, onde, com que gentes e para que gentes?

Enchendo as nossas ruas, os nossos espaços, apenas para se vender mais?

Vamos continuar a atulhar o nosso ensino superior com gente vinda de fora em quantidade, apenas para rentabilizar o negócio da educação, ou vamos virá-lo para nós, para as nossas gentes, residentes e não-residentes, e fazer dele um instrumento de verdadeiro valor para essa qualidade de vida que se pretende?

Que investigação vamos fomentar? Que ensino de facto faz falta a essa visão de vida com qualidade?

Como vamos preparar as nossas gentes para assumir as tarefas da governação de forma mais abrangente possível, embora acredite que a China terá muita relutância, a meu ver mal, em aceitar que Macau se “democratize” um pouco mais?

E como vamos resolver esse problema complicado que é continuar toda a gente a trabalhar até quase morrer, sem segurança social com um mínimo de dignidade ?

No final, o grande desafio vai ser conseguir fazer de Macau uma cidade harmoniosa, como tanto quer a China e o seu Governo local diz, sem que isso não passe por uma melhor redistribuição de rendimentos e um fim a tanta exploração quase atroz de residentes e não residentes!

Um cidade harmoniosa pressupõe também respeito pelos que aqui vivem dezenas de anos a fio, mas que são paradoxalmente e xenofobamente considerados não-residentes, sem acesso a praticamente nada.

Quando se vai assumir aquilo que, afinal de contas, fez de Macau a cidade que é, uma cidade quase totalmente de imigrantes?

Só porque uns são chineses e outros portugueses e podem ter o estatuto de residentes, então e os filipinos, os indonésios, os vietnamitas, etc, que por cá fazem vida há dezenas de anos e executam aquilo que muita gente local não quer já fazer?

Nem uma simples e miserável pensão lhes espera no final da vida activa, apesar da entidade patronal ter sido obrigada a contribuir mensalmente para o FSS com duzentas patacas por trabalhador não-residente, uma espécie de penalização por não haver locais para determinadas funções!

Ou simplesmente xenofobia?

 

*Gestor