Júlia Serra*
Júlia Serra*

Num tempo em que se festeja Camões, lembrei-me escolher um escritor da diáspora que foi galardoado com o “Prémio Camões” em 1997, pelo conjunto da sua obra – Pepetela.

O escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana Santos, mais conhecido por Pepetela, nasceu em Benguela, em 1941. Licenciado em Sociologia, tornou-se célebre como escritor “revolucionário”, um guerrilheiro que sempre lutou pela libertação de Angola (MPLA). Foi professor e exerceu vários cargos, mas a vida foi passada a escrever obras e a História de Angola, cruzada com temas transversais de África e com os problemas coloniais. Com formação europeia e portador de ideias geradas na Casa do Império, possuía uma visão mais completa para o futuro da terra-mãe. Da sua sementeira literária, destacam-se romances de longo fôlego como, “Mayombe” (1980), “A Geração da Utopia”(1992), “A Gloriosa Família(1997), “Planalto e Estepe”, (2009) e outros, talvez menos volumosos, como “Muana Puó”(1978), “O Desejo de Kianda” (1995) e “A Montanha da Água Lilás” (2000). Muitos outros ficaram por nomear, mas deste alfobre literário fixei-me – pela temática e pelo subtítulo da capa Fábula para todas as Idades – no conto “A Montanha da Água Lilás.

Trata-se de uma estória que ele conta à sua filha Lueji, reproduzindo o que “O avô Bento, em noites de cacimbo à volta da fogueira, nos contou, fumando o seu cachimbo que ele próprio esculpiu em pau especial” (p.11). É um conto que pode ter vindo de outras paragens “Até mesmo do Oriente”. Acrescenta o autor que não inventou nada e os desenhos do artista Maurício Negro – laureado no XX Salão Internacional de Desenho para a Imprensa na categoria Ilustração Editorial, em Porto Alegre, em 2012 – tornam o cenário mais real. Ora, na fábula e lembrando Esopo, os intervenientes eram animais que falavam numa linguagem simbólica para entretenimento e para extrair moralidades.

O mesmo se passa neste conto de Pepetela em que há um convite à reflexão, a partir dos encontros/desencontros entre os animais: uns animais “peludinhos”, semelhantes, pela sua dimensão a coelhos ou chimpanzés; estes seres estranhos pensavam, falavam e trabalhavam. Viviam numa floresta, onde perto havia montanha e um regato de água e produziam sons que poderiam intimidar outros estranhos. A descrição da montanha era encantatória, pois “toda a montanha estava coberta por vegetação: árvores grandes como a mafumeira, a mulemba ou a amoreira de tronco branco, e também as de frutas silvestres.” (p.19). O capim era raro e a montanha tinha dois cumes: o cume Lupi, o mais alto, e o cume do Sol, no extremo oposto. No meio dos dois cumes havia o Morro da Poesia. Os animaizinhos pequenos eram o lupi-lupi-lupi e ludipilavam, conforme o seu estado de espírito. Os cambutinhas produziam um ruído agudo; os maiores tinham um som mais grave e menos alegre.

A família ia crescendo e funcionava como uma sociedade, onde havia uma professora, um cientista que se dedicava a descoberta e perfuração do solo… havia laboratório. Os mais velhos trabalhavam mais, eram lentos, mas precisos nas contas (lupões); os mais novos aprendiam rapidamente, corriam e trabalhavam menos. Ora esta diferenciação remete-nos para outras significações mais profundas: a desigualdade social, a instituição de poder hegemónico, lutas de classes, ganância e cobiça, como nos vai educando o decorrer da história.

Aquela harmonia existente entre os pequenos animais da montanha: “sítio mais calmo e perfumado da montanha e dali se podia ver melhor o luar da Lua cheia; por isso era o Morro da Poesia. (p.20) “foi disputada devido à descoberta da água lilás que despoletou conversas dos oportunistas, sem respeitar conselhos dos mais avisados cientistas e técnicos. A construção do tanque de barro foi a explosão da discórdia, pois todos queriam apropriar-se da água para se banharem, dado que a água tinha poderes mágicos e curava maleitas. Não tardou a chegada de outros animais (caso dos rinocerontes e onças) que foram afastados pela discórdia provocada entre os habitantes da planície e dos forasteiros da montanha, porque todos pretendiam negociar a água lilás. A tão desejada “maravilha abençoada” tornou-se numa maldição, pois a sociedade abriu brechas à solidariedade existente, criando um espaço de rutura com o outro”.

As discussões eram acesas, as reuniões eram interrompidas: “Os jacalupis já não foram à continuação da reunião, no dia seguinte.” (p.109), mas estavam “gordos”, enquanto os lupis vinham atrás para os impedir de “trocar as cabaças por quindas de carne. A água era pouca para tantos clientes” (p.101). Os lupões começaram também a definhar e a própria Montanha da Poesia fez perder o halo poético – os poemas rareavam, porque os interesses crescentes apagavam a voz. Os poderosos lupis quiseram obrigar os lupis cambutas a transportar a água para baixo, sob o comando de um chefe. “Os lupões foram embora montar guarda à volta do tanque. Os cambutinhas ficaram mesmos desanimados” (p.127).

Após discussão acesa, o lupi-tímido alvitrou que seria melhor não vender mais água aos carnívoros e, assim, poderiam banhar-se novamente no tanque. Tentaram definir novas regras e, enquanto uns seriam afastados, a paz regressou – menos para o pensador e para o poeta. Outros animais chegaram: “E assim se chegou à paz armada e contra-armada na planície” (p145).

Os negócios continuavam na planície, agora num clima de mais harmonia, enquanto outros pensavam regressar ao alto da montanha; porém, insaciáveis, pensaram construir um outro furo para obterem mais água lilás. As discussões foram muitas, mas lá se decidiram pelo furo extra, apesar dos avisos emitidos pelo lupi-pensador e pelo poeta: “Só estão a engordar os jacalupis, mais nada. E eles vão aumentar a opressão.” (154). Estes dois ficaram exilados no alto das árvores.

Conclusão: o novo furo rebentou tanta água que originou o tal riacho que descia a montanha e desaguava no rio Lupi. Para suster a água, ficaram demasiado cansados e tudo se transformou… até o interesse em se banhar no tanque. Os escravos ficaram dependentes dos outros que lhes poderiam atirar apenas alguns frutos… às vezes, os que se afastaram vinham visitá-los e matar saudades. A montanha e os poemas, esses, resistiram e fizeram parte da estória e da História.

Esta fábula intemporal não apenas conta uma história como convida as futuras gerações a refletir sobre o impacto das atitudes pessoais no coletivo ou, de uma forma mais abrangente, de um país no mundo. A questão política ressalta nesta linguagem simbólica, através do poder hegemónico, dos interesses pessoais, da falta de identidade de um povo, na invasão abusiva do território e na submissão dos mais fracos perante a voz poderosa dos autocratas. As mesmas disputas que se sucedem no conto subsistem hoje na dimensão universal; eles (lupis) procuravam um furo extra para produzir mais água lilás; hoje, é a guerra do petróleo e das terras raras. É a alegorização do petróleo estampada na “Montanha da Água Lilás”.

Pepetela, pela sua mundividência, teve a perceção de que esta fábula se iria repercutir a nível global – ele que conhecia o valor do petróleo na sua terra-mãe – assim aconteceu, e o mundo vive aflito à espera que ele volte para as necessidades quotidianas, enquanto o fluxo normal dos barris não circular.

Um livro encantador que se dirige a todo o público, proporcionando leituras diferentes e provocando interrogações, tal como o autor prenunciou:

“Foram talvez estes poemas que chegaram ao conhecimento dos avós dos nossos avós, quando eles compreendiam a linguagem dos lupis. E nos contaram à noite, na fogueira, para transmitirmos às gerações vindouras. Aprenderão elas com a estória?” (p.163).

 

*Docente. A autora escreve sob o novo Acordo Ortográfico que não está oficialmente em vigor em Macau