Júlia Serra*
Júlia Serra*

JULIA SERRA*

 

Este novo exemplar “Figuras de Jade V”, da autoria do investigador e filósofo António Aresta (AA), continua a prospeção das mais brilhantes preciosidades que contribuíram para fundação e desenvolvimento da História de Macau e ajudaram a consolidar diálogos e estreitamento de relações amistosas entre Macau- China – Portugal, no sentido de reconstrução de um espaço de convivência futura.

Desfilam, portanto, figuras célebres de vários níveis científicos e de formações diversas, que, cedo, chegaram a Macau com objetivos definidos – evangelização, educação, ação social e económica, jurisdição, entre outros – e prontos a desenvolver competências, junto de um povo com costumes e línguas diferentes que, também eles, estavam a formar o seu novo espaço. Estamos a concentrar-nos nos primeiros tempos e nas reações entre as várias raças que confluíam no território.

Volvidos cerca de 500 anos da chegada dos Portugueses a essas paragens, AA continua a relembrar, no seu quinto livro, pedaços da história do território e da nossa História sobre o tempo vivido, não esquecendo: Camões, a sua Gruta, o seu papel no roteiro turístico, na atualidade; Manuel da Silva Mendes, Deolinda da Conceição, Celina Veiga de Oliveira, Jorge Rangel, Rogério Beltrão Coelho, Graciete Batalha, Camilo Pessanha, Camilo Castelo Branco, Monsenhor Manuel Teixeira, José Rocha Diniz; Beatriz Bastos da Silva, Rocha Vieira e tantos outros que o leitor atento e perspicaz poderá contabilizar descobrindo, na certeza, que ultrapassam uma trintena.

Para além do destaque das personalidades, amplamente acompanhadas de biografia e bibliografia, ressaltam outras características de Macau a nível de instituições, escolas e associações. Foram/são ainda resgatadas as relações de amizade de trabalho, alguns episódios mais caricatos e outros de beligerância que acompanharam a flutuação da história da China, com as suas crenças e rituais.

Salienta-se a capacidade de investigação científica e de resiliência de António Aresta para lapidar o mais possível o “seu Jade” – Manuel da Silva Mendes escreveu A Jada (“Manuel da Silva Mendes – memória e pensamento – Volume Primeiro”). Na comemoração dos 150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes, em 23 de outubro de 2017, a Associação Amigos do Livro em Macau preparou esta reedição que foi coordenada pelo historiador e escritor António Aresta, para que ele pudesse/possa encantar o público.

Assim, a perfeição é uma das características mais apreciada no trabalho do autor, sempre aliada ao pormenor e ao ajaezamento do seu todo.

A Educação a par da Administração, resultantes da atitude do governo de Portugal, são dois temas bem aprofundados, suportados em documentos raros que parecem desenterrados do tempo e das pedras. As referências a personalidades ilustres portuguesas contribuem para a fidelidade histórica e para confrontar o passado com o presente, avaliando o desempenho daqueles que foram chamados a exercer as funções mais elevadas em Macau, num tempo de controvérsia e de falta de liberdade.

Cabe ao leitor estimar a meritocracia ou o desmérito de quem andou por essas paragens longínquas.

A educação estreitamente associada ao ensino e aos missionários pode dizer-se que foi o pilar de desenvolvimento do território, lutando pela Cultura e Língua Portuguesas; sempre com a clarividência de que havia outras culturas e outras línguas que não deveriam ser elementos de rutura – caso da aprendizagem da língua sínica e do dialeto cantonense – a língua remetia para outras culturas e questões identitárias a defender por cada um desse outro.

No Liceu, lecionaram os mais distintos professores e pessoas mais doutas da terra: José Caetano Soares, José da Costa Nunes, Hugo Castelo Branco, Telo de Azevedo Gomes, Fernando Lara Reis, António Nascimento Leitão, José Morais Palha, Luís Gonzaga Gomes, Júlio Massa, Benjamim Videira Pires, Fernando Leal. Além do distinto corpo docente, os contínuos (destaca-se o poeta José Joaquim Mnteiro) e demais pessoal formavam também um grupo talentoso.

Pela situação geográfica de Macau, muitas destas figuras passaram por outros territórios portugueses – caso da Índia e de Timor – e AA conseguiu recuperar “documentos perdidos” que contribuem para unir melhor as páginas da História que, em síntese, correspondem ao sentido da “microepopeia da fusão entre as civilizações portuguesa e chinesa”, como escreveu Sofia Minfen Zhang, na contracapa do livro.

O autor revive na obra, a sua terra do coração, e pensa naqueles que, algum dia, poderão conhecer esse cadinho de terra, lá longe …. organizando uma lista dos melhores livros, para descobrir Macau.

António Aresta, não será ele a principal “Figura de Jade”?

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau